Livro de Sonetos - bloco 02 (p. 569-576) Obra Completa, Volume I · Capítulo 37 de 90
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Livro de Sonetos - bloco 02 (p. 569-576)

I II'IW DE SONETOS 569

Eu TE SINTO pecado original não só corroendo ainda os meus tecidos porém intumescendo-me com a lava do orgulho em que um arcanjo se abrasou. Para me dominares a alma escrava entorpeces-me todos os sentidos, crânio, tórax, abdômen, membros, sexo, tudo é uma gorda empôla alta e convexa. Mudas depois meu crânio, tronco e membros: a bôca em tromba, espádua em asas negras sorriso, em gargalhada má. Lusbel,

vês que a minha figura se assemelha à tua, tu que fôste o meu modêlo orgulhoso da luz que me cegou.

OLHos, olhos de boi pendidos vertem prantos por quem se foi. Ouvidos ouvem, calam. Crepes enlutam as janelas. Fundas ouças escutam seus gemidos.

Tudo é um soluço, ôi, ôi, soluço, inerte, ninguém, ninguém, ninguém. Nem os ciprestes. A morte é surda. Amém nos teus ouvidos.

O céu mata, o sol mata, a mão também. Quem é que está jorrando sangue sem espelho para ver-se em fronte rubra ? -~

Um duro som de sombra prolongada enche a negra mortalha conj!elada, que com ela não há quem não se cubra.

570 JORGE DE UMA OBRA COMPLETA VOLUM".' I

E sÃo SETAS do céu (0 sagitário!). Versos brotam de mim. Depois de lidos os distribuo por um destino vário. depondo em seus percursos meus sentidos.

Exijo que êles sejam meu sudário. Reconheço-me: aqui os meus gemidos. e uli êsse vulcão desnecessário, jogando lava em todos os sentidos.

Que chegar de presenças ! Que contágio ! Que pajens anunciados e banidos ! Nos bosques sugeridos - que presságio !

Perscruto-me nos verbos nunca ouvido&, apenas pressentidos ou passaJos. O bosque êrmo de pássaros calado~ !

A VJSTEJ-o através da treva em volta. rumo ao longínquo e ao próximo igualmente com seu galope e sua espada, e a escolta de cabelo incendiado. dêle rente.

Tudo foi hoje. O líquen cobre a mente. e o pórtico vedado ante a revolta. A corrosão dos olhos inda sente o clamor retumbando à última volta.

Sagitários de flechas interiores urge dizer os nomes luminares: Lusbel. Lusbem. Lussom. Lusfcr. Lusguia.

Errante comunhão de encantadores possuem filtros. andam pelos ares fazem das aflições sua alegria

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SE ESSA ESTRÊLA de absinto desabar terei pena das águas sempre vivas porque um torpor virá do céu ao mar amortecer o pêndulo das vidas.

Sob o livor da morte coisas idas já são as coisas dêste mundo. No ar as vozes claras, tristes e exauridas. Há sombras ocultando a luz solar.

Galopes surdos. cascos como goma. Viscosos sêres, dedos de medusas Contando silenciosos coisas nulas.

Verdoengo e mole um ser estranho soma: Crânios como algas, vísceras confusas, massas embranquecidas de medulas.

A TÔRRE de marfim, a tôrrc alada. esguia e triste sob o céu cinzento. corredores de bruma congelada. galerias de sombras e lamentos.

A tôrre de marfim fêz-se esqueleto e o esqueleto desfez-se num momento, ú ! não julgueis as coisas pelo aspecto que as coisas mudam como muda o vento.

E com o vento revive o que era inerme. Os peixes também podem criar asas as asas brancas podem gerar vermes.

Olhei a tôrrc de marfim exangue e vi a tôrre transformar-se em brasa e a brasn rubra transformar-se em sangue.

EM QUE DISTÂNCIA de ontem te modulo, mundo de relativos compromissos ? Novas larvas e germes em casulo, novos santos e monges e noviços. Não máscaras nos olhos. Nem simulo. Eu era pião, já vão evos mortiços naquele calendário agora nulo, com seus cerimoniais de escuros viços. Recordas-te do afim, teu rei colaço ? Lembras-te dêle em queda ? Céus dos dias com luzeiros - incêndios. lumes de aço. E tu, grande Lusbel, guia dos guias para reinar perdeste-me também a mim que fui o espelho em que te vias.

SINTO-ME salivado pelo Verbo, rodeado de presenças e mensagens, de santuários falhados e de quedas. de obstáculos, de limbos e de muros. Furo as noites e vejo-te, Solstício, ou recolho-me ao âmago das coisas, renovo um sacrifício expiatório, lavo as palavras como lavo as mãos. Esta é a zona sem mar e sem distância, solidão-sumidouro, barro-vivo. barro em que reconstruo sangues e vozes. Não quero interromper-me nem findar-me. Desejo respirar-me no Teu sôpro, aparecer-me em Ti. continuado.

liVRO DE SONETOS 573

DEPOIS VI o sangue coagular-se em letras espalhadas nos muros e nas pedras; e o céu baixar-se para fecundá-las e fugir outra vez para esquecê-las. Depois vi o homem pressuroso em lê-las, transformá-las em signos e arabescos em palavras, em urros, em apelos estranhas oceanias e sonetos, Em hálitos de bôcas cavilosas, entrecortando sílabas amargas engulidas no prato das desgraças, e a gagueira ser tanta, tanto o fel que a grande tôrre de marfim preciosa era a tôrre danada de Babel.

ERA UM TEMPO de olhares alternados em que dois entes ou anjos, curiosos me fitavam das trevas ou de cima, dias e noites, duros, obstinados. Livraram-me dos sêres entranhados em nós, uns mansos e outros tumultuosos transmitidos de sangues e de climas, da vida extinta dos antepassados. Esperaram que me fizesse poeta para dissimular seus graves rostos e me espreitarem hoje disfarçados. E eis que deixando essa órbita secreta: lançam ao poema risos e desgostos, gritam em tôrno, chamam-me dos lados.

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APENAS EU te aceito, não te quero nem te amo, dor do mundo. Há honraria

I que nos abate como um punho fero mas aceitamos com sobrançaria.

A um vate grego certo rei severo vazou-lhe os olhos para não fugir. O dor do mundo, eu vivo como Homero. aceito a provação que me surgir.

Homero a tua história sinto-a; c urdo o teu destino, o meu e o de teu rei. Mas só teus olhos nossos passos guiam,

e inda tens vozes para o mundo surdo. e luz para os outros cegos, luz que herdei com a aceitação dos olhos que não viam.

AMIGOS, deixai-me ir tranqüilo. Vou com uma escolta perdida. Pois. perdi-a. Então: perdi-a. Sou exilado ou um ser que foi. Agora para onde ia '!

Nem sei. pois minha escolta regressou vencida e sem paz. Vai longe êsse dia. Foi quando o meu destino começou c perdi a asa que me protegia.

Amigos. deixai-me ir tranqüilo, pois. com meu ar de sonâmbulo perdido, guerreiro andante sem o seu cavalo.

Por que afinal sem dó sofrerem dois? Um como um anjo inválido. banido. c o outro (o árdego animal) a acompanhá-lo?

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NÃo PROCUREis qualquer nexo naquilo que os poetas pronunciam acordados, pois êles vivem no âmbito intranqüilo em que se agitam sêres ignorados.

No meio de desertos habitados só êles é que entendem o sigilo dos que no mundo vivem sem a~ilo parecendo com êles renegados.

Eles possuem, porém. milhões de antenas distribuídas por todos os seus poros aonde aportam do mundo suas penas.

São os que gritam quando tudo cala, !lão os que vibram de si estranhos coros para a fala de Deus que é sua fala.

E 'IODAVIA a trave na garganta, e a grossa mão medrosa sem poder interpretar sequer a ave que canta e canta e canta oculta no meu ser.

Há uma santa presença (sei que é santa) Deus, ó Deus, Tu pretendes submeter-me a mim morosa lesma. Tu minha anta. seta de luz e luz de incandescer.

E a mão grossa vagando a Teu sabor sem poder-Te seguir pobre mão. pobre pata calosa atenta em Teu louvor.

E tão suja na pele em que se cobre, imitação de Ti, sombra. arremedos da luz que se desprende de Teus dedos.

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O POETA, mira êsse trigal ardido em mágoa. Dos canteiros que tens feito as hastes inclinadas sôbre o peito dão-te o aspecto de um deus encanecido.

Ao mesmo tempo heróico e triste hás sido um anjo alegre e um diabo sem conceito. O trigo que plantaste, contrafeito é o pobre ázimo pão em que és cozido. Resta-te olhar os pássaros que do êrmo voltam antes que o céu as sombras desça, ensombrando-lhes o último agasalho.

Abre os olhos depois, ó deus enfêrmo: Talvez a noite enfim os umedeça ou lhes negue talvez o seu orvalho.

ENTRE A RAIZ e a flor: o tempo e o espaço, e qualquer coisa além: a côr dos frutos, a seiva estuante, as fôlhas imprecisas e o ramo verde como um ser colaço. Com o sol a pino há um súbito cansaço, e o caule tomba sôbre o solo de aço; sobem formigas pelas hastes lisas, descem insetos para o solo enxuto. Então é necessário que as borrascas venham cedo livrá-la da cobiça que sobe e desce pelas suas cascas;

que entre raiz e flor há um breve traço: o silêncio do lenho, - quieta liça entre a raiz e a flor, o tempo e o espaço.

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