Anunciação e Encontro de Mira-Celi - bloco 02 (p. 509-516)
miiNCIAÇÃO E ENCONTRO DE MIRA-CELI
l'ulrclanto disponho de uma constelação de braços •h· IC>das as côres e de tôdas as tatuagens para trazer-vos aqui. I' lll'\IC vale que se conjura a treva '' oudc o amigo vai e volta sempre na órbita da amiga. P quem dorme, dorme sossegado, sexo com sexo oposto, •rm pavor de adultério, de incesto ou de outros ambiguos cli- lmas. I'' aqui que se efetiva a urgência divina '\"l' me une aos que morreram, e aos que se lavam em chamas. I aqui onde deságuam os rios ,, ••ude os rios se surpreendem de haver terminado. A1111i nessa Mesopotâmia '' l(l'stação nunca foi estancada, I' us vozes mais tenras ressoam pelo interior do vale. hqui todos os sêres têm órbitas donde os cometas nascem: 1• uos lábios de qualquer virgem descem sempre androceus, ,, dos ventres brota húmus - glória de Mesopotâmia 'llll' o Senhor fêz irrigar com sua saliva em fogo. A uoite. as flôres são vísceras I' pulsam como sanguíneos vasos; 111111tas descem da encosta para fecundar os peixes que, pela rmanhã, são aves. "" sois virgens nascerão de vossos flancos eonstclações de gêmeos, 'llll' imediatamente se transformarão em constelações de amigos, 'Íl l'Xistentes nas cartas dêste fecundo vale!
,,. tendes filhos rh', se desdobrarão de lado, l'lllljUC o sôpro divino ainda se infunde nos limos, ,. ll'pousa sôbre as primeiras águas. l'olll'ITI. quando chegar o sétimo dia, !11·scansemos para olhar, abraçados, pupila contra pupila, dentro dos nossos sêres. ,, história da Criação começar outra vez.
I unos os sÉCULOS e dentro de todos os séculos- todos os poetas, '"''dl· o inicio, foram cristãos pela esperança que continham.
·'lO JORGF. DF. U.\f.1 OFIR.~ CO\frLr.T.1 HJ/.(.',\U. I
Tu és cristocéntrica. ~lira-Celi. c és uma dádiva. tão aderente a0 Scnhl1L como o cordeiro de Abel ou o pão e o vinho uc l\felquisedcc e os holocaustos do• prnfct"'· Sôhre o meu ombro, ditas-me tuas palavras ocultas. enches minhas vigílias. smto-te docemente respirando nos objetos familiares do meu quarh): ouço em tôrno de mim teu harmonio"o pa,~o: vejo-te debruçada sôbrc a cadeira em que cscrC\'Cl: certa vez. minha mão estacou ao gravar uma blasfêmia: foi tua mão breve que susteve e~ta pata de demônio. Visita-me e as1>iste-me de teu imenso domínio teu furtivo olhar com que enche~ meu~ silêncio'. Por tua doce vontade. os meus pulsos ~ão harpa". Por teu simples convite. pertenço à' tuas origcn
QUANDO te apro:\imas do mundo. Mira-Celi. sinto a sarça de Deus arder. em círculo. sôbre mim: então mil demônios nômades fogem nos ttltimos barcos. E as planuras desertas se ondulam volutuosas. Quando, porém. te afast
I\ I.\ ( t.u.-_-iO /:' l:'SCO.\'f/(0 IH-: ,\1/R.-I·C/·:U ~li
li IM Pí:tuo de M ira-Celi contém alguns milhurcs de reinos. I la .:om os dedos entrelaçados abarca a esf.._.ra ao meio; .- dt.: ponta a ponta os mares e as cordilheira~ l'"''lam obediência ao seu mundo, 'Jllt' começa onde o dedo mínimo da deusa 1,,. ;a a mais ínfima de suas constelações. N1.,,.._. imenso anfiteatro ,.,,,·nta o Império de 1\lira-Ccli. centro de nov;ts órbita:.. llo~ linha do horizonte nasce para ser ouvida '' voz ljiiC, dc- lpois do dilúvio, ,,.,·omenda a paz entre os homens. li 10teir0 dOS descobridores deiXa de SCI" pda\ ( ndia~ "" pelos cabos povoados de gentios ou de mol!~ll-.ls. 11, poetas assinalados dominam as hostc' d'" régul'1' .: d''' !ditadores. '·J.••• existem espíritos de coloração desigu;LI. '"'"' geografias que possuam dircitos sôbre a~ demais gc,1grafia,. 1 1 mais anônimo ser recebe por inoculação mi,teriosa 11111:1 túnica. repercutida dentr,l dc cada espírit.1. ~·onlll um ac->r· I de de harpa. \111 a-Celi mandou construir caravelas: ol.·u um mar a cada poeta; lllnlldou gravar em cada paln de blusa um cavnllHlli1rinlw. I 'lai alerta, que ~lira-Celi aparece para combater 111du 411e intercepte l'S homens Jc contemplar seu rosto.
A• .,;-.,I EC: E muitas vêzcs que a velh
I !
S12 JORGE m; UMA OBRA C0.\1PLETA , I'OLUMii I
correm em forma de rio: acontece, ó amiga, que nesta hora prop1c1a as árvores atraem numerosos pássaros, e os coqueirais movem-se como tentáculos, e os penedos marinhos arrastam-se, vivos, sôbre os bancos de ardn1 acontece também que os parques parecem milhões de braços aal· [ tando-se em adeuses, porque é precisamente no ocaso qUI [esta hora se dá, esta hora em que todos nos encontramos nas curvas das espirut1, e os desejos ficam intumescidos em abóbadas; então os vastos anéis nupciais, que circundam as coisas, unem-se em unânimes estrêlas armilares; acontece, ó amiga, que nesta hora podeis ver Mira-Celi dcn· [tro de vosso olhar.
No MOMENTO mais desprendido de tua amada, sob certo signo que talvez nunca se reproduza, reconhecerás um momento de Mira-Celi, se teus gestos forem simples e naturais. Um cardume de mãos invisíveis dia c noite se move semeando as suas sementes . Deixa teus olhos elevarem-se às suas pálpebras e compreenderás alguma coisa de sua perenidade; e, embora sejas uma permanência precária, ficarás fiel à ignorada . Em muitas coisas inesperadas ou agrestes descobrirás sem [indícios, suas analogias e suas conclusões. Mira-Celi nunca se eclipsa tôda. nunca está submersa; mas flutua como flutua a música ou a nuvem que paira sôbre as cordilheiras. A sua presença abre-se como os braços de Deus: e, quando as flôres noturnas fecham as suas corolas, Mira-Celi se debruça sôbre as almas que se recolhem.
Quando olhares teu filho. olha dentro de suas pupilas as pupilas ancestrais que o antecederam e viram a terra prometida à distância inatingida.
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r·urão te assentarás, humilde, sôbre o chão calcinado; 1·. quando já não pensares que Mira-Celi está próxima, l'la te surpreenderá tão momentânea e tão viva que a receberás como uma antecipação.
MmA-CEl.l é testemunha de que fui construído c·m monumento livre às brisas e aos vendavais. lenho o corpo aberto, em poros, de alto a baixo. mmo as janelas de um arranha-céu. Recebo em minhas arestas, cubo de Deus, a luz primordial que me decompõe em prisma . l'rnito de todos os meus vértices cem mil tentáculos para beber o ar, para sorver o fogo, para sondar as águas 1· ;crrojar-me na terra como um raio. Ik mil em mil anos o pássaro de Deus roça-me as suas asas 1' incorpora-me à sua eternidade; 1· cu floresço de novo na perenidade de seu sôpro. Nada se perde em mim 1· ludo se cria e adere ao ímã que me forra os membros. A minha sombra desce do meu vértice superior, diluído nas [nuvens, a feição de uma capa sôbre os desertos sequiosos. lorram de meus olhos dois grandes rios sagrados para dessedentar os loucos. I la vendo-me soterrado os areais, " 'ôpro de meu Senhor me desenterrou, como no primeiro di11. hclão, o mar veio gemer aos meus ouvidos; 1', quando as m.1rés me bramam sôbre o rosto, ~·,palho à superfície das águas ,, laia de Mira-Celi para fecundar o mundo.
I,
11 I' FM TUA CONSTELAÇÃO, várias de tuas irmãs nlio existem mais, I melhor fôra que nunca houvessem nascido) I 1bcrtaram de teus outonos, Mira-Celi;
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despenharam-sc nos abismos celestes à procura de algum sol secundário ou compõem as tenazes ou a cauda do escorpião. Só tu permaneces dormindo, intacta e incorrutível sob o hálito de Deus: só tu permaneces ainda úmida, e apenas estremeces para a glória dos homens. Só tu não fôste transformada em serpente; nem picaste Orion nem geraste os dez gêmeos de fogo que comandam as guerras. Apenas os teus sonhos nos povoaram de poesia, c o teu rcssonar é a nossa terrena música. Alta noite despertas, doce Musa sonâmbula. readormeces depois: explodem ódios no mundo, grandes flôres carnívoras brotam de pólo a pólo. rios de sangue descem das órbitas esvaziadas. E preciso que acordes, grande Musa esperada, e desças aos nossos ares, para que o homem volte a contemplar-te, mudo, pelo cair das tardes.
EsTAI ALERTA: de súbito ela se tornará visível. Estai alerta. portanto, desde o amanhecer do dia. E Mira-Celi que vem para viver convosco! Navegantes julgarão estar vendo um navio fantasma. enquanto as donzelas sonharão com seus gêmeos futuros, e os pastôres com seu cordeiro desaparecido . Mas é aQenas Mira-Celi que se torna visível. Se tendes mãos azinhé!Vradas, não a vereis jamais. Se vossa mente possui alguma sinistra idéia. não a vereis jamais. Se vosso dorso se curvou a um tirano qualquer, fiçareis cegos de nascença. Porque Mira-Celi nunca se mostrará . . . enquanto divisar manchas em nossa terra. Quando ouvirdes então um rumor desusado. vindo do fim du [mundo,
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~uhl·rcis que os falsos deuses começaram a tremer. M i1 a-Ccli vem vindo sôbre as águas. no ar. 1h lúbios de Mira-Celi tocarão vossos lábios. l•l·arcis em eclipse entre Mira-Celi e o mar!
MIRA·C'I'.LI E O IILRúl
l\l1 1·s PÍ:s estão fincados na terra; 111a' ilS mãos esvoaçam como du:Ls asas tlc somhra. ~, , 1tlllO duas defuntas mal-assombradas. I\ I inhns pernas estão fincadas na terra: 111;" os braços têm ruídos cavos: 1de cnda lado inscreveram datas sôhre n{uncros cruzados) . I h joelhos estão fincados na terra; "'·" acotovelo os que me empurram ,, hl'ira do túnel baixo. muito hem caiado. I 'la estocada de lado corresponde ,, lua mão pousnda HO meu ombro. pcsad:1. pesnda . .,,., 'l"c vais enterrar-me. Senhor. I'"'' meus láhios já se esfarelam sôhre os meus dentes fin- [cados na terra. fincados na terra. ~~~·,ta escuridão há raízes amargils c insetos que nunca vi: 111as o verho. que me infunlli.,te. estremece a montanha t'lll 4ue sepultaram meus ossos. 'i1n1o que vou renascer como uma larva tont
c 1 ror;o celeste queima-te o pnladar; " lua língua descam
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clamas à tua prole: "Por que me abandonastes, meus filhos?" E teus filhos e tua mulher c teu melhor amigo c os filhos incubados, que no ventre de tua companheira rcs· [piram o hálito do limbo, te repudiam. Na verdade, te tornaste tão diferente, retirando as escamas de I tua face, que te transformaste nos primitivos peixes. As cidades populosas estão desertas ante teus olho~. c andas pelas ruas olhando as janela~ como um insensato. Agora os becos te circundam c o próprio ar de Deus comprime teu hálito morto: - Por que não morri no ventre de minha mãe? Senhor! apagai dos tempos decorridos o minuto em que vim à luz, o segundo em que imaginaste a essência que cu sou: retroagi vossa criação até a minha ausência: deixai-me descansar entre os abortos do mundo.
NAQUELA tarde o rosto infante. sonho acordado. bastava apenas respiração que do seu hálito o ar se fazia, com a estrêla Vés per antes da hora da Ave-Maria: ar coagulado formando a igreja. ar rarefeito, a serra ao longe. ar enterrado, velho sobrado onde nasceu . No céu tran~lúcido gorro voando, gavião morto,