Invenção de Orfeu - Canto X: Missão e Promissão - bloco 05 (p. 907-911)
INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO X '107
de leites ordenhados, campos verdes, elaboradas flôrcs atingidas, e a sombra fiel das VJcas orvalhadas, as rodas, os invernos, sangues túrgidos; e o pássaro e a colina sempre estavam. Porém falo de pazes e de luas e de búzios e praias (outros júbilos!), de uma espécie de peixes cmplumados, de sereias achadas, de consôlos d'água, de refugiados sons de mares, línguas de concha, silvos de espongiários anhos marinhos, nuvens mergulhadas; falo-vos disso, falo-vos de vozes, certos timbres de sombra dadivosa perpassando nas algas fecundadas pelos zoófitos da água anlropomorfa. Todavia, vos falo de alegrias, pois que as formas das águas são ofélias apenas mor~as, mas flutuantes formas, mas abraços de certas alegrias, tristonhas alegrias escondidas salgadas de renúncias, soçobradas nas videiras do mar que o mar esconde sob o vinho das águas proteiformes, pescadores vencidos, bôcas frias, mas inda abertas bôcas embriagadas sorvendo o vinho das adegas máreas. Que cant!) firme pode haver num homem embriagado pelas maresias, tombado mas alegre, mas falando para irmãos, para peixes, para pássaros, apagado de lâmpadas e fachos, nas crescidas montanhas, sele mil metros acima das cidades, indo com os lôbos farejando-o, e os alcatrazes cobrindo-lhe de guano a trajetória onde arde um cisne e ·brilha a cabeleira de sete Berenices, sete quedas d'água etérea dos céus para as lareiras da terra, salas frias, com salitres
nas vigas, com Penélopes fugazes, Jcaro cômico autocastigado? Ai! as longas perguntas que nos cansam! Perdidas selvas sempre começadas, lúcidos olhos pelas cercanias, líquenes gaios, musgos sorridentes, alegria das coisas imantadas. (Prazer de perscrutar sôbre as ruínas êsse pulso, êsse cântico barroco.)
Os climas eram duros, só monólogos, os rios e as serpentes e os despenhos, mas os braços caídos se elevaram; é essa a história se acaso perguntardes quem viveu êsse poema inacabado, quem foi êsse sofrido, essa linguagem, sabereis outras coisas menos tristes, no lento regressar às horas livres, às vertentes exatas, aos bons prantos, ao convívio das tardes que vos contem que houve ontem ilhas desafortunadas. A memória porém se cobre de humo e floresce em corolas fementidas; ó paixão pela vida sempre rida em meio aos malebolges e os abismos, lutando com as presenças e as ausências, nós os lentos de braços e de cascos, nós os trotes pequenos mas com flôres nos focinhos ingênuos, orvalhados das goteiras dos nossos pobres tetos, onde há mochos com aljôfares nas asas e pavores nos palcos enfeitados. Permiti-me falar, reconhecendo-me, sêres ilhados, redivivos sêres, legiões diurnas, ó greis, 6 multidões que vindes nas vigílias espreitar-nos, e bateis tão de leve em nossas frontes, (êsses nossos futuros ascendentes!) mesmo com os gestos lentos, somos nós já mortos, visitando-no nos lutos, tendo pena de tantas desventuras
INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO X 909
ao longo de Ásias e Áfricas cansadas, dias e noites navegando fúrias.
Afinal afastando-nos da costa para danar as calmarias, vimos o reverso das coisas e dos sêres com a nudez dos primeiros achamentos; pois além dos infernos existia inda um mundo esperando caravelas; entre a carne aderida e os ossos frios, sôbre os golfos de Dante e os purgatórios havia a face achada de Beatriz; - alegria, chamemos-lhe com o nome de uma outra realidade fecundada,
continente com outras geografias de formas várias, iam esplendores, subiam lácteas mãos, floriam luzes, tempo fluido cobria alados olhos, outros sangues pulsavam sêres, óperas, verbos sem leis ardiam sóis ocelos, serviços de ofuscar benignamente, ofícios de candências prelunares, constâncias renovadas, formosuras, visíveis sons, mistérios devassados, ordenação do estável e grandezas.
Estilhas de linguagem acendidas, insônias repousantes, lanhos doces, verdades sem pensar, pronúncias livres, a frase além dos lábios, jogos lépidos, no cerne a louquidão sempre almejada, os leves manuais discricionários, os cortejos passando novamente, os nomes de outra vez dados às coisas, as coisas renascidas c os batismos, as mãos de Beatriz têm novos números e a fronte nívea é logo nominada.
Expressar a poesia que há nos céus da vida de Beatriz? Só apontá-la: a voz está nos dedos musicais, os sons compõem a frase, e Beatriz fala
por tôdas as criaturas, estro inato; eis Beatriz, há um sôpro convincente dizendo por seus lábios, proclamando, sanando os conteúdos, desdobrando-se; as onda~ têm seus nomes, esquecemos, esquecemos os nossos numa noite, esquecemos, (memória entrecortada!)
E como designar? Ali são passos, passos chamados, peças há nos sons, inominadas, gestos de anjos chamam-se, rios de verbos nascem, nascem nexos. Como chamar-lhe braços a seus braços enquanto abraçam, quando exprimem, quando revelam modos, quando traduzindo? Que signos nunca ouvidos, que falados prismas modulam seus dormidos seios? (Multiplicados tímbales lustrais, memoráveis futuros, bons clamores!)
Afluências balbuciadas estridentam alegorias, frases de paixão, e as mensagens tangíveis já se entoam, e a gama elemental se dessedenta, aves de eco talhadas em seu hálito arrastam os ponteiros calendários; são cantigas vindouras expressadas, os frêmitos do fim e os simultâneos, tudo era dela, inicialmente dela: as ardosias sopradas e os papiros; no grito a vir o cântico formou-se, Contar não se contava; a assinalada fímbria fluía-lhe, dava-lhe esplendor, as coisas escutavam compassadas com seu tom de corrente redimida. ó sempre fôlhas ontem aparentes, hoje aferidas, hoje recompostas; ó faces tatuadas, ó matinas, ó verbos de matizes reinvidadosl Os sendais desatados ressoavam e ressoando, eu me exumo, eu me exumei.
INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO X 911
A agitação dos ares formou brisas, os nomes aderiram sós-por-sós, lufadas, refrigérios recitados, nada melhor nos rumos movediços. Apontados solfistas, remurmúrios, noites azuis, visíveis como o olfato, desintenção dos sêres, castos grêmios, é preciso dizer-se sôltamente, residir-se nos signos ajustados, falar de, tinir de, com os timbres novos. acenar para os homens, e êles virem. E como designar? Eis-nos aqui sob o sol de Beatriz. Beatriz em nós, para falar, falamo-nos; os verbos devem ser, devem ter perpetuamente. Alguma coisa está. Sabres esperam. Estrêlas ardem. Tempo de voltar. Avenas combatidas, por que não? Por que não. evidências, fôrças outras? Linguagens esperadas, alegrias? As lágrimas caíram. A voz busca. As mãos unidas amam. Nós estamos. Reino unido de abelhas, solo de ouro. As mãos já têm tocado o tempo. Vamos. Os concertos proféticos existem, existem climas altos, noites, portas; as arenas inúteis se gastaram; e há profundas folhagens respondidas aos pomos estendidos. ~ o tenaz. Nas fôrças tristes, não fatais adeuses, nas flôres calcinadas mas os sulcos. Proa mastil varando. Verdes mares. Proa mastil do poema. Eis o poema.
XX No momento de crer, criando contra as fôrças da morte, a fé.