A Túnica Inconsútil - bloco 04 (p. 449-456)
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'wnlwrcs, hoje há espetáculo no mundo. \'umos ver a virgem, a virgem tatuada, a virgem tatuada por Deus. l'lu está nua e ao mesmo tempo vestida de tatuagens. Meus senhores, a virgem vai se desdobrar em milênios. ll1i intuições nas tatuagens, há poemas, há mistérios. Jl por isso que o espetáculo é bonito. I! por isso que a virgem I vos atrai. \'uuh:. senhores !
O GRANDE CIRCO MfSTICO
I l ~u':mco de câmara da imperatriz Teresa -- Frederico Knieps [resolveu que seu filho também fôsse médico, '"'" u rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes, 111111 ela se casou. fundando a dinastia de circo Knieps
dt• que tanto se tem ocupado a imprensa. I 'harlote, filha de Frederico se casou com o clmv11, de que nasceram Marie e Oto. I' Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora lllll' tinha no ventre um santo tatuado. A filha de Lily Braun - a tatuada no ventre quis entrar para um convento. ma~ Oto Frederico Knieps não atendeu. 1• Margarete continuou a dinastia do circo dl' que tanto se tem ocupado a imprensa. l'ntão. Margarete tatuou o corpo ~ofrendo muito por amor de Deus, pois gravou em sua pele rósea a Via-Sacra do Senhor dos Passos. I·' nenhum tigre a ofendeu jamais; ,. o leão Nero que .iá havia comido dois ventríloquos. quando ela entrava nua pela jaula a dentro, d10rava como um recém-nascido . .'-il.'u cspôso - o trapezista Ludwig - nunc;1 mais a pôde amar, pois as gravuras sagradas afastavam .1 pele dela o desejo dêle. l'ntão, o hoxeur Rudolf que era ateu ,. era homem fera derrubou Margarete e a violou. l.lnando acah
JORGE DE UMA 1 OHRA COMPLETA ' VOLUME I
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do [ Circo Knieps. Mas o maior milagre sâ1..l as suas virgindades em que os banqueiros e os homens de monóculo têm !;ão as suas levitações que a platéia pensa ser .: a sua pureza em que ninguém acredita; são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo; mas as crianças crêem nela.~. são seus fiéis. seus I seus devoto~. Marie e Helene se upresentam nuas, dançam no arame e deslocam de tal forma os membros que parece que os membros não são delas. A platéia bisa coxas, bisu seios, bisa sovacos. Marie e Helcne se repartem tôdas. se distribuem pelos homens cínicos. mas ninguém vê ao; almas que elas conservam puras. E quando atiram os membros para a visão dos homens, &~tiram as almas para a visão de Deus. Com a verdadeira história do grande circo Knieps muito pouco se tem ocupado a imprensa.
A MORTE DO GRAO-CHEFE
A MORTE do grão-chefe oriental deslocou grandes coisas. mães de olhos em amêndoa. os homens de turbante e albornoz e de mantos de sêda disseram : morreu o pai, morreu o chefe. E o telégrafo transmitiu aos remotos impérios a notícia nica: morreu o chefe. E a grande muralha tremeu nos alicerces, pois os arautos percorreram gritando: morreu o chefe. Depuseram em seu ataúde transportado por vinte elefant" • negros a imensa flor de lótus cuJo pedúnculo brota fundo do Oceano Indico e cujo pistilo é o Monte Everest; O gigantesco Buda abriu os olhos devagar e os fechou passível. Colocaram em sua sepultura maior que uma catedral o seu· alfange enorme com que degolou milhares de inimigos de sua religião e mais o colossal rubi de seu turbante que
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valia um país do ocidente e o seu fiel eunuco que abriu o ventre quando soube da morte do chefe. ~·Jas a franzina favorita de seu serralha fugiu com o aviador inglês, e os párias, os inúmeros párias filhos das plantas dos pés do Daibutsu, disseram apenas: morreu o chefe, que nos adiantava o chefe? 1· as encarceradas do harém disseram apenas: morreu o eunuco; morreu o eunuco. que nos adiantava o eunuco? .'\mbos compareceram nus perante Cristo. IJm com o sexo de menos e o outro com o sexo de mais. I viram o grande Brama prostrado aos pés do Homem com todos os seus braços baixados como uma centopéia humilde. o Deus que tinha diante de si as medidas do Filho. lhe per- guntou então: Por que não trouxestcs a minha semelhança'!
UM ANJO DE TENTAÇÃO BAIXOU JUNTO AO POFT A
:\sSIM, eu irei louvar e me prostrar diante da musa de certas reintegrações -- musa umca. I~ por isso revelarei também esta musa de sabedoria. I: a revelarei a todos. 1· muitos serão os que primeiro a poderão contemplar. l'orque esta musa sempre existiu c grandes foram sempre ~~~ poderes c as reintegrações que de tôda ela provêm. A~ almas desfalecidas pelo temor e pelas turbações d;, vida a ignoram. mas eu acompanhei desde o primeiro lúdo a indisciplina de sua sabedoria e a multiplicidade de seus caminhos: ··u vi com os meus olho~ os prodígios da musa e a posso revelar [a todos. Fia é uma fonte de propiciação. de semeaduras. de beleza. [ de renovação. l:u vos anuncio a minha musa. Eu te revelarei, minha musa. Fu te revelarei aos desiludidos da~ outras.
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Eu te revelarei aos solitários para que êles fiquem patriarcal! às gentes das praças públicas e dos circos para que as gent• vejam a que não tem umbigo; ~ aos hermafroditas belos para que de si próprios [e reproduzam; aos belos xifópagos de sexos diferentes para que [o incesto natural e forçado e reproduzam os netos e os bisnetos eu te revelarei aos eunucos c aos circuncisos para que êles se recomponham nas tuas últimas gerações; às esquisitas e lindíssimas lésbicas: elas se limparão no puríssimo da musa; o macho comum e a fêmea comum imitarão a geração depois que a geração ímpar da musa fôr criada. Então continuarei a revelar a musa das renovações. Eu te revelarei aos peixes para que êles criem olfato e testemunhem o teu cheiro; aos cisnes; êles pedirão a maciez de teus pêlos secretos; às aves que têm asas, mas não riem, para que riam e [ pletem sua felicidade; cochicharei teu nome ao ouvido dos surdos e êles. ouvirão [Música. Eu te revelarei às plantas carnívoras para que elas se [ nizem; eu te revelarei aos leões ferozes para que os beija-flôres [sigam abrigar ninhos permanentes nas suas belas jubas. Em verdade, ó querida musa minha, eu te revelarei [maravilhas; e elas se cobrirão de areais; e depois te revelarei a Pilatos para que êle lave os [de Iscariotes; eu te revelarei a Salomão que tinha mil concubinas para que êle fique viúvo e adore o teu Deus; eu te revelarei a Davi e êle comporá novos salmos e [ cerá a espôsa de Urias; e enfim te revelarei aos homens comuns para que êles se transfigurem. Nada mais direi sôbre a musa que preside o desejo de do poeta e preside a certos dons de sabedoria infusa que ainda lhe vam da saudade infinita e inextinguível dos dois anjos opostos •.
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Mas, eu, imitação malograda de Cristo, ~~·r incontentável e boxeur caído em todos os milenares encon- [ tros com Deus, me soerguerei ainda para correr ao comêço das coisas; ,. lc revelarei, musa minha, •' primeira serpente para que ela, l'nm a corda de Judas, se enforque na árvore da ciência do [Bem e do Mal.
AS VOZES DO HOMEM
NM)UE.LE momento de angústia, o homem não sabia se era o mau ou o bom ladrão. I·: quando a mais amarga das estrêlas o oprimia demais, l'is que a sua bôca ia dizendo: l'll sou anjo. 1·: os pés do homem: nós somos asas. 1·: as mãos: nós somos asas. F a testa do homem: eu sou a lei. I~ os braços: nós somos cetros. F o peito: eu sou o escudo. I·: as pernas: nós somos as colunas . 1·: a palavra do homem: eu sou o Verbo. 1·: o espírito do homem: eu sou o Verbo. F o cérebro: eu sou o guia. 1·: o estômago: eu sou o alimento. I: se repetiram depois as acusações milenárias. I~ tôdas as alianças se desfizeram de súbito. 1·: tôdas as maldições ressoaram tremendas. F as espadas de fogo interceptaram o caminho da árvore da [vida. I: as mãos abarcaram o pescoço do homem: nós te abarcaremos. !' o sôpro do homem : denunciar-te-ci ao Senhor que renovará a maldição de Caim. F os pés do homem o levaram até à aba da montanha empi- [ nada na treva. Mas antes os membros do homem se contraíram como um [ clown com tétano.
E sua língua se sumiu diante das vozes que vinham da [ inteligência, dos sonhos e da memória. E outras vozes saíram de seu passado e da noite secular . [ confusão das línguas . O homem não sabia se era o bom ou o mau ladrão. E suas vísceras foram crucificadas uma a uma c seus me~mt•rCI suaram sangue e se afundaram na terra. E seus ossos foram reduzidos à poeira sonâmbula que erra pelas estradas até o dia do julgamento final.
O POETA QUE DORME DENTRO DE VóS
~LE POSSUÍA mãos longas e seus olhos eram meigos. t::le era duro, ríspido c triste e algumas vêzes contentíssimo. Se alguém olhasse bem de perto decerto logo enxergaria que viera êle de muito longe e que havia luas extintas espalhadas pelo seu corpo. ~le era puro como um menino e era sábio como um profeta: mais ligeiro que qualquer flecha ia dum século para outro. E via através das superfícies. Mas rápido se enternecia pois era a vida que entrevia com seus desastres sucessivos. t::le se lembrava de quando dormira nos tempos sem fim. Existia nas suas mãos um halo que ninguém sabia se era do céu ou do inferno. E suas espáduas possuíam um barulho de asas voando. Sofria muito o ser estranho
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com a iniqüidade dos irmãos, com a opacidade dos homens. O mundo era muito pausado para seus passos gigantescos. Muitas mulheres o vaiaram pois não ouvia seus apelos
t se êsses apelos eram sujos. A ninguém temia êsse homem: só a si próprio se temia c aos sêres que nêle havia, :tos túmulos que nêlc moravam. Quando pousava a mão num homem logo êsse homem se retraía, ficavam os ossos do homem. pois o demais êle comia, com sua memória lendária Amava ir tôdas :.s tarde.~ pelas praias do mar andando, falava com as algas c as concha' e ia dormir nas marés cheias embalado nas águas móveis. Suas marés eram diversas, sua sombra ia aos desertos. Ele tinha chegado ante~. antes do mundo ser criado: era um ser duplo, triplo, quádruplll, era sem tempo e sem espaço e ao mesmo tempo realíssimo. Nas florestas negras e imensas com sua pura inteligência. vagabundeava muitas vêLes. Várias princesas o chamaram: passou por elas procurando o ser ideal que imaginou. E nunca o encontrando no llHIIl,lo repousa. repousa, rcpous~t dentro de cada um de nós.
A VIDA INCOMUM DO POETA
ANTES DE TUDO era um anjo de Deus. E sem pedir foi enviado ao mundo. Nasceu sem querer numa hora amarga com os estigmas e os delitos dos pais. Depois de sugar seios mercenários nasceram-lhe dentes de roedor, de carniceiro e de mastigador. Apesar disso era manso sem saber por que e já era homem antes da virilidade. Homem feito foi convidado a solenizar a sua festa nupcial e a transmitir sua posteridade. Deu filhos e deu poemas ao mundo que os não compreendeu nem os aceitou. Mas as suas alegrias sendo outras, seus caminhos, seus amôres sendo outros, foi pôsto à margem como um ser inútil. Não se matou porque um anjo sempre não consentiu, lhe segurando a mão. Mas já havia chegado o seu declínio: Nada conseguiu, nada o contentou. Nasceu só. viveu só, vai morrer só. Então caminha para a morte sem surprêsa nenhuma, sem saudade nenhuma e também sem recompensa nenhuma.
A ESCOLHA
COMEÇARÁS escolhendo e te proibindo entre os frutos misteriosos, e escolhendo o que deves dar como Abel ou Caim; e escolhendo a casa de Jacó ou a casa de Esaú;