Anunciação e Encontro de Mira-Celi - bloco 04 (p. 525-532) Obra Completa, Volume I · Capítulo 32 de 90
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Anunciação e Encontro de Mira-Celi - bloco 04 (p. 525-532)

I.\ I:,'\/( /.·l('..iO F. I·:NCONTIW DE M/RA-CE/.1 525

doi~ gêmeos ou dois cisnes ou dois diapasões de bronze que acordarão o mundo para encher-se de poetas. Rosclis. a salva tios escravocratas. conseguiu ficar selada ··ntre os açoites c as lanças, entre os unicórnios c as lufadas. c ) corpo de Roselis pode vingar-se como a bola de neve que rolará sôbre os lôbos famintos. Mas prefere dissolver-se em neblina ,. umedecer as pálpebras dos poetas tristes.

,. o filho desta menina é êste môço de luto. Agora vire a página e olhe o anjo que êle possuiu, veja esta mantilha sôbre êste ombro puro . .: êstcs olhos que parecem contemplar as nuvens ;atr:tvés da luneta avoenga. Veja que sem o fotógrafo querer d a~ cortinas dão a impressão de caras impressionantes por detrás da gravura: um estudante de cavanhaque c outro de I I capa. Rq1arc bem o braço que ninguém sabe de onde ,·ircunda o busto da môça c a quer levar para um lugar esconso. li h\e bem o olhar com o ouvido à escuta para perceber a res- lpiração grossa, I '"gritos, os juramentos ... A saia negra parece um sino de luto, ,. u decote é a nau que a levou para sempre. E êste fundo de água pude ser o mar muito bem: mas pode ser as lágrimas do fotó- [~rafo. ,, 1!1. I

JORUJ-: /H: J./;\/.1 0/JRA C0.\1/'U:t.l I'OLl!Mii .

As UNHAS PJUNCII'AIS

ENTRE cOMI'ANUEJROS e companheiras vejo, ora à direita, ora à [esquerda, um relativamente móvel sôbrc qualquer horizonte. a mulher que o oceano trouxe: 11ão a confundais com Mira-Celi - a louca: mas haveis de r.:parar qu;mtu seus olhos são belos, pois se assemelhdm a mãos entreabertas. onde agonizam lâmpadas; e seus braços parecem asas Jc gigantescas pombas aquáticas. nunca vistas entre os gelos; as coxas vêm batidas por furacões Jementes. os pés são mais ágeis que as mareias lunares: mas, reparando hem. a mulher não veio do oceano: saiu do cais para jogar-me nágua. Antes a haviam esbofeteado alguns malanJros disf;u·çaJos em [polícia, porém, a suicida começou a andar sôbre as águas. como o mistério sôbre as catacumbas.

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\'i·dl· que o vestido parece uma lanterna povoada de insetos. 1· ·" mangas de sua blusa executam à flor das vagas uma pes- 1 ca miraculosa; é a rainha da noite, e fôra antes simples operária agarrada ao tear. 'i1·u nome não será Germinai ou Celidônia? Ou será simples- i mente a rainha da noite. IJIIl' se aproxima primeiro escurecendo uma esquina solitária. ,I 1kpois acariciando tluas môças debruçadas numa sacada antiga, 1· l'lll seguida fugindo pelos confins do horizonte em busca da I cstrêla fria, l11a como a estrêla do mar? .'icu nome não será Germinai ou Cristina'! la lo de sêres que existem: nunca vi tanta sombra em seus cabelos lll'lll tanta suavidade em seu andar. I I uomc afinal que importa à essência de um poema'!

I' I)IIANDO CHEGUEI, percebi Isadora apoiada à muralha, segu- [rando um arco-iris. lnquanto a olhava para convencer-me de sua presença. 1 111-me. voltando para mim o rosto em que brilhava uma sú- lbita alegria. I 1a como se fôsse uma irmã mais nova ou um desdobramento [de meu ser, r.dvcz a última deusa construída por mim Pll rcssurreta pela minha memória. I qdora provinha de gerações ignotas ,. na a repetição das faces e dos ventres que imaginei. N;, verdade Jsadora é um minuto de minha criação ,. apenas ficou em mim para brotar de meu sono c de seu l companheiro. s,·,cubo. flutua Abel nos olhos de Isadora. ,. nos pés há o amado Caim que tanto caminhou. "'o fim há um incesto bíblico entre mim c lsadora. 'urre seu pensamento e minha memória. ludo partindo de um pensamento (mico. hadora é minha irmã ou a parte feminina de meu ser 1111 a minha queda ou a minha Eternidade.

lsadora foi. porém, criada para meu flagelo. para Deus não me esquecer e me irmanar a Jó. Pela décima vez reconheci Isadora com um arco-íris na mão, l encostada à muralha. e voltando para mim o rosto. era como um sol nascendo.

ALBERTINA continua a viver como nos últimos dias de sua vidA junto à minha mesa de trabalho c em outras mesas de trabalho de poetas que a recebem como qualquer de seus fantasmas. Isto é uma ubiqüidade que eu lhe concedi antes dela morrer. Agora é teatral, muda e solitária, vaga pelas ruas desertas que tanto temia outrora. Só uma criança a pôde ver uma noite . Ela ficou de repente real como a Poesia . O menino abraçou-se a seus pés e morreu . Ela continua a viver como nos últimos dias antes de sua morte : Pois as duas tranças têm o mesmo laço de cetim azul. Só a sua serenidade aumentou, e a facilidade de se levitar até à minha janela, alta noite, é enorme. Albertina deve conhecer agora tôdas as grandes \olidões. onde há o repouso, que um poeta deve invejar . Percebo que ela vem de lá, pelos indícios dêsses grandes are~ que pairam nas suas mãos. Albertina deve conhecer agora as meninas que foram suas avós em outras gerações, pois há sinais no seu olhar {lc que ela já as viu na eternidade.

AcoNTECE que uma face alta noite vem juntar-se à minha face. Magia:

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ela penetra em meus lábios. em minha fronte, em meus olhos: e eu não sei se é a minha face ou se é a face de meu sono ou da morte. Ou quem diria? - se de alguma criatura composta apenas de face incorpórea como o sono. face de Lenora obscura que penetra em minha sala c do outro mundo me espia. Apalpo-a. E é a minha face que a mão leve acaricia, são meus olhos e meus lábios frios lábios, frios olhos devem ser da criatura composta apenas de face, face amada, fria, fria. Os olhos fecham-se suaves sôbre a face prisioneira . Abro os olhos: ei-Ja, esvoaça rente aos meus lábios frementes, sinto-lhe o hálito, ou é o vento que abre a janela? Talvez. Talvez de alguma criatura composta apenas de face: Asas sem ave, dir-se-ia que elas tataJam à procura de um ser de quem se apoderem, escondem-se em minhas pálpebras, não sei se a noite me cega, se estou morto e se esta face é a máscara da terra fria. Descerro os olhos . Agouro: As asas se abrem, dir-se-iam as asas longas de um corvo que alta noite procurasse acolher-se em minha face . Levo as mãos às minhas asas. asas molhadas de lágrimas. asas ou máscara fria, I ou sono ou treva, ou a noite, I ou a morte que me espia? li

~30 JORGE DE LIMA OBRA COMPLI:.T A I VOLt'Mf,' 11

Abro as mãos sóbrc os meus olhos. Deixai-me, ó ser de face obscura que do outro mundo me espia! E minhas mãos são agora as asas da ave escura que fugindo à ventania acolheu-se em minha face. Asas ou máscara fria banhada em lágrimas ou suor. face da morte, dir-se-ia a de alguma criatura composta apenas de face. incorpórea como a morte, de anjo ou amada obscura que do outro mundo me espia. Minhas mãos ou as duas asas espenujam-~>e no rosto dêste poeta adormecido. E de sob o traço umbroso. outras máscaras traídas são um baralho de face~. E enquanto a ave se espenuja em sua negra porfia, há outras faces trazidas à superfície do morto. Há outras faces. há faces que é melhor não acordá-las debaixo da face fria.

As PESSOAS que cu nomeio são pessoas que existem. os fatos que estou contando vossa memória esqueceu: mas vos digo que certos eleito~ penetraram em fornalhas c saíram ilesos. Yazaran: olhos de espíritos imundos. enquanto outro' fechavam bôcas de tigres rcai!>. como quem [fecha janelas; outros recuperam seus mortos pela ressurreição; porém outros que zombaram c não creram.

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l1l';1ram cegos para sempre. ,.,,antes para sempre. npulsos por tôdas as nações: l'nderam a sua tradição: llllliTCram. como se não houve~sem existido; lll'ram à luz. como se não tivessem nascido. Ro-.clis, Isadora. Albertina. Violante, Abigail, duplos. trinos. trevos e triângulos humanos. , uhos do Eterno Princípio ... '' pessoas que cu nomeio sào pessoas que existem o

32 I .' AGORA L1s uescansa onue'? Em que mansão descansa Lis'? li Pensas que Lis morreu talvezo I Que algum tirano ou monstro a esconde nalgum país que não conheceis ou que eu mesmo nunca vi. I l.is não se foi para nenhuma I gente maldita ou plaga obscura, onde não haja poesia. I Livre de somhras c ue brumas Lis ressurgiu sempre mais pura. como as estrêlas alvadias.

Em tua vida que é que esperas se não te espera outra viua? f.s como um sôpro num deserto: sobre o areal te dilaceras. gritas, dehalue, sem guarida: ninguém, ninguém passará perto.

Lis te dará itinerário. vela e batel, pôrto e alcgri;, Que queres mais, homem sem grei? - Em que puís, ó visionário,

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llcscansa Lis pura e erradia'! - Vinde conosco c sahcrcis.

Mas quem é Lis? Musa ou atrit. anjo ou visão? ou é a Morte'! ou é a Vida inda uma vez'! Em que país descansa l.is'!

Vindc conosco e sabcreis.

VIM PAR..\ DAR-TE notícias dêste mundo, sombra amiga, e tll que meus companheiros se deitam e se levantam ensangüentuliOI como o sol. Já não acertam chamar-te com teu nome terrestre, pois seus lábios estão mais lívidos que o sangue dos mortos . Corre entre o ar e o homem uma cantiga urdida de sorti"• gios: em cada coisa vivente a destruição começou. Vim para dar-te notícias, e eis que minha voz reboa com tlll• dimensões desconhecidas que me parece um pássaro de espanto, Murmuro tua elegia, nesta aba de deserto; mas o eco total do mundo me estremece. Pende teu ouvido para que eu nêle me infunda e te di11111 "Intercede para que renasçam as memórias abolidas dos ilino• rários de ascensão". Não há maior castigo do que a dúvida de possuir-se unt coração mortal em holocausto à sanha dos irmãos. Nem pena m.tis funda que esta de nos sentirmos mais tnt• \'Osos que as raízes. Pende mais o ouviJo: "Estamos confundindo o mêdo c11111 a humildade ou mesmo com o frio dêste inverno perene". Quero chamar-te por teu nome terrestre, e o esqueci. As poderosas nações trituram o hálito entre os dentes. Vozes vindas de rasgados confins começaram a imprec11r desde ontem . Quero chamar-te por teu nome terrestre. e o esqueci.

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