Invenção de Orfeu - Canto V: Poemas da Vicissitude - bloco 01 (p. 757-764) Obra Completa, Volume I · Capítulo 60 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto V: Poemas da Vicissitude - bloco 01 (p. 757-764)

CANTO V

I Dó D~SSB instante cotidiano que eram momentos inseriCilos. Iam nas ruas grécias idas, chinos, índios, indo fundidos, sóis tão poentos como as frutas nascidas nas ervas corrutas, mais gildas e várias suzanas, nereidas, cadelas fulanas, lixeiros colhendo invenções das escalas - convenções: dó, ré, mi, fa sol, la, si, dó, dó, si, la, sol, fa, mi, ré, dó.

Nem tudo é épico e oitava·rima pois muita coisa desabada tem seu sorriso cotidiano e uns dorsos suados, pés humanos, dois utensílios: João e Joana com seus pequenos firmamentos entre corujas e cumeeiras. Ruas e ruas com as esquinas e com os prostíbulos disfarçados e essa mulata ausente ali, com seu sorriso maternal que uns homens míopes não percebem,

758 JORGE DE LIMA. I OBRA. COMPLETA. I VOLUME I

indo ao nível dêsses táxis, bondes repletos de marítimos que vêm de barcos gusanados, atrás dos barcos, - limpas aves, mais adiante os negros cais, e contra os cais, será que há mar? Será que há mar para um her6i olhar o céu à flor das águas? Junho eu fôra de todo deformado, visto através das chuvas incessantes. Tanto assim que essas águas me acenaram, e eu não quis humilhar-me nas vazantes, Antes era de ver-me refletido na humildade lustrosa dessas árvores; deitava-me nas relvas diluídas, queimava-me nos frios das malárias. Vieram ver-me: comia solidões, mastigava cortiças e arenitos. Prevendo sôbre mim algumas pontes, contive prantos e contive gritos. Resolvi ser dilúvio nessa gente, inundar-me e inundar os continentes. Há solilóquios mudos, catacumbas rasas com tíbias chamuscadas. Singra a mem6ria roteiros de andorinhas. Andorinhas? talvez tristes columbas. Silêncios dementados esperando, esperando, esperando. Quem vem lá? Quem atira nas nucas? Vala funda, mina de cal, moinho de ossos diários. O ratos cegos, já morcegos prévios, roeis teares, trapos ou. . . que roeis v6s? Os cabelos da púbis incompletos ou a cegueira das sombraa melancólicas? Roeis sem ruído, êsses tombos vãos de donos sôbre ilfacos sem os doces ventres

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despojados dos lumes inferiores que parecem charruas inocentes? Que roeis, dentes? O tédio, o amor, o som das teclas sem pedal chorado em viúvas? O tempo dos defuntos sem assombros, sem o sôpro molhado pelas chuvas? Que roeis, ó tempo? Roeis os próprios dentes, as gengivas, os ossos superiores das arcadas solares, sol sem côr, sem luzeiros de vida e firmamento?

Que noite se condensa e que muralha preserva dos juízes os declives? Que despido há no mundo realmente sem as roupas que a vida lhe teceu? Eu sei o que há: há a lâmpada adjacente e a voz contando dias oxidados e êrmas planícies e êrmas circunstâncias, para a tua secreta biografia.

Não vês os sumos âmagos concisos, junto às vidrentas pálpebras dos sêres? (Um noturno iconógrafo respira, e essa pequena lâmpada se estiola.) Leva-me a ser insânia, insânia e pranto, por largos pedregais e por paragens, pois tanta foi a infância, tanta que me está vendando os olhos entre as viagens.

ó palavras-oráculos, que bólide baixou do céu cinábrio sôbre os hojes? Que pássaro celeste de rapina desceu sôbre o dorminte alado, e o houve?

As portas do adro fundo pressagiam e os ferrolhos se movem silenciosoa.

Onde é Lenora pura pelo espaço, - deidade zodiacaJ - Lenora onde é? E essa urgência! As asas das neblinas rôtas em cruz, em gestos e estandartes, a orogenia em acres cordilheiras, e de terra natal a bôca cheia.

O tempo ambíguo existe. Eis o crepúsccuJo e as horas funerais que foram dias. (Tu te diluis no tempo entre os espaços.) O longínquo país, embarcações! Eu sei: revoluções solenes vieram. E o pássaro sozinho agasalhou-se contra os jogos dos mortos condutores, Antl·/dJdo nas consumadas vidas e nas tumbas.

Que lume não seria mais espira que os verticilos vindos da noviça alma capaz de falas policromas? Enfim o azul é poema dentro dela.

Para cair, seus gritos ecoaram dentro de mim; clamores desafios reboam ainda hoje nesses ares. - Inumerável fronte a dêsse deus. Era um gô)fo de sombras e terrôres Queda no despenhar das asas medulares. E as narinas da carne pontiagudas, e as belas plumas já desnecessárias.

Meu orgulho queimou as próprias chamas, entorpeci a dor para reinar. Mas que imensas reservas nessa raiva! Que consôJo medonho nesses prantos!

Cosmogonia e jôgo peJos sêres. Eu sei de outras origens e outros sopros, de linguagens natais. Sou cintilado. Persisto entre as virtudes e as sapiências.

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unjos Nessa outra concha da balança estou e anjos também com um braço alado. E doce. E mil. Há os olhos vítreos, olhos alienados que brilharam nas órbitas de alguém. Todavia seu sexo se acomoda casto como uma criança adormecida. Opaco bosque, o pranto dorme oculto entre os cílios e o gesto sucumbido. E tem à mão uma haste tremulada que parece maromba de acrobata; dir-se-ia estar espiando sob a máscara de algum defunto ainda adolescente. De longe inda se avista a plural rama emergindo do leito desamado. Fábula ímpar sempre transferida aos pólos animais das adversões. O lábaro crucial, ó antecedente! O dorso derribado sôbre as trevas dos infinitos claustros maternais dêsse país de símbolos recentes! E os pés andando, andando para onde? E as vozes já cansadas dentro de escuridões nascidas e depois, depois as ventanias e os soluços. As mãos no queixo e o pensamento longe, e a dúvida roendo, e a curta idéia impotente de andar. E o filho sempre perpetuando essas dúvidas constantes. E o rio continuando convulsivo, e os peixes sem saber para onde vão. Se são peixes ou água, se se odeiam, se amanhã matar-se-ão, se inda estão vi"Yos?

Adivinhas as faces nesse poema? Prevês os pensamentos que inda sangram? E as mulheres, e os santos e os demônios, e a minha viuvez pregada nêles?

Falenas - prata e luz, esvoaçar lento Candeeiro em tôrno ao candeeiro familiar. familÍIII' Alguém sôbre os degraus (hiato no poema, recordação tenaz, terrível voz!) Havia mortos inda em derredor, conversavam de pé naquele idioma sem têrmos que os defuntos sabem só, porém tão eloqüente fala muda. Conversam. Já choraram, já verteram êsse chumbo de pranto hoje copioso, baixando as faces e baixando as almas, baixando, sem remédio as nossas lágrimas.

IV

Há um céu áspero no colar de um sol, aliás não céu, mas um fulgor ou mesmo um brilho ou coisa astral e constelada a iluminar dois olhos - , (os do templo) dormidos, mas presentes e implacáveis, prolongados à terra, vendo os corpos estagnados nas órbitas de frios pelos .rarefeitos, sem destino, e embarcações paradas nos torpores dos portos devastados, construídos de ossadas e de [fósseis reduzidos a memórias já mortas e esquecidas·· pelas doze horas acordadas nos dormidos olhos nossos e do tempo.

v

Dos porões vem um cheiro à maresia mesclado a odor de ratos e de charque. Verde náusea essa nau que pressagia males a quem embarque ou desembarque.

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Silenciosa sem q_ue ninguém a marque percorre ancoradouros erradia; e é avisado o comércio que açambarque a carga apenas escureça o dia. Ela parece morta nos cais sujos que lhe povoam o casco de gusanos e a emporcalham com o limo de seus ralos.

E ninguém sabe se essas velas, cujos marinheiros corvejam os oceanos, vieram trazer escravos ou levá-los.

VJ

Também há as naus que não chegam mesmo sem ter naufragado: não porque nunca tivessem quem as guiasse no mar ou não tivessem velame ou leme ou âncora ou vento ou porque se embebedassem ou rôtas se despregassem, mas simplesmente porque já estavam podres no tronco da árvore de que as tiraram.

VII O ar tão ingênuo tornou-se agora paz intranqüila, caminho fácil da destruição. O ar tão ingênuo (agora ameaça mais do que o chão farto de morte) , quer desabar.

O ar tão ingênuo manto tão leve pesa-nos hoje; um duro reino subiu a êle. A estrada negra era no chão. O ar era azul. O negro chão habita o ar. O ar tão manso tornou-o o homem gládio suspenso metálica asa de perdição. Estão aqui as pobres coisas: cêstas esfiapadas, botas carcomidas, bilhas arrebentadas, abas corroídas, com seus olhos virados para os que as deixaram sozinhas, desprezadas, esquecidas com outras coisas, sejam: búzios, conchas, madeiras de naufrágio, penas de ave e penas de caneta, e a outras pobres coisas, pobres sons, coitos findos, engulhos, dramas tristes, repetidos, monótonos, exaustos, visitados tão só pelo abandono, tão só pela fadiga em que essas ditas coisas goradas e órfãs se desgastam.

VDI A estepe e a noite se deitaram juntas, paralelas as asas sôbre as asas, ambas com as solidões, ambas defuntas, e entre elas, sós, ardentes como brasas, espreitando à direita e à esquerda o estrito espaço ínfimo que entre as duas corre,

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