Invenção de Orfeu - Canto V: Poemas da Vicissitude - bloco 02 (p. 765-772)
INVENÇÃO DE ORFEU i CANTO V 765
correm cruciados como o imenso grito, imenso grito mudo de quem morre, os olhos renegados de quem está esperando, esperando. Que esperando? Entre a estepe e a noite olham olhos, rente às trevas opressoras, olhos que a estepe e a noite juntas se estreitando apagam misericordiosamente.
IX
Os soluços da noite procuraram a garganta das coisas e falaram. Eram nomes de musas e de sêres que surgiam dos hálitos encarnados. Com as palavras nasciam rumos. sombras. movimentos, impulsos, novos ares. Era noite compacta, era um passado, eram uns confins, uns ômegas e uns infcios. Eram uns tempos grávidas de nomes, era um rumor de apelos e de dádivas. Era um poema nascendo. era um mistério, era um novo pecado se movendo. Era uma noite; e as cobras se enlaçavam destronadas; e um mundo se paria. Os impulsos da noite procuraram desafios, orgulhos, subversões.
I YO LU MI I ,.,.,4 cOMPLETA ,trás daquilo,
houve um tropos,
sangue e o lento ~~exível
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INVENÇÃO DE ORFEU 1 CANTO V 767 de corvos no livor do astro sombrio anelado girando êsse bailado em que enforcados em seus fios giram. giram acompanhando o anel impuro. Ai, céus! Saturno é o astro eqüidistante entre as luas e os poetas, entre os loucos, entre os defuntos, entre limbo e inferno. Não vades, Floreai, nem vós Malua, e não vades térrea Inês, térrea Violante, falireis vossos olhos sem abrirdes as janelas aos ventos desabridos, aos verdes ventos que as virgens seviciam. Ai, céus! onde é que está alguém chorando que se escutam seus lumes tão prendidos, sem cabelos amados, mas um raio enlouquecidos apenas circundando-os? Grassou Saturno. Não rejais, ó músicos, mesmo se moerdes vossos trigos lácteos; o anel dêste verdastro envolve tétrico o mundo desacorde, de águas fundas.
XI Assentado à direita de seu mundo, olhava a perspectiva dispersada, o contôrno das coisas sem consôlo, as côres despregadas, a luz morta. O abismo neín confuso nem profundo, mas um pfâno no âmago do nada: coisas paradas chatas como um rôlo que passasse de um caos para outro caos. Decerto alguém roía as cordilheiras pela base de leste onde há as asianas auroras, com uma broca subterrânea.
Porque a pele das sombras derradeiras confundia-se com a pele das humanas existências, em cópula instantânea.
XII Tendo essa ilha calado em furor santo, perguntei à canção: que é que conténs em teu sôpro, em teus olhos, em teu sonho, que é meu doce e constante pensamento? Que sombra singular, que seio amigo em tuas noites e em teus dias clamam por meu mistério, pelo barro antigo dessa vida amassada em tuas mãos?
Que céu existe em ti e em teu regaço para sossegar sêdes que não há, fomes que não sossegam de comer de bôcas que não cansam de falar?
Que sal existe em ti para que eu salgue essa torrente insôssa em teu oceano, essa vela sem fôrça em teu mar-alto, essas lágrimas chilras em teu pranto?
Tendo essa ilha calado em furor santo, . perguntei à canção se ela existia naquelas horas de tribulação, nas perguntas caladas que eu fazia.
XIII Quedo-me pois demarcado amando desobediência, queria ser replantado em êrmo de experiência. Tudo já estabelecido resta guardar tôda sanha e ser o que tenho sido clandestinidade estranha. Para-quedado confirmo o rigorismo das lendas, transmito-as manso ao meu irmo livros exatos e agendas.
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Há pois mistérios e trigos arabescos e ameaças, há os olvidados perigos. faças um livro ou não faças. Há sacrifícios enormes em culpas não tão culpadas; a cabeça com que dormes pende pra frente e pra os lados; corredores sem paredes existem como ventosas, os olhos com que ora vêdes têm a retina lutuosa.
Há decerto essa ventosa extermínia sanguessuga, carnifágia malvarosa que te adormece e te suga o corpo dentro do esquife, o esquife dentro do luto; e o cura que te borrife o teu beijo já corruto, antes da cal no caixão, antes do osso enluvado, antes da vela na mão, antes do corpo lavado.
Há por dentro um redemoinho, - vero jôgo interior alimentado cadinho, velas, mar-morto, motor; dentro dus pernas - femúrios como trombetas sem som, oceanos sem murmúrios e cinzas do mesmo tom e ratos sem dentadura, castelos sem seus fantasmas, assassinos sem clausura e algumas úmidas asmas.
Eis o primeiro concêrto chamado de fagoetor. Dando-se à clave um apêrto a gama sobe de côr.
Mama o maestro de bibe o som ôco e a tecla muda. A cantora que se exibe retém a lágrima aguda; se cerra os cílios cansados, noutros céus cílios se cerram, demônios são suicidados, outros demônios se enterram.
O derradeiro concêrto demos hoje pra Grande-Ursa com muita verdade e acêrto; alguns vigários de murça, virgens prudentes untuosas, dois manequins circunspectos, três cocotes rigorosas, quatro unifonnes completos. Sorriu-se o Messias doce, os ventos se cavalgaram, Luciferino estourou-se, as tumbas se escancararam.
XIV Enredada à pedra esguia gira insone essa voluta. Impassível vela fria dentro da espira que luta. Luta e gira sonha e vola a haste volúvel na pele; tece a rêde em que se enrola a vela que a morte gele. Vol(avel voluta enlinha mas também adeja leve, talvez tua, talvez minha a vida que ela descreve.
Mas é cal extinta e gêsso e cinza em que te pereces.
INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO V 771
Pereces e eu me pareço com o morto com que pareces. Volúpia nova volteante à flor de peles c de almas, libélula ou êsse instante arrepio de águas calmas. Voluta dêsse voltário em que a vida se comuta, caracol desnecessário sôbre rota dissoluta. Em que vôo enfim se mula essa volúvel voluta, baraço que me executa? Por acaso alguém me escuta'!
XV
Dá-se precisamente um fato, em qualquer zona, c é o da exaustão que vem para inspecionar o ar, com sua catadura egressa dos espaços, rasgada e rarefeita arrastando o que encontra para o vazio do mundo; e aí é menos que o espaço, pois engendra uma espécie de tempo infinito e incoerente engulindo figuras, só figuras; e s6; tão-somente figuras sorvidas pelo tacto, e eu vos explico, um tacto que não é o da epiderme, e no entanto devora tl jeito da epiderme, e que não é dos lábios, mas chupa o sôpro já dissolvido na morte, afogando-se em si e dilatando-se em si, apenas pra sorver, digamos, um suspiro. um grito tresnoitado, uma sensaboria, graus de febre, canções de hospícios, gestos, miados, o cansaço dos pés que ainda vão andar, a luz pesada, a luz posterior, tateante como vôo de morcego, asas sanguessugando-se, em sangues irreais, enfim as próprias glotes dos vãos vazios sorvendo as tremuras que vêm voluteando, pois falo em tremuras, e digo
que há trernuras em mim como em tôdas as vozes, mesmo nas pedras, mesmo em coisas impassíveis, além das pedras. e é o pavor, autopavor, gerado antes do fogo. o fogo que é pavor, verdadeiro pavor antes c depois; teme-o o sorvedouro dito, é de crer, se o ranger de dentes registrado há pouco não sumiu seu orgulho através do não do sumidouro cujos espectros são fecundos no sôpro do ar, e que arrasta a forma e o ar dos sêres vazios (tão-sõmeme a figura), ao vazio insaciável. minerais sem pêso, o ôlho argênteo e as sossegadas escórias de marfins, todavia a inclemência prossegue reabsorvendo os sons insustentáveis, esvaídos do que se chamará espaço ôco, algaravia plúmbea e inaudível dos peixes, e algas, e no entremeio, insossos gessos, tábuas, hálitos dos embriões inquietos, mas inviáveis, continuamente um luto, um fel, um fole gasto, saldos de hospedaria, arenques, polvos secos espiando a chuva, atrás de vitrinas quebradas; a fala dêsse mundo é um chumbo apodrecido que a exaustão saboreia em seu gôlfo esgotado. Isso tudo é a exaustão, não vos direi, saciada, pois de repente se abre ainda um outro vácuo para engulir o vácuo anterior, entubado no ventre consumido e enorme; e então vereis através do sem-fim, o nojo contrair-se, prenhe do que devorou, só figuras sorvid~, só figuras; e só; sugadas pelo tacto que se contrai em si, em tenesmos de reto, engulhando-se de alto a baixo, indefinido, mas cólica, mas vulva enraivecida e fúria, um espasmo parindo e outro que vem do caos, e outro que vem de um trismo ao centro da exaustão, agora quer desforçar, porque quer devolver de seu bôjo em silêncio, o formato das coisas e dos sêres, assim como uns três Leviatãs.
XVI Se essa fábula continua matem antes seu cavalo,