Poemas - bloco 05 (p. 257-264)
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damascos de Luca, tapêtes da Pérsia, leopardos das lndias, almíscar de Ormuz, anis das Malaias, cavalos da Arábia, colares da Núbia, marfim da Guiné; enquanto nos vossos Paços: cravos a soluçar, flautas gemendo amôres, torneios, pavanas, minuetcs. Um lis de França a cantar uma estrofe em falsete; dizendo os menestréis cantos em que donzéis vão a amôres e batem espadachins sob balcões de flôres; os arrufos esmorzando em cascatas de beijos; tudo o que é amor suave e sentimento e pejo pintarei de rosa e negro:
1111 paço o fidalgo amando as moiras, 1111 sul a moirama enchendo o harém 1'11111 as damas da Côrte ,. mais de cem frangainhas de cabeças loiras
e a tôrva chafurda na fusca lascívia da síria, da núbia, da curda,
e mais:
~•'lllalas peninsulares : 111111110s vencidos, negros comprados, chicoteados,
e gentes daquelas eras: nobres espúrios, bobos, bastardos e bardos;
crenças daquela gente: cruzes, crescentes, mitras, capuchos e bruxos. Ramiro 11 de Leão vai raptar Ortiga Alboazar. Partam 100 peões a quatro patas a Alboazar Abukadan ! Quatro patas papa-estirões a Abukadan! As carnes moiras são quentes para beijar! Partam cem peões a quatro patas papa-estirões a Abukadan.
Tomem a algara de Alboazar Abukadan ! E cem ginetes com 100 peões correm danados a Alboazar Abukadan I Embaixo dêsse esplendor de galas de Cananor: sujeira, môfo, miséria, tôda côrte vã da Ibéria; ao lado dos Paços reais, várias fossas cloacais, onde as damas repimpadas com soledadcs dos guerreiros se recordam brejeiradas; e os esposos não voltando, enquanto isso D. João - espadachim cortesão, repinicando a guitarra, e as damas nobres, sem parra de temores e embaraços fazendo novos guerreiros para defesa dos Paços; e o borrão negro da peste, o "suor maligno do Oeste" matando fidalgo e moiro.
Agoiro I Alcácer-Quebir I Tomar! Desgraça na terra e no mar a côrte sem descendência, ginetes sem cavaleiros, cavaleiros sem pendências,
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e
os nobres com galhos, a plebe com os feudos, os mouros com as damas povoando os serralhos: e o burgo? aos frangalhos,
palitos nos dentes, cebolas e alhos, tamancos nos pés, tamancos à vela boiando no mar, boiando, levando o painel, com êle forrando um leito macio, de onde três raças, três magos suspirando, gemendo e chorando, olham um gigante deitado, dormindo, sonhando, sob uma cruz de estrêlas, encantado.
AVE!
An! jequitibás, sapopembas imensas, jucás, canafístulas paus- ,.~a mclciras, 111 asis - absalões de cabelos suspensos, i~~uais àqueles que aos outros wnccm com a fôrça, ensombrando o destino da gente. A lcus pás há tanta planta bonita, há !anta flor namorada, hli !anta seiva emotiva, 1111s caules adolescentes, na promessa das sementes ...
Há tanta sombra bucólica, há tanta flor namorada, há tanto pólen cativo nas flôres rubras, e que vós jequitibás, sapopembas, gameleiras, e vós jucás venerandos do passado brasileiro, nunca havereis de oferecer ao sol !
FLORIANO- PADRE CfCERO- LAMPIÃO
SÕBRE AS CAATINGAS, caapoeiras, ipueiras, e serrotes, e sertões e caapões, e planícies e vales e araxás; sôbre os curibocas sertanejos, vaqueiros e cafuzos nordestinos·: a espada, a roupeta, o clavinote Floriano, Padre Cícero, Lampião. O País olha êsses três .
Lampião - bêbedo, os 100 cabras bêbedos e a fama de Lampião fazendo mêdo. E crioulas, matutas, sertanejas estupradas, servindo cachaça aos heróis - cabras; proibidas de chorar vendo o pai e vendo o irmão mortos, no chão ... Fazendas incendiadas roças devastadas, coronéis reféns, Paulo Afonso, Água Branca, Olhos-d'água das Flôres invadidas, arrasadas.
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Alagoas. Rio Grande do Norte, Paraíba. Ceará, Piauí, Pernambuco ... e o herói mangando dêles. E os vaqueiros de Euclides da Cunha tremendo de mêdo. A polícia assustada, as cidadezinhas com os braços para o ar se deixando desonrar, saquear, matar.
Vamos rezar pelos defuntos. Padre Cícero Romão. Benditos, novenas, romarias, fartum de Santa missão : o Juàzeiro engordando malucos, fcridentos, beatos, cangaceiros, elegendo deputados, combatendo revoltosos, municiando criminosos, gemendo ladainhas, abençoando Lampião.
Floriano, Padre Cícero, Lampião.
O País olha êsses três ...
Floriano!
Em mil oitocentos e noventa e tantos (nem me lembro) 20 governadores depostos. Prisão. RevoluÇão.
E um homem sozinho defende a maloca. Oferecem-lhe um dia
fortunas em troca das terras natais, responde-lhes lento : - "Quando deixar a presidência, faça meia volta !" A espada, a roupeta, o cJavinote. Floriano, Padre Cícero, Lampião. O País olha êsses três. O primeiro morreu para sempre talvez, mas para que o Nordeste se repita e a semente fecunda não se esgote: Canudos, Bom Jesus, Pedra Bonita. Padre Cícero Romão, Virgulino Ferreira Lampião I
CALABAR
DoMINOOS Fernandes Calabar eu te perdôo I Tu não sabias decerto o que fazias filho cafuz de sinhá Angela do Arraial do Bom Jesus. Se tu vencesses Calabar ! Se em vez de portuguêses, - holandeses I ? Ai de nós! Ai de nós sem as coisas deliciosas que em nós moram: rêdes, rezas, novenas, procissões, e essa tristeza, Calabar, e essa alegria danada, que se sente subindo, balançando, a alma da gente. Calabar, tu não sentiste essa alegria gostosa de ser triste I
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RIO DE SÃO FRANCISCO
E PRIMEIRO desceram pelo rio Opara os homens que foram ferir a terra à procura de ouro. E depois os que foram alçar a cruz para curar as chagas que o ouro fêz. Depois desceram feras à procura de escravos e depois desceu um homem sonhador : meu avô mameluco que parou em Cabrobó e me deu dois olhos para ver meu rio e me deu coragem para viver só. I: ntão o povo crente ergueu cruzes nas margens e capelas e igrejas, cemitérios. E eram antônios conselheiros e jesuítas e eram missões e era a turba genuflexa beijando a terra por onde os santos iam. E todos êles defloraram o rio. O garimpeiro deflorou a terra, o cangaceiro saqueou as vilas, os capitães-de-mato deram caça aos negros, os missionários conquistaram as almas. Bandeirantes. Bandeirantes. Bandeirantes. E o rio Opara ouviu de seu leito de pedras as litanias soturnas de Canudos e plangências de aboiado, metralhas de holandeses, bacamartes de jagunços, sermões de missionários e as grandes vozes de clanglôres rubros das maritacas, seriemas, saracuras, e no fundo da silva horrida de Martius o tapir arrancar e a suçuarana rugir.
Vem, vem, meu Debret, ver o pitoresco dêsse rio, o canoeiro pachola tocador de violão que vai às jacarezadas e dá adeus com seu lenço vermelho às caboclas da margem. Vem pintar Henderson uma pescaria de jereré, de poita, de groseira, de tarrafa, mas tem cuidado que as piranhas podem comer os teus pincéis. E vinde vós todos gastadores do ingênuo fugidio, das coisas simples e dos homens simples, das terras simples: Vila Risonha de São Romão, J anuária, o Senhor Bom Jesus da Lapa protegendo os barranqueiros, as canoas de Pirapora com as proas de cabeça de touro, pra afugentar o caboclo-d'água. Nisso tudo passaram Halfeld e Saint-Hilaire com as bandeiras da sabedoria, e viram na Igreja Santa do Rosário a baita coroa do Imperador do Divino: . "O Capitão de cavalos João Veloso saindo por sorte emperador a mandou fazer à sua cust