A Túnica Inconsútil - bloco 06 (p. 465-472)
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E TUDO f:: IMPREVISTO
I' I'ORQUE AQUI tudo é imJ!Irevisto. hnanuel foi gerado em uma virgem e nasceu uelft. ,. as cabeças decepadas falarão. ,. redemoinhos tenebrosos surgirão sob a luz do levante, ,. nenhuma estação, nem nenhum clima, nem nenhuma pessoa. lll'rn nenhum rei, nem nenhuma pedra tem certeza de nada; pois tudo é viajante e tudo é sombra sôbre a planície deserta. I 'nisas imensas e incompreensíveis foram criadas ··rn redor de cada J ó, ,. o Senhor atormenta igualmente a seus poetas como a seus [ negadores; ".' a linguagem dos mortos é sábia ,. só a linguagem da contradição, 1111 decorrer dos anos tem sentido e é poesia; .,,; os simples, os pobres simples. os operários simples, "' reis simples têm calma. I h profetas, os poetas, os sábios e os grandes ministros "·rão agitados. experimentados e crucificados inexplicàvelmente 1111 instante da vida. :\luitos morrerão como o infeliz Acab, Putros tirarão a existência. sob os olhos de Deus, ,. todos serão arrebatados pela grande Mão. I )epois tudo passará. ludo será esquecido, c o areal cobrirá os os.o;os. I: outras sombras continuarão a andar no deserto. r11isteriosas, atormentadas, ignorantes. esbofeteadas pelos anjos [opostos, ,·,Induzidas para a fatalidade cega da Morte, para os desígnios incompreensíveis de Deus. I· o desespêro do poeta contaminará ns criaturas porque êle é o vidente de Deus. I: a sua exaltação exaltará os que baquearam porque êle é a mola de Deus. I·: na longa travessia êle divertirá os tristes e os perturbados pnrquc êle é o palhaço de Deus; ,. um di
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porque êle é o seu alimento amargo e seu doce Depois os arados de Deus revolverão o areal; e jardins transitórios enfeitarão a Vida sôbre os Mas para encontrares o poeta, buscarás os caracteres releito. c o encontrarás, quando vires um homem exaltado c um homem amado e desprezado ao mesmo tempo. um homem escarnecido e louvado, em contínuo um homem que não acampou em parte alguma lhe r Deus dado tudo.
E A NAU NAVEGOU. NAVEGOU
E ACONTECEU naquela noite em que o poeta dormiu só, ~em o calor da companheira para lhe encher os sonhos. sem o rumor da cidade poluída, lá embaixo, sem a fala do amigo que o acordasse às pressas: ter um estranho sonho que lhe foi permitido contar: c foi que havia inventado um navio para atravessar o E Deus tendo visto que na terra ainda havia um homem capaz de inventar uma nau. deu-lhe o dom de navegar e de descobrir o mundo e o poder de amansar e circunscrever o vento: c sob o braço estendido do Senhor o poeta conseguiu impor a lei às águas e suspender a âncora e alçar as velas. F lhe foi ordenado não levar sêres vivos sendo um casal de cada espécie ou cada raça. ou em qualquer outra diferenciação porque os homens divididos já não são irmãos ! E o navio não possuía escravos nem no leme, nem nos remos, nem no hôjo sombrio. c só os homens da bússola orientavam a nau: o sôpro que a impelia era o Vento de Deus com que o homem fizera tôdas as descobertas. pois ~Je tinha visto que ainda existia um homem capaz de navegar e descobrir o mundo !
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O VENTRILOQUO
111' li RUÇA-TE sôbre tua voz para escutá-la: 111a voz existiu antes de tua forma. ~~· o alarido do mundo não te permite entendê-la. vui para o deserto, 1• 1'ntão a ouvirás com a inflexão inicial das palavras do Verbo ,. com a fecundidade do Gênese ante o Fitll do Pai. I luvc a tua voz sôbre a montanha para que o divino eco ulravesse os milênios t' reboe dentro de ti que és o templo de Deus ! Na tua voz adulta ainda existe o acalanto de tua ama ,. o balanço de teu berço. J\111da há apelos que vêm da alcova de teus pais. 11111da há os convites do instinto de tua juventude. I khruça-te sôbre tua voz e escuta as vozes que vêm nela. '" ressonâncias de ti próprio que nasceram contigo, "' bramidos dos ventos nas tuas velas rôtas. ,, risada do diabo diante de teus desastres. lluvc a tua voz sôbre o dorso do mar onde ela flutuou no comêço das coisas t' a ágl!:\ a concebeu c se tornou fecunda. I luvc a tua voz entre as massas humanas 1111c como o mar se tornarão fecundas 1' espalharão a palavra do Livro p1·la~ águas e pelos continentes.
AS J>Al.AVRAS RFSSUSCITARAO
1\-. I'ALAVRAS envelheceram dentro dos hmnens '~'Jlaradas em ilhas, '" palavras se mumificaram na bôca dos legisladores: '" palavras apodreceram nas promessas dos tiranos; '" palavras nada significam nos discursos dos homens públicos.
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F: o Verbo Je Deus é uno mesmo com a profanação l homens de Babel, mc~mo com a profanação dos homens de hoje. E. por acaso. a palavra imortal há de adoecer ? E. por caso, as grandes palavras semitas podem E, por acaso. o poeta não foi designado para viviiicur [ lavra de novo ? Para colhê-la de cima das águas e oferecê-la outra vez [homens do continente ? E, não foi êle apontado para re!ltituir-lhe a sua essência, e reconstituir seu conteúdo mágico '! Acaso o poeta não prevê a comunhão das línguas, quando o homem reconquistar os atributos perdidos com a e quando se desfizerem as nações instaladas ao depois de Quando tôda a confusão fôr Jesfeita, o poeta não falará, do ponto em que se encontrar, u todos os homens da term, numa só língua - a [ do Espírito '! Se por acaso viveis mergulhados no momento e no limite, não me compreendereis, irmão!
AS PALAVRAS DE DESPEDIDA
E OUVIRÁS em cada século que passa um ruído que se perde no tempo; e o último cometa que apenas passou ontem; e os oceanos renovarem suas águas muitas vêzes. Verás várias constelações te enviarem seus raios e se [ rem depois . Confrontarás tua infância com as dos filhos do Sol. Reconhecerás as estrêlas que te jogaram pedras quando eras um simples homem nos caminhos da vida. Recensearás como Abraão os astros que puderes contar. Contemplarás a morte prematura das luas e a vida misteriosa das estrêlas. Reconstituirás o jôgo da criação e o trono da primeira mulher• ., Avistarás centenas de milhões de eclipses se produzirem simul· [ tâneamente.
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,·,·ntenas de milhões de labaredas em espiral subirem até o I trono do Mestre. I' h' lembrarás que eras um pobre esquimó entre o gêlo da terra I' 11 liltima noite que te libertou do mundo.
A AVE PARA J. fP.RN.\NOO CARNEutO
NINnuf:M SABIA donde viera a estranha ave. lulvcz o último ciclone a arrebatasse •h• incógnita ilha ou de algum gôlfo, 1111 nascesse das algas gigantescas do mar; 1111 caísse de uma outra atmosfera, 1111 de outro mundo ou de outro mistério. Vt·lhos homens do mar nunca a haviam visto nos gelos 111'111 nenhum andarilho a encontrara jamais: 1•1 il antropomorfa como um anjo e silenciosa •·omo qualquer poeta. l'1imeiro pairou na grande cúpola do templo rna~ o pontífice tangeu-a de lá como se tange um demônio [doente. I' na mesma noite pousou no cimo do farol; 1• o faroleiro tangeu-a: ela podia atrapalhar as naus. Ninguém lhe ofereceu um pedaço de pão. 1•11 um gesto suave onde se dependurasse. 1: alguém disse: "essa ave é uma ave mé das que devoram (o gado". 11 outro: "essa ave deve ser um demônio faminto". 11 quando as suas asas pairavam espalmadas dando sombra ( às crianças cansadas, ut{· as mães jogavam pedras na misteriosa ave perseguida e [inquieta. talvez houvesse fugido de qualquer pico silencioso entre as [nuvens 1111 perdesse a companheira abatida de seta. t\ ave era antropomorfa como um anjo ,. ~olitária como qualquer poeta.
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E parecia querer o convívio dos homens q!Je a enxotavam como se enxota um demônio doente. Quando a enchente periódica afogou os trigais. alguém - "A ave trouxe a enchente''. Quando a sêca anual assolou os rehanhos. alguém disse: - "A ave comeu os cordeiros." E tôtl
SABEDORIA
SE Mb PERGUNTARES que é que desejo. eu Te responderei - Sabedoria, para que não seja um homem sêco e de uma só v1sao, e possa conservar a poesia ao meu lado sem a ciência a e, se me perguntares que é que desejo por acréscimo, digo-Te que desejo sabedoria porque com Tua sabedoria tudo me virá, depois ! E a tudo poderei responder, e meus membros se e eu serei numeroso, depois ! Se me deres sabedoria defenderei Teu Templo e enxergarei a Verdade dentro da confusão. E poderei ter respostas à que vier de Sabá. c farei desta Musa uma das Tuas musas entre as musas que Te glorificarão ! Dá-me sabedoria para que a poesia tenha a Tua marca, Senhor!,
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A MESA DO POETA, OS CONVIDADOS F O AUMENTO
Nõs EHARI:MOS na mesa ~eparado~ um do outro. mas do lado 4uc o Mc~tre 'c sentar na Ceia. E quando e.Je me der o fruto ofertarei à Musa que o repartirá com todos os convivas. E a primeira mulher será assim rclembrada " o fruto vedado será assim devolvido. A mesa não servirá para separar os hóspedes mas para juntarem as mãos ou penderem a cabeça no peito do Mestre amado. A lenha que a árvore deu para fazer-se a mesa será assim redimida pelas mãos do Senhor: ~ após o banquete renascerá no solo. E a árvore será sempre a mesa com seu eterno fruto para os degredados.
CRISTO-PEIXE
l.1 vos DAREI o Peixe. ó famintos de tôdas as idades, " desvalidos de todos os países. ,, miseráveis de tôdas as côres c de tôdas as raças! 1· dividirei êssc único Peixe que nasceu antes da primeira água ,. que continuará depois da última fonte. •·nt rc vós todos que tendes fome ou que estais fartos. I: todos ficarão mais que saciados diante do mar postcril)r ao I Peixe. I' depois convidarei as aves dos céus para comer as migalhas. p11rquc o Peixe é o alimento do mundo. I depois convidarei os próprios peixes dos mares para tragarem o pássaro farto que não puder
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voar sôbre a onda, porque no vôo do pássaro ia uma par. I tícula do Peixe. E depois convidarei as águas dos mares, dos rios, das fontes humildes para serem animadas outra [ nas origens pelas partículas infinitesimais c infinitas do primeiro que alimentou as águas donde proveio a Vida.
OS MUTILADOS
Os MUTILADOS são muitos, são muitos os que perderam os membros, os que perderam os olhos, os que deixaram a pele inteira nas mãos dos inimigos de Cristo. São inúmeros os que decapitados, sem pés, sem mãos, viram, caminharam, apontaram o caminho e partiram para Deus. São os mutilados que não mataram os irmãos nem vieram de guerrear, e renasceram inteiros na Luz, pela paz do mundo. A Reconstituição já entregou a cada um a mão decepada, o pé destruído pela tocha, e a visão já renasceu. Os mutilados são muitos, são inúmeros os que decapitados, sem pés, sem mãos, viram. caminharam, e apontaram o Caminho.