Poemas Dispersos - bloco 01 (p. 943-950) Obra Completa, Volume I · Capítulo 84 de 90
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Poemas Dispersos - bloco 01 (p. 943-950)

I'OEMAS DISPERSOS 947

O candeeiro era a lanterna mágica, que me fazia na parede branca o homem grande que eu queria ser e de que sou uma sombra, apenas sombra.

A ventania às vêzes surpreendia as janelas abertas do meu lar, e então as doces sombras se moviam, trêmulas, trêmulas a bailar.

Quem é lá? perguntavam. - ~ a ventania que lá forte está. E com o vento, como que entravam, e se espalhavam pelos vãos da sala, a mãe-preta, o pai-joão, tôda a senzala, tôdas as sombras que não vivem mais.

Excedente de Poema., Euolhidos. Publi- cado em Fotográfica, (?).

MAMÃE MAQUINA

LIBERTEI-ME do ar. Libertei-me do fogo, Libertei-me da água, Libertei-me da terra. Sou escravo da máquina.

Transformo lôbo em cão doméstico transformo rapôsa em lulu, ' tra.nsformo, venço, faço tudo, tudo, p01s eu mesmo sou lulu, Jôbo e sou rapôsa e sou escravo da máquina ' e sou escravo da máquina.

ando na água, ando na terra. Ando no ar, ando no fogo,

Mas como? Tomando bênção à Mamãe Máquina. Bênção Mamãe Máquina! Composição da fase de PoemtJ.J dos. Publicado em Estado de Minas, Horizonte, 22 novembro 1933.

DENTRO da tarde cinza os olhos do carneirinho são tão santos que parecem os olhos da solidão Os olhos do cameirinho fazem tudo manso em redor. Vai-se a tristeza com a tarde o mundo fica melhor Os poetas estão pensando que os olhos do pobrezinho são rimas. As crianças não pensam que os teus olhos carneirinho são jabuticabas Os teus olhos bóiam na tarde e boiando sôbre o açude abrem grandes círculos conqêntricos para os peixes sentirem a doçura do outro mundo Ai! se a tua família soubesse o teu grande prestígio nessa hora! Publicado em Rio Magtrzille, neiro, julho 1933.

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NATAL

FELIZ de quem, quando o ano termina, possui um doce e acolhedor abrigo: a companheira, o filho, a avó tão rara ou mesmo o amigo com quem possa se reunir em Cristo, e sua vida interior desperte viva de dentro de si uma alma de São Francisco; o amor generoso, o heroísmo estranho de beijar um leproso.

De lembrar-se de que há no mundo criaturas de Deus pelo Natal sem companheira, e sem a avó tão rara e sem um beijo de mãe ou um beijo de filho, e até sem um livro que substitua o amigo.

Feliz de quem,- quando o ano termina, pode ver a estrêla no céu e tem olhos ainda para encontrar Jems. Composição da fase de Poemas Escolhi- dos. Publicado em Diário de Minas, Belo Horizonte, 25 dezembro 1951.

O PAMPA

NEM CHINAS cantando, nem violas gemendo, nem choros nos pagos, nem ranchos, nem fachos, nem fandangos,

nem balaios, nem violões, nem habaneJ as de cordeonas. - O pampeiro e as almas penadas das taperas e as primeiras estrêlas que vieram assistir a noite escura despencar de repente lá do céu sôbre o pampa: pam! pai Composição da fase de Poema~ E.rcolhl· dos. Publicado em O Jornal, Rio de Ja. neiro, {?).

CONTO SOMBRlO

NÃo CHOREIS, coqueirais de minha terra, árvores sós, ventos do deserto, mares noturnos, vendavais longínquos, eu estou atento ao pé de vós, eu vos ouço, eu vos compreendo, eu vos consolo: há de a paz descer sôbre vós todos então sentireis, fôrças brutais, a carícia de minha mão vos acalmar- Pois eu amo em meio à noite vigiar, e escutar a noite e me escutar. Ouço mais do que nunca, vivo mais do que nunca em meio à noite. ú animais de aspecto humano dolorosos animais dos pólos árticos, 6 solidões, desertos, ventanias, 6 paisagens que pareceis estados datma, eu estou atento à vossa queixa clamando cegamente, humildemente por mim, por Deus que somos grandes. Amo a grande misteriosa que há acima do mundo, além dos ares. Amo o luar que envolve os náufragos.

Vivo a poesia que o luar me dá E quando a noite se fôr pelos espaços quando a manhã surgir da terra úmida e os ventos das montanhas se elevarem e a vida atormentar homens e coisas. Noite eu esperarei o ocaso amigo e a vossa imensidão se aproximando. Publicado em O Imparcial, Salvador, lS junho 1936.

NOTURNOS MARES escuros noturnos silenciosos mares, meu navio lá vem com sua vela branca, com seus mastros longos, longos mastros que tocam nas constelações, longos mastros de antenas para colhêr as noites e pescar o silêncio das águas mornas. As estrêlas recém-chegadas lá no alto, se fragmentam na água trêmula. (Melhor sempre a noite sem a tortura de esperar todo o dia os acasos) . Quando o vento está doido a água elástica se estira com um gesto vago de quem se move dormindo. Amiga, me acompanhas a passear pelo cais? Toma um coração para ires desfolhando nas águas. Meus olhos estão curtidos de calmarias De que lado é Vera Cruz? Excedente de Tempo e Eternidade.

POEMA

O mvo dos cães é mais longo na noite longa, e a mulher dobra as esquinas na noite longa. Os últimos bêbados se afastam tontos, deixam passar a mulher longa. A mulher êrma dobra as esquinas. Os bêbados param! O uivo dos cães segue-a nas ruas A mulher êrma, a mulher longa dobra as esquinas. Deve ter o olhar fosforescente. Deve ter as mãos frias demais. Deve ser a musa dos suicidas. Cavam na noite. Quem é que cava? A mulher longa dobra as esquinas . Cavam na noite! Que é que cavam? O uivo dos cães é longo demais. A mulher longa dobra as esquinas. Não a fiteis. poeta irmão. A mulher êrma tem o olhar louco, deve ser a musa dos afogados. A mulher longa vai pela rua A rua é mais longa. O uivo dos cães é longo demais. Bêbados, parai. Manhã, 6 manhã, podeis chegar. Composição de 1936. Publicado em O Povo, Fortaleza, 27 dezembro 1941.

POEMA

SEMENTES já havia havia as de cá o solo dá tudo dá tudo é plantar

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sementes de lá sementes de cá puseram a se amar amando e brigando brigando de novo se amando outra vez pra se misturar o solo é 1'iio rico dá tudo é plantar deu tanto poeta deu tanto pirata deu tudo demais que a gente ficou de papo pro ar comendo farinha com rimas em inha fumando poesia cantando ao luar o solo deu tudo agora não dá não dá nem trabalho pra se trabalhar porém dá canudos de bacharéis porém dá anéis anéis dá demais trabalho não dá pra se trabalhar já deu se acabou se quer mais trabalho trabalho não há agora nós vamos as terras lavrar semente debaixo vai logo brotar meu povo: é plantar! que plante que dá quem é do trabalho trabalhe pra já que a terra vai dar vai dar pra os de cá

vai dar dar de tudo pra cá e pra lá o solo é do pobre o braço também escute meu bem pra que esperar? dá tudo é plantar. Excedente de Tempo e Eternidade. Publlcaó do em O Povo, Fortaleza, 24 outubro 193.4,

NOTURNO

CANSAÇO. E essa necessidade de sumir. E êsse enjôo depois da posse. Nada mais que ler. Nada mais. A carne abafa o espb-ito. A noite é bamba e longa. Vamos reler. Os passos moles do sapato azul pontilham a escuridão. A quantos leitos correrão pra obter o relógio de platina? A carne abafa o espmto e essa noite é longa e bamba. Fox-Jornal levai-me daqui dêsses livros, dêsse aborrecimento, para êsses trechos que a censura cortou porque a multidão tinha saído das minas . Noite longa alongai-me como uma figura de Greco para eu respirar em cima. Noite longa alongai-me. Noite longa levai-me. Excedente de Tempo e Eternidade. Publl• cado em Diário de Notfclal, Rio de Ja- neiro, 9 dezembro 1934.

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