A Túnica Inconsútil - bloco 05 (p. 457-464)
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,. ~·~colhendo o alimento para não te envenenares; I' escolhendo o amigo, o anjo, o guia, o rei, o verdadeiro [mendigo, o hem disfarçado no mal, a mão que deve ser decepada I' a virgem que deves violar;
I' ~em escolheres o ventre intacto de onde podias nascer, n:t,cerás maculado; l' se os pais de que nasceres não te satisfizerem, l'scolherás outros pais; I' de tua companheira retirarás sêres que te não elegeram pai; l' os descendentes dos teus filhos e dos teus netos l'ontinuarão a escolher d1.·sde o seio que nem sempre há de ser o materno alé o galho próprio para se pendurar.
DAS PROFUNDEZAS DO PECADO ORIGINAL
O PAJS PRIMITIVOS que das profundezas do pecado original me transmitistes o vosso sangue revoltado que corre nas minhas vísceras, que corrompe as minhas mãos, que cega os meus olhos e o meu entendimento, quanto vos sou semelhante, como sou uma perfeita imitação [de vós, como morro de vossa morte, como sofro de vossa ambição, l'omo me pertence o vosso êrro ! Na noite tenebrosa em que me puscstes, ó pais errantes e pró- [ digos, me transmitistes a dúvida no Senhor. me ocultastes a Face do Senhor. e perdcstes a casa para onde eu devia voltar ! (> pais primitivos, que me enviastes para uma existência que eu não solicitei, t' para a qual cheguei nu. humilhado e chorado, l'U vos perdôo pelo sangue de Cristo que me obrigastes a [derramar, pela traição de Judas meu irmão e teu filho, pela negra expiação que me esmaga na Terra !
O DESESPBRO DIANTE DA MUTILAÇÃO
..4.s MINHAS mãos são prolongadas em teclas, em cordas de música. em cabos. em manivelas, em cetros de rei e de palhaço. Os meus pés são continuados no harro primitivo, [ dade de minha sepultura. Os meus olhos são continuados no azul do longínquo e [profundo. Os meus ouvidos são continuados nos [ futuros do mundo. A minha palavra é continuada pelas perguntas que não têm [posta. Mas não sei onde estão as asas que prolongavam os meu nem a eternidade que prolongava a minha vida. Os lados de meu corpo são prolongados por Eva [ do meu primeiro sono e povoa o meu sonho [ petuidade. O meu pensamento é prolongado em altura, em [e posteridades, mistérios c inocências. A mão de meu cadáver toca os vértices da [ a frialdade das lajes que vieram das pnmetras E quando penso que sou um ser hierático limitado e [ balsamado na morte, a mão de meu espírito toca a mão direita do Eterno [ contro de novo . Culpo os que me mutilaram na eternidade e me obrigam à reconstituição contra leis inexoráveis. c- com o seu primeiro e único duplo-suicídio, poderiam ter evitado a minha presença na vida.
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POEMA AS INGtNUAS MENINAS J'UA C'Aiti.OS QUEIRÓS
1I INGÊNUAS meninas de minha terra, 'c quereis ver o enorme edifício em frente ao mar, vinde! O enorme edifício negro em frente ao mar, em frente à noite. ~:em janelas possui como cem telas, como cem faróis; ,. cem dramas diversos, as cem janelas possuem.
DORME ! DORME !
ch oLHos se abriram na noite: nada viram. ·\-. mãos tatearam em vão braços e seios que estavam no sonho: treva! treva!
A alma queria ao menos o acalanto de dormir: o sono não veio mais, não veio! Então venha a morte adormecer-me. A morte não veio. Então apagai a recordação. a meninice, pois o presente vos oferto ! Ali há dinheiro: não quero! Aprendi muito: quero esquecer! Andei demais: quero findar! - Dorme filho! Dorme filho ! - Mãe ! só tu não morreste, fala, mãe, para eu dormir !
VOS PRECISAIS DORMIR
SExos que não dormis de noite, bôcas que esperais o pão-nosso diário, vós precisais dormir. Guardas de necrotérios e de prisões; coveiros de guerras e de epidemias, vós precisais dormir. O vós, que escreveis despedidas à beira dos abismos; ó vós que pregais ataúdes ou preparais essas para as exéquias matinais, ó condenados que ireis tombar de madrugada, vós precisais dormir. O fantasmas dos castelos históricos. assombrações, corações, re- [ lógios. rodas, círculos, esferas; ó galos das antigas aldeias, gatos dos antigos telhados, grilos dos antigos solares, vós precisais dormir. O mães que esperais os vossos filhos nascer ou os filhos regressar alta noite, vós precisais dormir. O tosses, asmas, máquinas de costura, jogadores, sonâmbulos, marés, feiticeiros. palhaços, vós precisais dormir.
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I lormircis Sol-da-Meia-Noite. I lormireis cherazades, u~larots, duendes das encruzilhadas, espíritos que bateis, dormireis, dormireis. Imaginação dos poetas, 1\Jcmória dos poetas, Ikcepções dos poetas, I oucura dos poetas, dormireis. Nuvem do céu. iceher~ dos pólos. onda dos trópicos. fogo da [terra, p1 ccisais dormir. precisais repousar. Irmãos de vigília que nas noites silentcs velais as horas do Cristo, 1l1li'01ireis, dormireis. Sacramentos, Igreja militante, Igrejas de Deus, dormireis, dormireis. I>urmireis Deus, dores de Deus, cuidados de Deus, Deus do Jardim das Oliveiras I' da Criação malograda e do Fi'lbo que ainda sofre;
dt·i\ai-nos dormir para dormirdes vós !
RESTITUO-ME
ii'>TI!NDE a Tua mão. agora, que ninguém notará: ~~·m desespêro e sem mágoa me restituirei a Ti. Nao te devolverei minha Figura sangrando, m·rn também paralisada sob o sôpro da morte: Mas os pés fatigados de tanto caminho errado, 111as as mãos abatidas de tanta procura vã, IIHI' os olhos sem brilho que adiante das mãos viram a decepção. t:,rendc a tua imensa Mão e ninguém notará que entre milhões de homens, um Elias anônimo, sem função no teu reino 1bapareceu para sempre ,ufocado de pó, sôbre um tufão de cinzas.
JOIUif. l>f." 1./M.I OHR.l COMPH."TA J'OL(IMR I
ESPfRITO PARÁCLITO
QUEIMA-ME Língua de Fogo ! Sopra depois sôbre as achas incendiadas c espalha-as pi:Io mundo para que tua chama se propague ! Transforma-me em tuas brasas para que eu queime também como tu queimas. para que cu marque também como tu marcas ! Esfacela-me com tua tempestade. E.'lpírito violento e dulcíssimo, I! recompõe-me quando quiseres e cega-me para que os prodígios de Deus se realizem. e ilumina-me para que tua glória se irradie ! Espírito, tu que és a bôca de tôdas as sentenças, toca-me para que os meus irmãos desconhecidos e [e estranhos, compreendam a minha fala para todos os ouvidos que criarC!il Exceder-me-ei em meus limites, crescerei em tôdas as distâncias, serei a palavra transcendente. a profecia. a revelação c as reali- [ dades! Devora-me, renova-me. ressurge-me em tua vontade criadora diante da morte e diante do nada ! Aguça a minha intuição, descansa em minhas pupilas. agita a minha lentidão, faze-me numeroso como tu. cobre todo o meu corpo ,Jc pálpebras que espreitem tôdas as ' [ latitudes e longitudes e expectativas e anunciações e partos e concepções e gerações e séculos de séculos ! Ressurgirei de todos os ventres e voarei no sentido da perpetuidade sobre a~ águas c sôbre as [terras I Desata-me Espírito Paráclito ! Corta os meus laços. sopra a terra que há sôbre a minha sepultura ! Enche-me de tua verdade e sagra-me teu moderno apóstolo !
I IUNICA llVCONS01"1/.
:\m•' como poeta a forma com que te apresentaste • assembléia do Cenáculo ! I: sinto a tua presença, il lua aproximação, a tua unção sobre a minha alma ! Dá-me tua fecundidade sobrenatural. lua heroicidade e tua Luz ! I I ngc-me teu sacerdote. ll'U soldado, teu vinho. teu pão. lua semente, tuas perspectivas ! hpírito Paráclito. dedo da direita do Pai. 'ocrgue as minhas pálpebras descidas e sopra sôbre elas o teu [ hálito e tua essência ! hpírito Paráclito, amo-te. com os meus cinco sentidos.
A CABEÇA Jó. UMA LANTERNA
I I·VAA TUA CAREÇ.\ mesmo arrancada do tronco para a filha [ da mulher de Herodes ou passeia com ela suspensa aos teus dedos como uma lanterna que indicará aos teus pés o caminho apagado.
Vê que ela olha as tuas mãos culpadas, os instintos que tremem pelo teu corpo todo, o despudor dos teus gestos ,. as cicatrizes dns deserções que há nas tuas pernas.
464 JORGE DE LIMA I OBRA COII·fPLET A I VOT.UME I
Quando cansares. senta-te nela como numa pedra hoa, [ que ela beba o vinho que te mate a sêllc. pede que ela coma pão r nutrir teus membros. Além de teu guia, ela é teu alimento.
Se cansares outra vez, já de noite, põe as mãos ardentes [ela que ela te levará em sonhos, por uma escada comprida para o Pede que diga palavras fortes que encoragem teu peito; ll corpo suado e bruto, a tua cabeça é o testemunho dos constantes desfalecimentos dos teus membros, dos ( tombos, dos teus passos errados. e entretanto são as mãos que se lavam de suas próprias e a cabeça é que chora, é que leva as mãos para rezar, [sonha, é que vê a fraqueza do corpo corruptível c se coroa de [ pinhos para redimi-Jo.
DEIXAI DE RODAR EM TORNO DO MONTE
DEIXAI DE rodar em tôrno do monte; vamos galgar o ápice para que tenhamos novas pupilas. E avistemos as nascentes que serão Já embaixo vendidas [ los homens. E quando nossos olhos pairarem sôhrc as nuvens, nós seremot do tamanho da montanha; e de lá desabaremos o nosso grito para os sêres trogloditas, para os vulcões que adormeceram nos lençóis geológicos, para as sementes que afundaram no dilúvio, para os primeiros anjos mergulhados no fogo. E veremos o livro da vida se desenrolar de novo: as primeiras névoas sôbre as águas do início. as primeiras flôres que seduziram as abelhas. as primeiras planícies que se cobriram de ervas, as primeiras ondas que se estiraram nas praias e as primeiras nuvens que subiram com os nossos olhos para os olhos de Deus.