A Túnica Inconsútil - bloco 01 (p. 425-432)
POEMA DO CRISTÃO
l'oRQUE o SANGUE de Cristo jorrou sôbre os meus olhos, n minha visão é universal l! tem dimensões que ninguém sabe. o~ milênios passados e os futuros niio me aturdem, porque nasço e nascerei, porque sou uno com tôdas as criaturas, com todos os sêres, com tôdas as coisas IJIIC eu decomponho e absorvo com os sentidos l' compreendo com a inteligência transfigurada em Cristo. I cnho os movimentos alargados. Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria; wu velhíssimo e apenas nasci ontem, C\tou molhado dos limos primitivos, l' ao mesmo tempo ressôo as trombetas finais, wmpreendo tôdas as línguas, todos os gestos, todos os signos, tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas. l'osso enxugar com um simples aceno n chôro de todos os irmãos distantes. Posso estender sôbre tôdas as cabeças um céu unânime e es- [trelado.
venho e Irei como uma profecia, sou espontâneo como a intuição e a Fé. Sou rápido como a resposta do Mestre, sou inconsútil como a Sua túnica, sou numeroso como a sua Igreja, tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita tôdas as horas, em tôdas as direções, nos quatro pontos cardeaia; e sôbre os ombros A conduzo através de tôda a escuridão do mundo, porque tenho a IUI [eterna nos olhos. E tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico: ressuscito na bôca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômegaj [peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou [tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorüicadoi [tenho mantos de púrpura e de estamenha, sou burríssimo [como São Cristóvão, e sapientíssimo como Santo Tomás.' [E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para [todos os séculos, louco de Deus, amém! E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem, [e a medida; sou a balança, a criação, a obediência; sou o arrependimento, sou a humildade; sou o autor da paixão e morte de Jesus; sou a culpa de tudo . Nada sou. Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuaml
ONDE ESTA O MAR?
SuoRES SALGADOS e amargos de mergulhadores escravos se diluíram no mar. Suores salgados e amargos de remadores de galeras desceram para o mar. Sangues salgados e amargos de grandes batalhas navais desceram para o mar. Lágrimas de sangue dos que ficaram abandonados nos cais correram para c mar. Sangue derramado nas guerras que a terra embebeu correu para o mar.
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1 I mar é cada vez mais amargo. I lndc está o mar inocente - propriedade do poeta? l'1unciro morreram os imensos animais e as grandes plantas [marinhas do comêço. 11 as estrêlas gigantes qui iluminavam o fundo do mar "' apagaram depois . 11 as antigas medusas que eram cabeças de mulheres novas -~· l'novelaram de cobras. l(aparigas e mancebos marinhos estão reduzidos a polvos e a rsêres tristes 1'omo as morsas e as obesas baleias. clinctes aquáticos se reduziram a ridículos cavalos-marinhos. 1\luilos peixes se transformaram em aves, muitos cegaram pelo [que viam. I h pelicanos se escravizaram nos viveiros dos príncipes. As cloacas da terra desembocam nas águas em que o Espírito [pairou. I ls siris comem olhos de cadáveres irreconhecíveis. li omens que comem siris cada vez mais têm escamas nos olhos I' vêem menos o mar e vêem menos o mar. I lmlc está o mar? Onde está o meu mar?
O NOVO POEMA DO MAR
() HOMENs sERVIS, o mar não é isso que acaso pensais! f) homens servis, o mar não é o peixe I' nem é muito menos a trilha explorada! Oh! vinde a mim, poetas amados: t•xpliquemos aos homens os mantos do mar. l'nxergai, homens servis, as pegadas de Cristo ,. o sangue das guerras nas espumas do mar. I'· abaixo das espumas as ondas que abraçam os corpos volutuosos. I' abaixo dessas ondas a água fria, a água quieta, a água azul. 1\ abaixo da água azul as montanhas que ainda guardam a pre- [sença de Deus. I' mostremos aos. homens servis, 6 poetas amados, ,,, vales do mar, os profundos vales do mar, onde os náufragos, os afogados e os suicidas dormem,
onde as âncoras há séculos repousam, onde descansam os aviadores desaparecidos, e onde há colunas partidas e estátuas mutiladas das cidades que afundaram no mar. Se ides à praia banhar-vos, cuidado! que vós perturbais quem dorme no mar!
O MANTO DO POETA
E o MANTO do poeta lhe foi dado frente a frente e investido pelas próprias mãos do Senhor. E o manto era talar e por fora tinha cordas de harpa para transmitir a tôdas as gerações o som de seus gestos e de seu andar. E era belíssimo o manto do poeta e era obra de grande engenho: e era de fio de escarlata com o número de suas tribQS, com os sete dias da criação e a simbologia de suas musas. Traje tão imponente e tão sábio nunca houve antes dêle desde o primeiro homem. Dêle nenhum vivente fôra investido fora de seus iguais . E abaixo do manto havia a túnica interior em que o livre arbítrio permitia a inscrição das insígnias opostas, E abaixo da túnica, havia a pele abrigando o sexo em [os poros; mas um manto de pequenas chamas tornava-o sem como um santo dentro da Graça. E abaixo da pele existia vinho e pão da eterna Tram;utlst!mc:ia~;ão. E dentro havia os ossos e os ossos já eram [verteria no fim. E Deus vendo que o manto se ajustava à sua criatura, achou tudo muito bom e soprou-lhe de novo nos olhos e lhe prometeu sua túnica inconsútil. Em vão a mulher de Putifar lhe puxará o manto quando êle decifrar os sonhos de Faraó. Mas êle depositará o seu manto para a sua Musa pisar. Mas enxugará com éle as lágrimas dos pobres ou os pés do [seus discípulos
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1111 retirará a sua cinta para enxotar os cínicos 1111 o cnfunará como uma vela imensa que o levará pela rota [de Elias.
O HOMEM - SER PROCESSIONAL
JIINTO DE TI, homem, ser processional que só vês tua sombra. pousa a mão no teu ombro o Anjo que te protcje. Mas. ora esvoaça à direita, ora esvoaça à esquerda o grande e bejo Anjo exilado da Luz. Adiante de ti - perfurada e sangrando, 11 mão do Redentor te aponta o caminho certo; tkntro de ti - sêres anteriores a ti, - luminosos ou negros v;io contigo e tua sombra. l,luando adormeces e ficas durante o sono - invisível e inocente, t' o livre arbítrio voa de teu cadáver, 11 estranha procissão espera que tu te acordes p;1ra prosseguir a marcha. l'm isso é que te cansas sem motivo nenhum. l'or isso é que andas de costas para o caminho certo. l'or isso é que tropeças e tateias como um ser sem leme. l'or isso quando pensas estar sôbre o abismo do Inferno, 11 mão perfurada e sangrenta te conduz para cima.
A MULTIPLICAÇÃO DA CRIATURA
I'I\KECE, SENHOR, que me desdobrei, que me multipliquei, que a chuva dos céus cai dentro de minhas mãos, 11uc os ruídos do mundo gemem nos meus ouvidos, •1ue batem trigo, chorando, sôbre o meu tronco nu, que cidades se incendeiam dentro de minhas órbitas. Parece, Senhor, que as noites escurecem dentro de meu ser [múltiplo, que eu falo sem querer por todos os meus irmãos, que eu ando cada vez mais em procura de Ti.
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Parece, Senhor, que tu me alongaste os braços à procura de abóbadas raras e iluminadas, que me estiraste os pés repousantes no Limbo, que os pássaros cansados em meus ombros repousam sem saber que o espantalho é a Semelhança Tua. Parece que em minhas veias correm rios noturnos em que barqueiros remam contra marés montantes. Parece que em minha sombra o sol desponta e se deita, e minha sombra e meu ser valem um minuto em Ti.
O MONUMENTO VOTIVO
No GRANDE monumento votivo, 6 musa desconhecida, colocarei na base, encrustados na pedra, ouro, cedro e marfim para exprimir a unidade da matéria, e em cima um propiciatório de bronze chapeado de prata para as oblações a Deus. E em cima duas mãos entrelaçadas, muito unidas como a ânsia dos sêres; e acima a arca do altar; e em cima da arca do altar um ornitorrinco equilibrando uma esfinge que amamenta um centauro recém-nascido; e acima do centauro o número que é o símbolo do intinitot pedirei a Cristo o Alfa e o Omega para [um grifo. Ornarei os lados com prismas onde o vento soará sinfonias e arco-ms . Tôdas as colunas encerrarão bramas de mil braços adorando o coração universal do Filho, e grais cheios de ouro, incenso e mirra. Todos os pedestais terão redomas de setenta ciclos de com a representação da Trindade Imortal. E num fundo de linho retorcido: um círculo, uma esfera, o símbolo da túnica inconsútil, a tiara dos Pontífices,
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"'' .:achos, as espigas, as colmeias, o logaritmo, 11 úlho da falena, o diamante lapidado e o ventre das virgens. C lll-rccerei a Deus a humilhação do ouro debaixo do ímã,
11 obediência das coisas em se entrelaçarem, 11 equilíbrio em ascensão contínua, " I.: i de gravidade arrependida e a vitória da levitação. Oucro agradar ao coração de Deus ulnccendo-lhe o Tabernáculo do concêrto e das alianças. Munúarei convidar as tribos, n arca, os trabalhadores dispersos de Babel. 11 \agrarei para Glória do Senhor a morte e a ressurreição de Eva, "111 louvor da Virgem Teóloga.
O POETA NO TEMPLO
O POETA no Templo é um ser velocíssimo c êle próprio é um templo que penetra outro templo. O poeta se enfurece mesmo dentro do Templo porque vê os mercadores dentro da casa do Pai. O poeta se impacienta dentro da casa do Pai quando ouve as lamentações dos que esperavam Deus. O poeta nunca repousa quando penetra o Templo: E.le se senta com Cristo à direita do Pai, êle desce aos infernos e ressurge dos mortos . f:le fala palavras que são palavras do Pai. f:le fala palavras que são palavras do Filho. Todos os seus pensamentos são pensamentos do Espírito. O poeta dentro do Templo usa duas coroas juntas: uma de espinhos, outra de Rei do mundo. Ele muda de mantos de momento a momento, êle come o Pão asmo sem fermento nenhum, êlc dança, êle canta, êle é ator de Deus.
O poeta dentro do Templo é uma multidão de vozes. uma multidão de gestos, é uma multidão de passos indo e vindo com Cristo antes do Mestre nascer, indo e vindo com o Mestre antes do mundo nascer.
JORGE DF. LIMA / OBRA COMPLETA VOLUMii I
O poeta no Templo tem dimensões crescentes. desdobra-se vários milhões de vêzes, vem de Ur para Roma; e em Roma: Tu és pedra! E êle se transforma em pedra e adormece na pedra e sobe na escada ao Céu.
O poeta no Templo come gafanhoto e mel e anuncia às nações o Pastor dos pastôres . O poeta no Templo tem a visão de Patmos: da cidade sem Templo, porque o Templo é o Senhor e o Cordeiro é sua lâmpada iluminamlo o mundo.
OLHA ANTES A SEMENTE
ANTES DE LANÇARES a semente no chão, antes de calculares os lucros da seara, e antes de somares o valor da jóia que vais dar a tlla noiva. ou os cofres que tu vais encher e as coisas que tu vais transformar; vê através do pequeno embrião de árvore: a sombra, o pastor tocando a sua gaita e a virgem derrubada debaixo da fronde, e o neto do pastor subindo nos galhos à procura dos ninhos escondidos; e os ramos benfazejos descendo sôbre novos berços. Vê o jovem enforcado num dos galhos sem fôlhas, e o Bem e o Mal sempre brotando da árvore; c as sementes, como nas parábolas sagradas dando de comer aos pássaros ou secando nas pedras; e sempre galhos subindo para a glória de Deus c sempre galhos descendo para a fome da terra .