Livro de Sonetos - bloco 01 (p. 561-568)
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Vejamos, por exemplo, êstes dois versos, que são o ponto de t•artida de dois sonetos diverso.ç entre si, apesar do cordão "'" bílical: Em que distância de ontem te modulo, Mundo de relativos compromissos? Mais adiante figuram no início de no\'o sonho. embora sem ,, ''Írgula, sem a interrogação e com ontem .wbstiwído por hoje. 0.1 mais 12 versos tanto do primeiro como elo segundo indi- nmr, de forma que me parece óbvia, que se limitam a com- tdl'far o edifício do sonêto, apoiados a um alicerce virtual- mcllle hermético. Idêntico é o que sucede, creio eu, à c/rave-de- 1111/'0 autêntica: "6 meninos! ó noites! ó sobrados!", que serve ,/,• fecho a dois sonetos tanto ou quanto gêmeos, porque desen- l'olvidos dentro do mesmo assunto e quase com as mesmas pa- lt~~·ras. O emprêgo de versos iguais no decorrer do livro pode ntribuir-se a um lapso (como parece ser o caso de Camões nalgumas estâncias d'Os Lusíadas) ou a deliberação artística, o •lllt' se dá no Livro de Sonetos. Exercício êsse muito encontra- rllço, ainda nos clássicos. 1/á no volume certas palavras, certos temas, certos símbolos, rn·textos ou motivos que retornam incessantemente. Seria can- llltivo enumerá-los. Suponho que de forma nenhuma se trata, aqui, de "constantes" digamos inconscientes, de arrimos líricos, mmo por exemplo a represell/ação da presença divina em llt·olindo Tavares, atral'és de sintagmas como "astros de Deus", "jardins de Deus", etc. (possível reminiscência franciscana, direta 1111 indireta, filtrando sugestões inclusive do próprio Jorge de I i ma). O tema da "infallla defunta" enseja doi.~ magníficos 11111etos, que. a meu entender, melhor ficariam u julllos no vo- /,ne. O primeiro - "Pavana'' - é uma peça inconsútil, precio- 111/llente talhada num só hloco.
Falei, acima, na religimidade de Jorge de Uma. Religio.w num '''"lido mais próximo de litúrgico, do que de místico. O Livro de Sonetos é, soh determinados aspectos, uma sorte de ação de •:mça.~ cantada como "De Profundis". O "Livro de Jó" pode- ' ia dar mai1· ou meno.r uma idéia do que intento dizer. Há muita mmpunção religiosa nos sonetos, até nos de cunho profano. I 'o/ta-se para D~us o poeltl com humildade e contrição, 1111111
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deprecatório s11hmi.uo. O q11e ta/l·e::; perturbe o caráter m/A/1,.. dessas manifestações (acredito que 110 a11tor importaria mnl.t ., caráter místico que o religio.m) será 11 extrema l11cidez t/11 •1111 poesia. O místico req11er certa ingenuidade 011, antes, uma 11111,. nuidade total, um e.ftado de inocência compará1•el ao da 111/tllh cia. O santo é 11111 ingênuo. O religioso é litúrgico por t•.tcr/111• cia, compreende o significado temporal das cerimônias, dru f111• ces, é objetivo. O místico pas.m depressa da ortodoxia à /u•n•.1/e 1 sem .mir de seu êxta5e perante Deus. O religioso, ao contrtfl'lfl, jamais seria capaz de alterar uma letra do missal, de tran.H't'lllljll do ritualismo. A simplicidade p11hlicana .re contrapõe, /rkl/ mente, às pompas fari.micas, como o Senhor! Senhor! 1111 Domine, non sum dignus. Longe de mim pôr em dúl'ida a inteireza do semimcnto l't'l/• gioso de Jorge de Lima. Permito-me, todm•ia. ponderar-lhe 1111~ uus extraordinários recursos poéticos o terão levado a11(mtltf.l vêzes, nos sonetos, a 11111 tom de exacerbamento que se mt ali g11ra capaz de abrir caminho ao intencionalismo, origimuul•• paráclase.5 em relação ao .rentimemo mí.vtico de A Tí111l~11 Jnconsútil. 2 A ausência do alexandrino é total no Livro de Soneto~. N Julgo que de1•ido ao fato de enl'elhecer muito depressa o dod,• cas.dlabo em português. O 1•er.m heróico tem mais re.5i.ftêlll'ill ao atrito do tempo. Jorge de Uma, fazendo lar/lo uso do dr cassílabo, q11au lhe esgota as po.uihilidade.r. Aplica. se mio tiida.1 . .quase tôdas a.r combinações pouívei.r de rimas (' auonftnc/111, .~em recuo ante o.5 llibridi.mws. O hibridismo, no Livro de Sonetos, chega a tornar-.te (/1111· /idade me.5tra. P.., pois. de lamentar que de ccrta.t feita.t se ha/11 l' poeta esquil'ado a lançar mão dê/e, optando pela.t rimas "pm nasiana.r", alg11mas. a meu l'er, ahaixo da.t qualidade.r estétin11 do autor: O restante é oceania naufrag~lla: Cavernas de nau, âncor;~s c ~távctls. Dr~sa \'asa s:llobra il moriC' 1m·c-a.,.
2 Pude observar mais tarde que, bem como Alphonsus de Guimamcn~. sentia Jorge lle Lima verdadeiro fasdnio pelas suntuosas expressões lilút gicas. O exacerbamento formal, por o111ro lado. culminaria na Jm·e,,·il" ele Or/1!11. (Nota de 1958.) 3 Sirvam de exemplo dêsse envelhecimento os próprios nlexandrinm de Jorge de Lima de sua logo superada f;~se parnasiana. Com esta vt•r i ficação se destrói o "retôrno", no Li•·ro de So11rtm. às primeiras in fluências. sem perda lias primeims aquisiçôo:s estilísticas. I Nota de 1950. l
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A1>enas eu te aceito, não te quero nem te amo, dor do mundo. H:i honrari.a que: nos abate como um punho /
Malgrado a ifl.lútência com que aludo ao Parmtsianismo, afi- 1111111-u-me o Livro de Sonetos. mais que ollfra coisa, de cunho 111'11· ~imbolista, sem embargo das conrribuições modernistas, que /l.'t'ltl/11 vir il tona o camonianismo. Muitos passos do livro en- 1 1111tram ressonância em Cruz e Sousa, como em "Perdidamenre /lt'lct noite seguel', "Como sombra invasora e transbordada", 'll••tlüe em ti a clâmide cinzenta", etc. Claro que não me refiro '' ( 'ruz e Sousa como influência, e sim como ponto de referên- 1 ia do nosso Simbolismo (pressupondo o conhecimento do que
/11i o Simbolismo enrre nós). com a valorização do adjetivo ,,.,,11o se abundanre, a busca da musicalidade. De Nestor Vítor 1ainda rw terreno histórico do Simbolismo) há o narrativo nem ,,.,,pre articulado com êxito. 4 A verdade é que alguns trabalhos do l.ivro de Sonetos não fôssem animados por Jorge de Lima e não 11' beneficiassem do conjunto que lhel· confere inegável harmonia , 1111111111. passariam por inferiores. Isso porque se resumem a ex- ,,,.,i,;ncia.\· vocabulares ou resvalam no simples narrativo-descri- lit·o. Por vêzes tive a impre.mio de que certos trabalhos eram ,,,·ro.~ exercícios. Pouco importa que o senrido seja fácil de co- 1/,:r, ou que a forma aparenre modernidade. Hâ o comprazi- ,,,.,ro no jôgo sonoro de palavras. a procura gmtuita de efei- lllt, difíceis de compreender "'"'' poeta mmluro como Jorge de 1111111. A credito que em mais de 11111 momenro do Livro de Sone- 1"" o autor enveredou pelo caminho do cerebralismo e exerceu
·I O capítulo das influências em Jorge de lima_. . Ao lado das in- llou·ndas confessas e duradouras, Baudelaire, Laforgue, Lautréamont, Homhaud, Apollinaire, Neruda, etc., as mais díspares impregnações mo- ooll'ntftneas. O adjetivo b/au veio da heráldica ou da poesia catalã'! Um ti'" fatôres que determinaram a construção dêsse monumento neobarroco •1111'
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v~rdadeira tirania ela forma sôbre o conteúdo. Certas palaw-a.\· chave surdem com wmanha jreqiiência e tal realce que outra coi.m não me ocorre. "Vamos melt duplo-mor às Im/ias e ao" serviria e/r exemplo a um lirismo excessivamente intelectualizado. Do qur resulta, de espaço a espaço, uma poesia fria, dura, rígida. E que no Livro de Sonetos o emotivo foi amiâde qua.Yf substituído pelo ourives do verso. O poeta (e isto dispen.w quaisquer prova.\') manteve se!Lf opulentos cabedais. Procurm a bela poe.fia nesse volume é lê-lo todo. Querer sentir o poettl verdadeiro, o poeta tlfl plena consciência de sua condição lírictl, é tomar, um a um, os l'ersos que extraem a quinta-essêncill da1 palavras e lhes captam a secreta energia. Qtumdo entramos no Livro de Sonetos, trazemo.\· para dentro do túnel (se é cabívl'i êsse nome à planície vastíssima e iluminada) as harmonias d11 poesia anterior de Jorge de Lima, mas conquistas, suas revela· ções, sua permanência. Considero, no entanto, que aqui o ar- tista ultrapassou o poeta. Manuel Anselmo, no seu exceleme eswdo sôbre a poesia do lírico alagoano (A Poesia de Jorge de Lima. 1939), sentiu qw• o poeta se desviara do Pamasianismo para o Simbolismo, do qual o Modernismo veio salvá-lo. Hoje, ao que pen.w, como que agrupa no Simbolismo moderno tôdas as influênciqs de stw vida, e fica num ponto por assim dizer eqiiidistante do Moder- nismo, do Parnasianismo e do Classicismo. Entretanto, muito mais do que em 1939, quando d'A Túnica lnconsútil, poderitt Manuel Anselmo "afirmar que a atual poesia de Jorge de Lima tudo deve à intelectualização dos resultados líricos obtidos pelo.~ ,cinco sentidos do Poeta; sendo muito embora uma poesia de missão, ela está prêsa Intimamente à natureza", no sentido mai1 humano-poético possível, "do Autor e às suas particularidade.\ psicológicas", as quais, cumpre frisar, se resolvem num "bo\'U· rismo inato". Conquanto me afaste, com freqüência, da exegese de Manuel Anselmo, reputo-a bem mais justa do que a de Andrade Murici, por exemplo. Apenas, quanto a essa "intelectualizaçtio", vou 11wis longe ,. ; mesmo possível que a confunda a revêzes com o cerebrali.mw. p possível também que eu esteja pedindo um excesso de par- ticipação primária a um poeta que já se definiu. E aí se des- cobriria, com facilidade uma tremenda aporia de minha parte: colocar em pólos antagônicos a perfeição da forma e a depu- ração da substância, para ver nesta 11ma depressão e naquela um recuo. F. C.
Os sEus enfeites. Suas bandeiras. O amplo velame Dormem na sombra. Os mastaréus Fura m a treva; Na tarde fria São como ogiva-;. ~ um mudo rito, Agudo, agudo No ar nevoento. E a nave suave Parece uma ave Insubsistente.
TEMPI.O votivo Sombrio c imóvel Na tarde viva Que a noite envolve. Nave tardia. Transfigurada. A tarde fria Torna-a encantada. As velas juntas Parecem asas Alanceadas. Irmãs defuntas Ressuscitadas Por Deus chamadas.
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NAVE OU igreja Laje ou que fôr Suba perfeita Para o Senhor. Que não se veja Ouro e esplendor Mas tudo seja Amor, llmor. S6 um altar Corpo votivo Rasgando o espaço. Para o inflamar Coração vivo Enche-o de graça.
SEI TEu GRITO profundo, e não me animo a cortar a raiz que a Ti me embasa. Em mão mais primitiva não me arrimo devo-Te tudo, origem, patas e asas. Permite que eu revele história e limo sem desobedecer a Tua casa. Nazareno dos lagos, lume primo, atende à pobre enguia de águas rasas. Se dêsses versos outro lume alar-se misturado com os Teus em joio c trigo, sete vêzes por sete me perdoa.
O Desnudado, é meu todo o disfarce em revelar os tempos que persigo - na vazante maré com inversa proa.