Invenção de Orfeu - Canto X: Missão e Promissão - bloco 03 (p. 891-898) Obra Completa, Volume I · Capítulo 79 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto X: Missão e Promissão - bloco 03 (p. 891-898)

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO X 891

Os loucos habitantes são imóveis com seus cêstos de vértebras insôssas, e há galopes atrás de irreais éguas e relinchos sem ímpetos de nada.

Como quiseste 6 grávida ternura abortar nessas pedras teu menino? E nem digas ó vale, que hospedaste êsses bois de chavelhos musicais.

Houve aqui a memória assinalada sem as aspas e as lanças evasivas, quando a chamastes, dores desterradas, ela permanecia encruzilhada. Agora é a coisa só, repercutida debaixo dos pequenos fósseis úmidos sob a carga do tempo solitário e do espaço minúsculo das furnas . A miséria é a coisa só, repercutida o pêso do céu baixo, mas de chumbo. Na arena sôbre a tumba desprezada havia anjos lutando noite e dia. A dignidade do antro adormeceu-me, penetrei no outro mundo do meu sono. Que tempo foi mais vida? Aquela vida ou os tempos gerados sem ponteiros? Os espaços sem chave, a fronte aberta? Que sombra menos sombra que essas pálpebras'! Que terra mais natal que esta? Nenhuma. Que poesia mais fome a dessa lâmpada que parece apagada à luz do dia? Quero chorar, 6 madre silenciosa o meu chôro de peixe no teu ventre . Teu escudo de pêlos me defende, pressinto tuas mãos me adivinhando. Que naufrágio foi êsse em que acordei tombado de que eterna escravidão? Livre Senhor! Eu livre! Lume sou. Sou uma lenha queimando com teus lumes. :&se sulco de verbos é meu rastro. Eu sou tua ficção, tua criatura .

Debruço-me nas trevas, recomeço os cavalos de fogo e as aventuras, as sestas na montanha e a doce Inês, o louvor de Lenora e o mundo alado que nascem de mim mesmo, de meus fachos, do meu peito solar, de minha argila, das coisas que eu imanto de loucura, êsse urânio, essa musa, êsse silêncio, êsse herói, êsse signo, êsse restelo. Chamo as coisas com os versos que eu quiser, os mistérios, os mêdos, os três reinos, e êsse reino que eu vim reiniciar. Separei o que era sono, do irreal. Olha-me grande musa. Eu te convoco com teu nome real que os lábios nunca poderão encerrar em sua névoa. Entre os íons sou eu que passo implume, que me adianto e me atraso entredormido, dependendo de ti, palavra curta, circundado por ti, muro de pó. ~sse caos mineral não me conhece, êsse hábil de lunetas não me vê. Contemplo o meu retrato. Serei eu com essa capa de orelhas e de faces, tão água de matéria? Que matéria que os olhos imortais não podem ver? Com êsse metro de cantos remedi-me. Palpo-me com o meu poema. Chamo as mãos, chamo os pés, chamo a mim mesmo; (Senhor!) com êsses versos retomo os meus sentidos. Na aparência das coisas, que tristeza! Nesse pão, nesses garfos, nessa escôva, na aparência dos sêres que tristeza, nesse João, nesse Carlos, nesse coelho! Essas coisas - formosas - não me gozam, êsse nascer contínuo não me pára. Se me vires nos signos mais futuros, compreendereis: sou eu que vou nascendo. Encerrei êsse mundo, construo outro sem precisar de ti, átomo grande.

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Eu depois de amanhã ressuicidei o cilindro que envolve o som que eu vibro, apaguei as papilas de meus dedos. O névoa dolorosa pelas ruas: êsses óculos escuros, êsse queixo, êsse meu guarda-chuva, êsse caderno, essa algália, êsse mijo tão minguado. (A criança que eu fui também é cúmplice do recuo e do vácuo entorpescentes.) Que amor de fé tritura róis e somas? Que sete côres há nessa retina? Que pontualmente sombra se projeta? Que fachada monótona anteponho? Que postura de musas minutadas? Que mudança de números foi essa? Ahl a vida sempre vai pastosa. Apenas, sós, nós morremos para que nos vejam a nós os clandestinos fecundantes, a nós julgados sempre pelo fogo, a nós julgados pelo fim dos dias, a nós julgados pelo derredor, a nós nunca sozinhos e desnudos, jamais imaginados por nós mesmos, vistos, não compreendidos, 6 meu Deus!

Olá trementes nervos açoitados, grande bôca velada de bigodes e de raios; e vós olhos pingados de pouco orvalho sujo dos telhados, horizontes, olá, sempre traídos, olá, brancas insônias, olá, mortes!

Pergunto àquela dama se eu me chamo e se não morro nunca em qualquer hora. Várias coisas insistem: eis a pedra com seu eco de forma tão pungida. Mas entre as coisas flui o meu segrêdo como soa sem eco Maldoror, 6 palavra tão mal e tão horror!

Escrevo para me encontrar no tempo, no quarto que entra pela treva adentro,

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na alga que lembra a nuvem esgarçada, nas pernas que caminham sem sinal, nas mãos em fileira longa e horizontal. Somente o olhar ondula antes de mim, corpo como matéria de prenúncios com seus antepassados descendentes, tocando-se de proa quais xifópagos . Mas provisoriamente sou terreal, limitado por poços de óleo escuro, cobiçado por corvos imperiais, socorrido em mim mesmo, racional; hoje nascido em muitos mortos de ontem e assim porque a lembrança inda lateja para o meu fabuloso pensamento, julgando cada qual de meus sentidos vindos do ar como castos cemitérios . Convivemos o mundo, sonambúlicos, sem conseguir convencionar os passos . Complementamos vidas já dormidas ou que virão de noite ou noutras noites; passamos refratados em dilúvios, sépia nos olhos, sépia em derredor; semáforos vestidos entendemo-nos sem profundos sinais clarividentes. ó sempre anunciação, 6 parto sempre! ó amigos do mundo sem querer! ó comparsas de febres e de lutos! Posteridades e posteridades!

Foi ontem me nasceram; vivo em tele- fonadas a cifrarem-se em meus fios! Vizeiras e mordaças, tento olhar-me: Não sei para onde foi a minha forma, nem meu rude carinho sempre plástico. O ouvido encouraçado chupa a música, alegram-se-me vísceras sem data . Que esperais vós, hostilidades vossas, urrando contra as pedras preambulares? Sois um átrio de nuncas repetidos, um sudário de veias emprestadas . Todavia me espantas, rosto inato,

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meu rosto ou o dêsse avô preconformado, nessa rua constante, mas deserta.

Todavia respiro essa roseira tutelar. Rego-a. O que enxertos, 6 que tintas mais que róseas. Quando quero ela não quer. Retrai-se em si. Padeço. Repouso em seus espinhos: sinto as mãos, registro essas traições, complico as hastes corroídas pelo espaço, amadas pelo renitente horizonte dos meus olhos. A rosa ardente colhe-me em seus raios: é uma engrenagem lúcida em destino, e é roda sempre roda, rosa rubra. Circulo nesse ardor circunvolvido, testa e pés, serpe unida, céu redondo, girassol ou trilema, cruz obscura. Cresço em braços. Alongo-me. Teu rosto. Teus cansaços c mãos e sobrancelhas, és formosa em clarins, amada Rosa, soçobrada em licor, terei bebido? Terei vinhos, terei medidos passos, terei copos? Terei? Sonos em ruas? Dormirias comigo, rosa rubra? Cobririas meu rosto, em teus libidos? Soprarias teus reais em meu candeeiro?

XVII Eis outro ser: (0 sôpro das cavernas alava lentas crepes e sudários por entre harpias e harpas friorentas.)

No entanto seu monólogo: êste sino badalando nos ares, badalando na febre entre delírios e vertigens .

Seu leito em suma: leito o vento frio, leito a ansiedade, leito paludoso, vagando em barco doido, todavia!

S96 JORGE DE U1HA , OHR.-J (.'0.\IPl.ET..l I 1'0/I'A/1 I

As janelas bateram: e avõzinhas com seus xales como asas, seus cuidados, mas tão longe de mim e eu tão sozinho. Eu o hei sentido assim, galgando o monte empapado do céu (solo remido) , em salmoura divina como o oceano.

E seus climas: há um homem que vacila com desolados mantos sôbre os ombros, com abolidas memórias de paraísos.

E a nostalgia sempre sôbre as faces, e o pássaro fatídico nas coisas, e êsse arúspice, e a súplica dos olhos. E as gravuras da bíblia, a piedosa vinheta, as altas madressilvas. Cristo! O radiantes demônios, suicidai-vos. Somos todos ainda: apenas os passos do vento são cada vez mais vagarosos. E as barbas crescem brancas. O fôrças que eu não sei, ó fôrças várias, que sonâmbulas asas nos carregam ao têrmo das distâncias fugidias?

O longínquo país tão paralelo Se,.,w,te com seus rostos de sombras anelantes, porém a serpc, sempre a serpe antiga.

A estatura da vida nivelada em dor e suor, em sangue e guerra imunda. em olvidos de céu antes e após . E só pressentimentos, só as horas, a curta claridade entre os abismos que nos assustam onde quer que vamos.

Hoje já fomos como antigos órfãos nascidos e morridos ignorando, ignorando as origens e os destinos .

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Fala o ser duplo: elemental pastor, figura e desnudez, raiva sagrada, mas seu genial tamanho era uma aurora.

Fala o ser duplo: a obscura magnitude O ser dupfo dentro do além das soledades e vigílias, poeta e noite tão solar mais que insondável.

Era o herói e era a noite um só instinto, afluentes sem ter términos e fugas maravilhosos, transparentemente. Os seus ofícios sempre incorruptíveis rumos virgens capazes de guiar os absolutos hojes dêsses séculos. São luzeiros de sombras, equilíbrios, como os lustres dos cactos solitários e permanentes como os vôos cardiais.

Nos velhos dias, êsse herói bifrontc, acaso nunca teve qualquer nome? Chorava e ria em mim, dizia em mim, chorava-me, brandia-me, sonhava-me. O ser intransitivo me acenava e ouvíamos-nos. Verbos vivos. Verbos.

Coração das quietudes - eis a pedra: falava-nos sereno e compreensivo. Coração das memórias, eis a pedra.

f?.sse ouro na fornalha era um bramido, êsse chumbo, em nevoeiro se tornava, só a pedra escutava com seu ôlho.

Só o vento era pesado com seus ímpetos: Belatrix se mostrava imponderável. ó desmandado vento, fôstes manso! E se viam (convite ameno) o rosto antevisto e reaceso, e o caminho alto em nova luz, pois que se abria puro.

prefigu- Suas mãos perfuradas se aferravam ração do a fundas remissões de várias culpas Cristo contidas nas medulas e nos túneis. Pudor radioso, ao menos em seus rumos, em suas vozes de tristezas, grandes pedestais de antes. Gritos. Gritos quedos. E era paisagem com essas culpas próprias, emboscadas nas zonas medulares, e a quietude dos ares sem tensão.

Era o rincho rasteiro e era a asa cinza, e os ginetes das sombras galopando, acaso entre sigilos obrigados . pref. do Pés e mãos como Aquêle, redimindo. Cristo E tantas punições e tantas culpas . (Vem para o baile agora. soluçando!) :ele era visto em meio das procuras, dos anseios dos homens tormentosos trazidos a essa selva, - selva obscura. Cartuxas o acolheram maternais nos ocasos cobertos de esplendores frios nos cimos, frios das angústias .

A eternidade fluía nesses píncaros . As ouças a escutavam, tocar íamos o seu perpétuo ritmo para Deus . A sua biografia que eu relato é mera condição do pensamento Cristo que as palavras também com Adão caíram . prefigurado

Pelos quatro horizontes, só e alado, em ar e estrêla as serpes esmagando por herança materna - o cravejado.

As palavras aladas o impeliram em seu halo sutil de nome leve, de febril coração manancial.

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