Livro de Sonetos - bloco 04 (p. 585-592) Obra Completa, Volume I · Capítulo 39 de 90
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Livro de Sonetos - bloco 04 (p. 585-592)

I II'RO DE SONETOS 585

E bsE VENTO indo e vindo pela porta, e o ambiente se diluindo, se diluindo, e com êle o crepúsculo. Olhai bem que a mão pendida se assemelha a uma

tombada luva branca, luva morta (luva inerte no vento) . O rosto lindo começou a esvair-se e inda contém a delícia da vida que se esfuma. Mas ninguém sabe se êsse vento quando passa gemendo pela sala obscura e vai esconder-se em seu cabelo ruivo, se é o hálito de Deus ou antes o uivo das potências adversas à criatura umas e outras sem trégua dialogando .

FôsTE NA VIDA luz de lâmpada única, ogiva a orar na sombra desvairada . Fôste mais do que tudo, lírio ardido, senda de elevação e vida minha. Estrêla de viajor e minha túnica sonora como página escutada, roseira grave e chama consentida, fôste na minha vida vida minha. No descampado pórtico descansas, as mãos unidas em ogiva amada dedos dormindo como dois irmãos. Laguna quieta sob luas mansas, ensimesmada musa conjurada, toma teus versos, dá-me tuas mãos.

Eis NESSE MUNDO a jovem parricida alimentada em vísceras do pai, que em si incluindo o trágico da vida e desprezando a dúvida que abstrai jaz tranqiiila mas inatingida e para sempre e para sempre vai sem repouso, sem paz ( inexaurida fonte que não se estanca nem se esvai), dobrando esquinas pelas noites tristes, sobrevivendo às pestes incorrupta, por caminhos certeiros ou errôneos;

6 alma humana, alma dura que ainda existes nessa luta de morte, nessa luta em que se batem anjos e demônios.

VENDO-TE assim, em distanciada vida, entrego-me aos oráculos primeiro, depois penetro a sombra derradeira como uma nau em algas submergida.

E penso em ti: sonâmbula e suicida a face melancólica em nevoeiro, os lábios respondidos, borralheira transfigurada em bela adormecida.

Há por tudo um clamor de estranha lava, sai de ti um clarão mas tão soturno que te pareces uma sombra escrava envolvendo-me em ti, a ti persigo; estou perdido no trigal noturno . ó sombra irmã, perdeste-te comigo.

I 11 /111 IJI·.' SONETOS S81

('o Mo SOMBRA invasora e transbordada de asa de cinza e chuva quebradiça tu desterras o tempo interrompido com tua solidão alucinada. rcdra de olvido e fonte abandonada, essa faixa de névoa é tão perdida que morre e nasce em ti, se em mim tu inclinas tua distância em plumas desfolhada. De cal flutuante e de onda descontínua Musa és tão só, tão mar ensimesmado tão sortilégio, tão solitária e êrma que pareces escada submarina para eu descer imerso, no teu reino investido dos mantos decisivos.

Ers QUE HÁ o pêndulo e há a corda que atravessa a sala e a vibração da voz ansiada, c a onda sonora que à procura dessa voz em consôlo jaz desencantada.

Entre as cordas distensas se arremessa outra onda em duas ondas desdobrada. Não há fôrça nenhuma que as impeça: é uma voz que procura a voz amada.

E vê-se agora a face que aparece entre a lâmpada e o piano, e a mão de neve esvoaçando nas teclas como uma ave.

Mas o encanto se esvai, pois alvorece: A face é menos nítida, e a mão leve que esvoaçava nas teclas, mais suave.

588 JORGE DE L/AIA I OBRA COMPLETA VOLUM~ I

E EIS QUE surgem dos flancos bem-amados o negro potro que me arrasta à insânia - areia, espiga ou ramo em que levanto a rosa pela noite entrecortada. Vive meu peito que antes era nada o tempo com seu pêndulo de oceano. Minha respiração vai a seu lado por tenebroso mar predestinado;

com esplendor de lume subterrâneo nas alamêdas cinzas devolutas, o infeliz trevo geme entre outras fôlhas

a pobre condição de planta obscura; e há um álbum e um violino e um candelabro circundado de símbolos noturnos .

As VERBENAS entreabrem as corolas com vozes de órgão para que respires. Perdidamente como o campo cresces, são teus dois seios, dois jacintos de onda. Ninguém pode saber que é que tu sonhas não tampouco tu sabes; de teus olhos fecha-se calma a chama pensativa - fogo-fátuo de bosque alucinado.

Olhando as tuas pálpebras aprendo que se devem guardar as flôres raras, as que moram sozinhas com os insetos, as que vivem de noite, e que não sendo geradas pelo sol duro e preciso ~urgem então das árvores do oceano.

111 IW DE SO/IiETVS

QUANDO TU DORMES V~m as albergálias laves noturnas de impalpáveis penas), pousar nas tuas mãos atormentadas um viveiro de larvas epicenas.

Descem contemplações anjo-animáli•ts com seus cálices, vinhos e patenas. descem máscaras sempre renovadas mudando-te em ator de novas cenas .

E papoulas enfeitam tua fronte, ó sacerdote de ignorado rito e de gozos com sêres sem presença .

Poeta dormindo, subterrânea fonte, quando gritas ninguém ouve êsse grito que antecedeu teu grito de nascença.

O ROCHEDO do sono é tão fechado, tão pedra de Esall, tão existido, que êle cumpre na vida um grande fado. - o de acolher um tdipo impunido.

Sempre em seu bôjo há um anjo adormecido c um menino num poço debruçado: o cão noturno late, e o seu latido é o grito do menino já afogado.

À noit.:-, barba-azul dormindo joga sete princesas pálida!. no poço, c o poço voracíssimo as engole.

E engole indiferente 411em se afoga. - sete 1)cura~ atadas ao pescoço que pedra c amor é o mesmo no seu gole.

590 JORGE DE UMA UJ;RA COMPLI:.T.-l VOLUM/l I

DoRMES. Surgem Je ti coisas pressagas . ó bela adormecida, não tens sexo, como as algas marítimas que as vagas jogam na praia em renovado amplexo. O vendaval é o mesmo em que te apagas num torvelinho de ímpeto convexo; dormindo, rodopias, e te alagas num turbilhão de diálogos sem nexo.

Sonâmbula parada, és a andarilha, ilhada entre lençóis. Virgem tens prole, pois és ao mesmo tempo avó, mãe, filha. E que o sono multíparo te viole, anjo desnudo, salamandra de asas ressuscitada de dormidas brasas.

PERDIDAMENTE para a noite segues dentro da quieta solidão cativa, e te diluis nas trevas fugitivas, Ofélia imersa em repentino cais .

Já te encontras ubíqua e intemporal, sempre alheada como estátua cega, sacerdotisa e musa em desvario, circundada da luz de espelhos frios. Estão teus olhos turvos dessa bruma que vem das coisas vagas esfumadas das distâncias das asas inda implumes . Na penumbra que iguala a noite ao dia, tu és como um poema sempre começado de sortilégios e melancolia .

I 11'/W DE SONETOS S91

IMAGINAI no firmamento de antes dois nevoeiros em oito entrelaçados . Jogos de Deus e lumes incessantes, pistilos e androceus aglutinados. E de repente os três reinos amantes ocultaram os seus significados . Era enfim a pungência dos instantes o momento dos gestos ofegados . Aquilo tudo tão vivente impulso que uma pátina as faces incendiou: Essa a primeira noiva prenunciada e destinada ao rei primeiro expulso. Que carpido teu ventre, ó Mater, ou antepassada irmã, em mãe, mudada!

VIRADO para o Marão o avô morrido e o pai nesse Nordeste sepultado. Rio Lima e Mundaú. O filho nado. em limo e sal de mar sobrevivido. Nem da roda de fiar da avó, o ouvido conserva o som . Silêncio. O céu calado . Descobridor de oceano submergido, navegante de rio emparedado.

Sôbolos rios e sôbolos oceanos, só uma sombra de nauta fragmentada no roteiro dos mares lusitanos. O restante é oceania naufragada: Cavernas de nau, âncoras e gáveas. Dessa vasa salobra a morte lave-as.

TEMPO DA INFÂNCIA, cinza de borralho, tempo esfumado sôbre vila e rio e tumba e cal e coisas que eu não valho. cobre isso tudo em que me denuncio. Há também essa face que sumiu c o espelho triste e o rei dêssc baralho. Ponho as cartas na mesa. Jôgo frio. Veste êsse rei um manto de espantalho.

Era daltônico o anjo que o coseu, c se era anjo, senhores, não se sabe que muita coisa a um anjo se assemelha . Esses trapos azuis, olhai, sou eu. Se vós não os vêdes, culpa não me cabe de andar vestido em túnica vermelha.

NAs NOITES enluaradas cabeleiras das môças debruçadas, dos sobrados desciam como gatas borralheiras por sôbre os nossos lábios descuidados.

Beijávamos os cachos; das olheiras delas caíam prantos obstinados. Calmávamos com êles as fo1,1uciras dos nossos próprios olhos assustados .

Românticos demais. Nós os meninos urdíamos as tranças. c em seus braços ouvíamos suspiros desolados.

Elas tinham soluços repentinos e nos acalentavam nos regaços. (> meninos. ó noites. 6 sobrados!

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