Invenção de Orfeu - Canto II: Subsolo e Supersolo - bloco 02 (p. 686-693)
JORirE DE T.Tllrf I OHR.1 CO.HPJ.r::T.~ VOI.UAI/i I
Ou só com o sangue mudo c inaudito, fóssil veloz. roda c relógio, mas outras coisas. Desde o comêço, nó sôbrc nó. memória c sino. maré reclusa, Kyrie eleison. Bôca na treva comendo o mêllo. mãos já sem tempo perdendo o gesto. Kyric eleison. Ah! biografia, ahl nuvens c álhum! Riografltl 1
G:tlo negado. vôo tripartido. esquina aguda, jôgo pascal, um. dois, três. quatro ases de pau, de ouro c de espadas espoliados; mas nós em tudo tão abolidos. tão dissipados. Aproveitai-me. Bc1ral11o f' Rf'i clo.Y magos Rei dos três reis! f' no>inm muural.t
Ora bons tempos só pra chorar. caí em mim, curiosidade, coitado em vários. Por que somado? Por que sou tantos rastos sem corpo? Todos de novo curioseando. Sempre afundando, fôlego môrno, goela de lama, aranha mole, sombra de túnel, mãos canceladas, parada busca, certo silêncio sôbre as cabeças. Mas esquecemos. No caos me deito, na luz me esvoaço. no mar me lanço, engulo em sêco, era preciso.
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De mim me vou reunanimado, choram no cais bôcas fechadas, bigodes lentos.
Conversa vai, conversa vem, depois a flor comendo insetos parodialmente.
Tempo de após, dança do início, sou tão perplexo entre as muralh
Havia um ser não consumido roçando a voz fora da côr, possível tudo.
Na sua esteira há um sem fé, tiro no ouvido, dentro da lua, parentemcnte;
tentei suprir vagando em brisas. contando os passos. O jdto é rir com a bôca ausente.
Jamais me vi. porém nos vemos. mau grado em mim no espelho usual. peixe em dilúvio.
Não sei dessa ilha; se a inccstuci in illo tcmporc.
Conclusão fria: um cego canta. Eu todavia.
Assim não é, se assim não fôssc. Sei-me.
XI
A mão de Orfeu enorme destra abateu-se no peito, funda ausência, tão suave inexistente mão;
foi delação das coisas, inibida mão. ecos martelando-a, ecos que são cruéis e inexoráveis como as sublevações que retornaram c retornaram quando o deus construía; e agora há éguas nulas nos silêncios, as éguas da fecundação final planturosas e cheias de pistilos viscosos como suas lêsmas, vermelhos com seus relinchos que martelam a mão êxul de Orfeu, os retinidos ecos temperados de côr, eram dêlc, de Orfeu deus sonoro c terrível, hoje vago, vago tão vago como sua vaga destra; nem mais diuturna nem com os androceus dos dedos musicais, amanhã cinco apenas dedos reais humanos, cinco apenas, cinco sinos sem seus íris; funda submersão dêsse deus, agora com seu deão de cerimônias inventando-lhe os gestos, conduzindo-lhe a mão ao seio dos infernos, contando-lhe até cinco apenas dedos fiéis à delação dêsse deão que aponta a aparência de Orfeu.
XII
Tinha Lenora tranças reluzentes comuns às suas faces e as da Musa que sôbre os belos ombros se inclinava confundindo os sorrisos geminados e seu colo cingido arfando em brumas que cobriam de paz os bosques rudos mas que choravam fundos sobressaltos, se alguém dos seus cantava reis ou guerras. Contemplareis nas neves transparentes os seus dedos formosos preexistidos em que prudentes rosas floresciam. (A Musa me segreda o duplo enleio.) Lenora tinha os olhos repousados (a fusão irreal reveladora)
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e lábios que falavam sem palavras. Era um corpo gentil, aceno airoso, (agora comporei o signo igual) sentença natural, lírio e doçura, (a cantiga enlaçada como vide) Lenora tinha um modo transmitido (êsse canto enlinhado me completa). Lenora sempre terna, ó país puro! (Essas aves hesitam, vão e vêm). Quase irreal Lenora entre as Lenoras. (A bôca esmaecida quer sorrir.) E os teus pés, bem-amada, e as tuas mãos? Pronuncio êsses dons. Pronunciando-os, transporto-te à existência sublunar. (Se existe alguém levado de amor grande que sonde a eternidade dêsse tempo.) Não és vivência vã mas te saúdo em versos tão reais quanto essa tarde umedecida de outras confidências. (A própria brisa é dúvida no espaço.) Recorda-te Lenora, dos dezembros e das noites em claro relembrando, relembrando passados que nós éramos? (Essa presença é fuga. Antes voltemos.) A tua voz deixaste em mim vibrando, atravessando as horas passageiras; seta parece ser tua lembrança. (Que coisas breves nesse firmamento!) Lenora, és um caminho, guia e liana; Lenora, tu o encurtas, vou a ti. (O canto luz parece e entanto é aroma.) Lenora, não consigo desenganos, nem alegrias; vivo apenas, vivo, que tu és tudo e tu és tu, Lenora. (A rosa pendia ou se mirava ou se arrependia. Rosa êrma que se ia.) Tinha, Lenora, risos tão carinhos, risos virgens de pátria clandestina; lábios que não seriam de seu ser. (Musa e Lenora riem e não choram.) ú Lenora-Verona a ti me elevo em ti me encontro em encurtada escada. (Não acordemos nem durmamos musa.)
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Lenora em mim. silêncio me envolvendo. Deixemo-la no e~paço - clavicórdio entre carícia extrema c essa ansiedade. (Aquêle gesto doce não se esvai.) Aparência gentil, meneio airoso - isso que longe e perto és tu, Lenora; c és a mesma presente formosura. (Se existe alguém levado de amor grande que sonde a eternidade dêsse tempo.) Lenora era uma pátria ante-existida. Em suas praias aves gorjeavam, estavam confundidas rosa e carne. Não peçamos colheitas nem vindimas que prazer vegetal é árvore-ágio; mas vinde virgilianos sem mccenas repousar sob as tardes e as avenas, contemplar êsse inseto ou êsse abraço, êsse beijo, êsse vôo, essa corola e êsse olhar diluído pelos ares vergando as flôres que nasceram hoje (cio, elo e elo serpente interminável nessa imaginação meditativa). Conjura teologal, Lenora pura, provéns da dualidade de meus dias, recôndito ardimento, suave teia. O legenda constante e persuasiva, visão em tudo, face renovada, estrêla gêmea, luz de estigma largo. (O prazer dêsses bosques é escutado ou bebido com os olhos ansiosos.) Lenora rediviva, as águias brandas adornam tua fronte de expressões. (0 solilóquio alado já se expira). Aves de bronze cobrem teus cabelos, duas esferas giram em tôrno a êles; ( êsse ar adusto, aquêle olhar perene, nem distância os afasta nesse círculo.) Lenora em pentagrama transformada possuía imensas tranças reluzentes. (Eis lenhos rubros pelas seivas de ouro, ó virgilianos vinde, vinde aos bosques!) Lenora, és casa aberta, alma em vigília, efusão repetida e suplicante.
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(E tudo em tôrno é apenas cspdhi~mo ou os olhos fixos de Lcnora em tudo): em redor dêsse poema, dupla voz. duplo ouvido, perenes, simultâneos.
XIII Existe um turno duplo (vos conjuro) sôbre chão de umbra negra regelada por onde ambulam riachos sonegados tão de túnel e tão de açudes roxos. que ao terem montes, rodam-nos calados. as cabeças silentes niveladas, pois as bôcas das águas afogadas têm seus ecos nas rochas enterradas: e o passeio prossegue vivo pelas caladas trevas escondidas, sempre pelas horas paradas, pelos catres; e quando encontra pulsos os coagul;l. desperta cascavéis, absorve vírus; ali no fundo estão as lavadeiras, coram crepes, estendem os cabelos, tecem favos de cêras funerárias, porém mal o rio passa elas se deitam, sopram as velas, lambem seus cochichos, e tudo é abelha nesse mel amargo que trava as bôcas, colhe maripôsas, e as maripôsas rodam desfolhadas, e as fôlhas cobrem sonhos corvejados; corvejados somente? Também pregos, martelos, panos pretos, também letras douradas, também môscas, meu pai morto. O pai, sabei que eu já medi em palmos o meu tamanho pelos outros todos, pelas outras medidas, - desmedidas sombras desesperadas, desgrenhadas.
XIV Os silêncios gritantes e os sóis mudos povoam o subsolo dessas ilhas.
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E achareis nêle grandes trevas vivas como o pai dos irmãos Karamazof. trevas urdidas nas sombrias cêras das abelhas noturnas segregando um mel sem paz de rio subterrâneo mas mel dos ópios das papoulas surdas e um fogo frio queimando-se a si próprio. Os demônios de cinza consumida não conseguem nem mesmo suicidar-se; tudo persiste nesta zona oculta, onde as raízes vivem, e os enxames, com os cardumes de sêres incolores cobrem os fios dos nervos seculares, e pelas noites de chovidas lâmpadas transformam-se em inquietas águas mortas subindo pelos muros ignorados. Em seu plural, bodegas engradadas quadriculam queixadas, frontes curtas, violações em baldios, contra os muros, cimentos sôbre os pés, ar desolado, e no entretanto juvenilidades. Meu Deus, por que fiz isso? Desce a noite, a noite igual com sustos sôbre os leitos; foi por contas de vidro aquêle crime: a nuca branca sob as garras firmes. Só distâncias paradas, joelhos fixos, testas na terra só, tão só, e vagas, alguém roendo unhas, tuas próprias unhas, intermitente ruído entre as esquinas e o encontro em vão, fugindo como um susto, porque às tantas os fachos ante cães procurarão vestígios apagados, mas somente as pupilas lembrarão o adultério do rei e o salmo de ontem. Prantos descem dos olhos para os sexos, sinais de possessão inexplicáveis, essas as terras de outrem possuídas, as danaides amadas assassinas, tão ausentes de crimes como os ventos,
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como os heróis atuais, os elementos, tirânicos, ferozes, egoístas, heróis do século como os outros foram: continentes achando c destruindo. Aqui tudo remoto mas tão perto. A Lápia fria, Noruegas nossas, e êsses ursos polares e essas Grécias, e outros vários países soterrados, mãos agitadas dando-nos adeuses. . I "!pre- Veneza dominou-os, domina-os hoje "!'"·w ele e as nações verticais de solo abaixo, I t•neza. • d 'Jh . 111 países os sangues mtstura os, pt as vtvas ,,,,,.,radm atômicas apenas ou demais.
Que gerações absconsas há nos vastos subterfúgios espessos dêsses mares? Que má tenção oculta ou demasias ou laços ostentados! Que vos digo? Nem sei o que vos digo: há nessa viagc.n o jôgo inesperado, o cego sulco, a prisão clandestina da consciência, a eclosão dos estames e pistilos, as terras aflorando com os nativos. De vassalos não sois apesar de amarrados aos leitos e aos conúbios. pulsos sem dono, ventres sem receio, memórias empilhadas, vastos campos, princesas encantadas, inda em sonho, olhadas de censuras quebradiças, o ilustre Ganges como rei despido, as cervizes famosas debruçadas. O subsolo de tôdas as criaturas! As epopéias são. No canto décimo os mesmos sofrimentos. E nos outros. Partênope enterrada. Grata gente. Mantos trezenos. Rodes arenosas, o porco de Erimanto, as carnes pronta.. , as hidras carinhosas, pelos fuscos, as colunas da base sôbre os flancos, as ilhargas ardentes, ninfas prêsas, ninfas nascendo das sublimes babas.