Invenção de Orfeu - Canto III: Poemas Relativos - bloco 01 (p. 707-714) Obra Completa, Volume I · Capítulo 53 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto III: Poemas Relativos - bloco 01 (p. 707-714)

CANTO III

I

C.ÚDA a noite o mar se esvai, aquêle monte desaba e cai silentemente. Bronzes diluídos já não são vozes, i' sêres na estrada nem são fantasmas, aves nos ramos

inexistentes; tranças noturnas mais que impalpáveis, gatos nem gatos, nem os pés do ar, nem os silêncios.

O sono está. E um homem dorme.

Queres ler o que tão só se entrelê e o resto em ti está?

708 JORGE DE LIMA. I OBRA. COMPLETA. I VOLUMN I

Flor no ar sem umbela nem tua lapela; flor que sem n6s há. Subitamente olhas: nem lês nem desfolhas; fôlha, flor, tiveste-as. E nem as tocaste: fôlha e flor, Tu .- baste, elas reais, mas réstias~

w Qualquer voz alou-se muito desejada. Branco fôsse o espaço e ela ardente côr. · Quis o espaço a voz, a voz veio e ampliou-o. Mas se nio houvesse propriamente voz ... Vamos n6s supô-los: dois sem seus sentidos. Desejemos mesmo dois incompreensíveis. Bom nos ecoarmos na voz recebida. E o espaço esvaziado povoá-lo de vez. Amá-los tio sem amada presença, s6 com o coração 11em correspondêncü-. s6 com a vocação do verso feliz.

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IV Numas noites chegamos à janela, e as mandíbulas do ar tanto nos roem, que os leitos rotos logo deliqüescem com os nossos corpos complacentemente. Certos dias olhamos o sol claro; e a bôca hiante das côres nos devora carnes e sangues, poeiras de costelas, que ficamos inúteis, sem matéria. Essas bôcas nos sugam noite e dia, vigiando dia e noite nossas vidas um minuto no espaço, menos que ai de chumbo soluçado nos silêncios, ou cal de fome longa, revelada, na noite igual ao dia, de tão gêmeos.

v Agora o sem senso sorriso nos ares, minha alma perdida, os vales lá embaixo de lriinhas lonjuras de não existido, parado nos antes, nem sei de pecados, nem sei de mim mesmo, eu mesmo não sou nem nada me vê; ausentes palavras não soam no vácuo dos antes das coisas, das coisas sem nexo, nem fluidos. Só o Verbo chorando por mim.

VI Agora, escutai-me que eu falo de mim; ouvi que sou eu, sou eu, eu em mim; tocai êsses cravos já feitos pra mim, suores de sangue, pressuados sem poros verônica herdada sem face do ser. Embora; escutai-me, que eu falo com a voz inata que diz que a voz não é essa que fala por mim, talvez minha fala saída de ti.

vn Alegria achareis neste meu poema como poema ilícito, como um corpo casual ou vão, como a memória dura e acídula, como um homem se conhece respirando, ou como quando se entristece sem causa ou se doendo, ou se lavando sempre ou comparando-se às dimensões das coisas relativas; ou como sente os membros de seu ser, transmitidos e opacos, e os avós responsabilizando-se presentes. São alegrias rápidas. Lugares, reencontrados países, becos, passos sob as chuvas que não vos molharão.

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VIII Se falta alguém nesses versos pelo vento interminável, pelas arenas de estátuas, sucedam-lhe os cegos olhos sacudidos pelos mêdos, mãos de chuvas lhe inteiricem o corpo com algas remissas e com matérias tranqüilas tão soturnas como os poços, exasperados invernos, ombros de escôva comida. as asas sêcas caídas, · ante seus netos calados; e mcorporem-se a êsse alvitre êsse sabor de cortiça, essas esponjas morridas, essas marés estanhadas, essas escunas de espáduas estritamente fechadas como casas de abandono, registrem-se os conciliábulos, certos' sigilos de pez, certas· coisas enlutadas, refúgios, dramas ocultos, pois as rosas são de trapos e os fios menos que teias, menos que finbs agora, e as camisas sem os pêlos enterrados nas ilhargas, vestem enganos e punhos e crimes em vez de adegas, mas tudo em vão, mesmo as plumas, mesmo os ausentes e as vozes aderidas a fragmentos af moram degredadas, listrando as grades, de faces que não conhecem espelhos.

IX Numa hora perdida cantos doeram. Os desejos E flôres despenteadas, flôres largas e a barbdrle do.s corpo.s. e inconfidentes quase abominadas E a relatividadl por oculta paixão, se intumesceram. do espírito sob o circo da matbia. Lírios eram pilares de cristal subindo para as aves; então dardos desceram sôbre os mais amados colos cantando amor com seus consentimentos. Canção melhor. Mais puros olhos. Eu sei de cor os rebanhos, e olho o mundo. Tudo contém pequenas doces máscaras. Mas da selva selvagem desce o pranto dos que mastigam suas próprias fomes, sem saliva de pão, e o gôsto ausente.

Ninguém consegue assim amar os lírios. E êsse amor é amaríssimo e adstringente com a memória das dores engolidas.

X

VÓS não VIVeiS SOZinhos. os outros vos invadem. felizes convivências. agregações incômodas, enfim ambientalismos, e tudo subsistências ·e mais comunidades; e tantas ventanias, acotovellunentos, desgastes de antemão, acréscimos: -depois,· . · depois substituições, a massa vos tragando, as coisas vos bisando;

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os hábitos, os vícios, as môças embutidas mudando vossas cartas; sereis administrados no sono e nos pecados, vós mapas e diagramas com várias delinqü!ncias, e insanidades várias, dosando o vosso espaço, pesando o vosso pão de tempos racionados; e não tereis vivido e não tereis amado, porém sereis morrido.

XI

at-eis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime? Clodoveu ou Clodovigo? &-eis vós por acaso êles? &-eis v6s aquêles nomes, êstes, e os demais já mortos, os mortos tão renovados nós mesmos sempre chamados Lutero, Lotário, otário, sim otário tão singelo, tão puro de todo o mal, relativo, universal. Sreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime? Dizei-me se acaso vós éreis êles ou voz sou de algum avô tão otário, tão eu mesmo como voz, como poema de outros vários.

XII O simples ar de uma s6 corda em curta raia,

mão de menino, punhado escasso, ar perfumado, sem o alvorôço dos vendavais; anjo acolhido em róseo céu abrigo instante, pranto lavado, chorar em ti de arrependido, subir teus vales, amar teu pólen, nunca escapar-me de tuas pétalas, cair com elas.

xm Uma janela aberta e um simples rosto hirto, e que provàvelmente nela se debruçou; e nesse gesto puro do rosto na janela estava todo o poema que ninguém escutou; s6 a janela aberta e o espaço dentro dela que o tempo atravessou.

XIV

O conto era um dia, um dia futuro, e dentro do dia incluído o conforme, e dentro o que foi porque fôra isso se tal não se dera, se o mundo parasse e o espaço se excluísse;

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