Livro de Sonetos - bloco 05 (p. 593-600)
I II'RO DE SONETOS 593
ENTRE A MEMÓRIA térrea e a d'água existe lousa diversa sombra liberada, canto errante nos olhos, vivo nada em que ,\ íris se fecha distanciada.
Não rev
ao sino mudo e ao tempo decomposto. Desnudo ofício, canto lapidário, em cada galeria sempre um rosto. e.sse espaço em que vivo e me desvivo escoa-se em seu curso extraordinário cruza a lenta distância c o eterno crivo.
NAs MARÉS baixas via-se uma draga enferrujada, c um mastro de galeota. E pousada na areia uma pressaga forma que se assemelha à estátua ignota.
Mas, a cena renova-se, a onda a alaga; c vêm asas ariscas de gaivota: O pensamento rápido naufraga, tudo segue de novo uma outra rota.
O mar noturno é sempre mais fecundo com seus veleiros cegos afogados na solidão original do mundo.
Corvos marinhos cruzam transtornados a abóbada dos crânios insensatos: Muda-se tudo, surgem novos atos.
LEMBRAS-TE, meu irmão, da draga morta cavando sem parar noites e dias? Lembras-te, meu irmão, da Atena ignota mergulhada na vaga persuasiva? Chegaram Jogo os insensatos corvos Transformou-se o ato: vias e não vias. Mergulhamos no clima de outra rota em que a sombra se torna reversiva.
Tua fala serena é tão dormida, tão submergida em seu glacial mergulho que a nossa voz é a voz dos afogados.
A voz que não entendem os ouvidos, voz dos búzios contida em seus moluscos, a voz neutra de flor em seu aquário.
E QUE ORANDE PAZ neste oceano de hoje. Que íris, que amizade continente. Entre nereida e anêmona não se ouve a linguagem que afasta gente e gente.
Entre quem dorme aqui e no outro pólo houve uma comunidade permanente. Os contemplados e serenos rostos olham-se com um olhar preexistente.
Um candelabro em pêndulo constante ritma a sina dos cabos bojadores. E são âncoras na água em maré cheia, e são bússolas de um igual instante marcando calmarias e torpores, e marujos parados de alma alheia.
III'RO DE SONETOS
ONDE FICA o Marão? Eu fui de lá. Minha avó foi fiandeira. Ouvi romances. Chorei Páscoas, nadei por vários poços, tive cantos e reis e anjo-animálias. Escrevendo o roteiro me ceguei, cantando-me troveiro emudeci. Essa noite que eu sei existe em mim. durmo-me convencido que sou eu. Moirejei no Marão, basta que o saibas. Parti, cheguei: romance muito breve senão astronomia salmodiada.
Pois que cheguei, e é noite, vim cear-me. No solstício do inverno plantei rosas que começaram neste instante a alar-se.
NAs NOITP.S enluaradas as olheiras das donzelas suicidas dos sobrados iluminavam aves agoureiras e cães vadios tísicos e odiados. E também vinham claunes embriagados e sonâmbulas gatas borralheiras, sombras ~rrantes, sombras forasteiras, rostos em cal e cinza transformados .
Nós éramos meninos evadidos nas insônias das febres e das asmas, os olhos pelas noites acordados .
Musas de infância ungiam meus sentidos. Eram musas infantes ou fantasmas? O meninos, ó noites, ó sobrados!
.IORliE DE UMA i OBRA CO:\IPLETA VOI.UM/1' I
ÉRAMOS SEIS em tôrno de uma esfera armilar. Um candeeiro antigo diante de seus olhos. E súbito se gera o vácuo na memória bruxuleante.
Procuro relembrar-me: seu nome era ... não sei -'~ Abigail ou se ViaJante. Sei que nos sêres houve longa espera: que ela não fôssc estrêla tão distante.
Passa-se o século; ignoro outros aspectos do minuto que passa e do milênio. Indo a uma feira vi num palco um gênio
com uma esfera armilar cheia de insetos cedê-la a cinco crianças em disfarce, e houve uma delas que se pôs a alar-se.
EM QUE msTÂNCJA de hoje te modulo mundo de relativos compromissos. Agora estas narinas como orelhas chupando as côres nuas embaçadas.
Tu sentes estas dores homem nulo, Diniz abandonado pelas santas. Tudo foi hoje: o abrir-se e refechar-se I
de leitos e de covas incessantes. ~ Seccionaram-te em noiks mil e duas com cães e galo~ negros espreitando c teu chapéu no vento badalando.
Quem vem coser de novo teus pedaços e unir a
//1 IW DE SONETOS
NÃo HÁ NO MAI'A est
eu te peço que não: é a lânguida hora, a hora augurai do cântico dos galos: neste momento a treva se descora, acendem-se na sombra doces halos:
Santa Mitria dclla Salute anda sôbre as águas por onde vogam s:mtos. Forma-se Jogo procissão enorme.
Soa na bruma leve sarabanda. Silêncio! diz Maria, com êsses cantos, que meu Filho nas águas ainda dorme.
REPÕE EM TI •• clâmide cinzenta, cobre os olhos com a névoa da memória sôbre a roda perene, lenta, lenta: Agita-a a mão, a mão propiciatória.
A mão tangendo a lenda dessa história . Que foi melhor? A rosa sonolenta? O tulc antigo, a túnica incorpórea? Havia um rio aqui, de água violenta,
c acolá uma tôrre com andorinhas, e o llllo terrível dentro do missal, as promessas de cêra. o mau assombro.
E sempre a morte com dedais e linhas,
I e a lágrima travosa com seu sal, e a mão do avô pousada no teu ombro.
!i9H JORGE DE UMA I OBRA COMPLETA I VOLUMR I
ERA A NOITE dos círios. Percorria as ruas muita gente com lanternas. Tocavam e dançavam. Santa Iria veio de Santarém contra as paternas recomendações. Perguntei-lhe se ia ficar conosco. Súbito das ternas faces santificadas a magia divina transformou em sempiternas
rosas as almas vãs, em corações algumas pedras, em jacintos as sujas taças de absinto das taverna.'!. E feitas tôdas as transformações, Santa Iria sorrindo se desfaz nas luzes variegadas das lanternas.
VAMOS MEU duplo-mor às lndias e :m país do Preste-João desconhecido. Partamos em ignorada rota blau por mar de Páscoa sob o céu renhido. Olha-me a face: acaso essa ébria nau não tem velame e tempo, nem olvido'! Acaso essa aventura não tem vau ou árduo Cabo Não inadvertido? Já preparaste a treva e o pesadelo, a mão sob a cabeça, o óleo profundo, o rei de Calicut e o de Melinde?
Ah! a nau opaca em sombra e seu modêlo vão desvendar a ausência dêsse mundo em que a poesia a túnica não cinde.
liVRO DE SONETOS .599
NÃo SEI o que pelo universo havia. Uma imensa medusa havia no ar, medusa ou qualquer súbita magia, coisa obscura difícil de contar.
Tudo em eclipse, tudo parecia em pauta dupla, contraponto. Bach. Um veleiro apontou à preamar. Ninguém sabia se era noite ou dia,
nem o que se ia agora transformar: Se o veleiro era um pássaro ou navio ou se era pedestal ou se era altar.
E nisso as coisas vieram em rodopio e à face igual do mundo sublunar, Mira-Celi desceu entre o horizonte e o mar.
PELO SIL~NCJO que a envolveu, por essa aparente distância inatingida, pela disposição de seus cabelos arremessados sôbre a noite escura:
pela imobilidade que começa a afastá-Ia talvez da humana vida provocando-nos o hábito de vê-la entre cstrêlas do espaço e da loucura;
pelos pequenos astros e satélites formando nos cabelos um diadema a iluminar o seu formoso manto, I vós que julgais extinta Mira-Celi observai neste mapa o vivo poema que é a vida oculta dessa eterna infanta.
600 JORGE DE l.lMA / OBRA COMPLETA I JIOLUMK I
ERA Louco e era poeta o sepultado . Dei-lhe a rosa de cinzas: tinha tido pai no Nordeste e avô marão nevado. O novelo da avó em fio comprido
ligado a outros avós. De monte nado, molhado de dois rios, foragido de relicário em ouro profanado. Tudo em luso e Nordeste havia sido.
Que roteiro fiel sôbolos oceanos, que outra cosmoramia mais gajeira! Votado a D. Dinis foi trovador, escreveu cancioneiros transmontanos casou-se com uma ondina que era freira, certo é meu duplo; oferto-lhe uma flor.
POis CERTA VEZ, o mundo indo acabar, Ela quis se mostrar sem nenhum manto. Tinham tombado estrêlas sôbre o mar, e apesar disso era o mistério tanto
que tudo parecia sublunar. Numa praça deserta houve um encanto, qualquer coisa difícil de explicar: as pupilas do mundo eram de espanto.
Viu-se no ambiente onírico o semblante de um ser transfigurado; e na colina houve a audição de um músico em delírio.
Mas não penseis que aquela névoa adiante era um cisne augurai ou águia albina: pois era apl'nas Ela com seu lírio.