Poemas Dispersos - bloco 05 (p. 975-982) Obra Completa, Volume I · Capítulo 88 de 90
Obra Menu

Poemas Dispersos - bloco 05 (p. 975-982)

I'OEMAS DISPERSOS 979 Sem faróis e sem brilho grito: não me atropeleis que eu sou turba. Escutai: há vários carnavais chorando neste poema e em cada gesto vago que eu faço, fingindo ser rei-do-mundo. Mas para v6s sou infelizmente - palhaço. Publicado em Rio, Rio de Janeiro, feve- reiro 1945.

ACORDAI ACORDAI, Acordai alta noite para ver os cavalos noturnos que vêm ga- lopando não se sabe de onde, e vão quem sabe lá? Vão galo- pando, vão galopando. ~les vêm das guerras, vêm da escra- vidão, vêm de antigos horizontes, vêm da escuridão. Vão numa carga ansiosa, danados, escouceando pela amplidão. E vão, quem sabe lá? Vão galopando. Vão galopando. Cavalos sem cavaleiros, livres de relhos, de esporas, de trombe- tas, de selins, livres de senhores, vão relinchando dentro das ventanias. E vão quem sabe lá? Vão galopando. Cavalos revoltados acordai os homens que dormem, escouceai os homens que dormem, relinchai sôbre os homens que dormem. Cavalos sem cavaleiros, sem trombetas e sem baionetas, ca- valos noturnos que galopais, sem cavaleiros sem estandartes e sem estátuas; que galopais sôbre as fronteiras, entre as estrêlas e as cordilheiras, entre as cordilheiras e as constelações, acor- dai os homens que dormem, acordai os homens que dormem. Publicado em A Mwzha, Rio de Janeiro, 10 junho 1945.

ELEGIA

NA REPÚBLICA da Bachkiria, regtao dos Urais, nos umbrais da [ Ásia, é que te findaste Laura. Agora estás defunta não em país estranho mas nos jardins intemporais gelados onde todos pendemos as frontes fatigadas da vida, onde todos fechamos os olhos para que a última realidade desça diante da sombra veemente da noite.

Estás na clausura da eterna duração, ó poetisa, ó irmã, guia, asa amiga, Laura. Vejo-te no tempo parado das faces cobertas de limo na galeria inexorável dos que morreram pelos que ainda sofrem, nós o sabemos, sim nós o sabemos, agora que estás defunta, não em país estranho mas entre as sombras fraternais amigas, ó irmã!

Vejo-te agora eterna e vitoriosa, ó luz dos desvalidos, dos filhos órfãos dos soldados da paz, dos espelhos duros enlutados sôbre a face das horas; agora és a defunta incorruptível, barco imóvel como a bôca estancada para sempre r num apêlo de paz dentro da gravitação perene da fraternidade circular.

Estás na clausura da eterna duração, nos jardins intemporais que não se olvidam, presente, ubíqua, dentro dos nossos olhos e das nossas mentoa, mesmo dentro das tardes que descem sôbre o solo da pátria [ brasileira tls a paz. Tua pre!>ença imperecível nos convence da salvação

POEMAS DISPERSOS 981

e da possibilidade de explicar o mundo e enfeixá-lo nas mãos coJDo um coração de ave. A morte unificou teus gestos, estreitou entre as suas as tuas mãos operanas, ó poetisa, ó mãe, irmã, guia, asa amiga, Laura.

Vejo-te no tempo parado das faces cobertas de neve, na galeria inexorável dos que sonharam um mundo melhor, irmãos mais fraternos e uma vida mais pura. Todavia ouço teus passos serenos como um tatalar de asas desdobradas nos jardins intemporais da morte; todavia estás presente, ubíqua e vitoriosa; glória a ti.

Glória a ti que retornas à pátria em meu poema, com teus poemas, com a tua coragem, com a tua pureza. Glória a ti com teus sortilégios de poesia, holocausto oferecido na cidade de Ufa, nos umbrais da Ásia

Glória a ti Laura - exilada da pátria, exilada da terra - em resgate da paz dêste mundo sangrento. Poema·elegia para Laura Brandão - ami- ga de infância de J. de L. - por ocasião de sua mone. Publicado em Diário de No- ticias, Rio de Janeiro, 7 setembro 1947.

QUANDO morremos somos tão mudados que os espelhos da abóbada mortuária não nos conseguem deformar coitados; tudo mudou nos traços do homem vário. A luz e o tempo em sua luta diária desfizeram os traços mais vincados; confundireis os membros macerados sem distinguir nem carne nem vestuário.

Os pés já não são mais que estranhos calos os pêlos são formigas, dedos. são vinte carvões em luvas e sapatos. E teu chapéu é um sino revirado, dobrando fundo nesta última volta a vida obscura morta, morta, morta. Excedente do Llvro de Sonetos. Publi· cado em F81ha da Manhã, São Paulo, 27 março 1949.

POEMA DE NATAL

ERA UM NATAL. E um poema de alegria escrito pela mão que se iludia E nêle havia as dádivas do dia, e nele havia sinos acordados;

e havia nêle tudo o que se espera com seus anseios sempre contrariados; s6 lhe faltava o que ninguém sabia porque ficara n'alma que o fizera. Publicado em Jornal de Letras, Rio de Ja- neiro, dezembro 1950.

POEMA DE NATAL

ERA UM POEMA freqüente, repetido, com o menino nos braç

POEMAS DISPERSOS 983

os tempos e os espaços tinham origem, pois à origem do poema sempre havia essa virgem e o infante e a poesia. E era o início e era a extrema da criação, era o eterno e era o instante da canção. Publicado em Rio, Rio de Janeiro, 1951.

VIAGEM, VIAGEM, VIAGEM

SÔBRE o MAR côr de tisna vou no meu barco pra onde não sei. A senhora ventania toca toca matraca pelo ar grosso Pelo ar grosso me leva me leva, eu irei. Irei pelos oceanos noturnos Onde nunca haja terra Onde nunca haja rei Os caminhos do mar eu não sei Mas há de haver noites mais moles Muito moles além Noites quentes, noites quentes sem lei. Sem luar, sem estrêlas. Nessas noites serei Não serei rei Não serei corpo de nada. Não quero ouvir sereias Nem ver praias Nem ilhas, nem estrêlas, Quero ir pelos oceanos noturnos Pelas noites sem lei SOzinho no meu barco Ouvindo o baque nágua Dos meus peixes-voadores.

PAUSA

NESTE "meu simples quarto de estudo ,,,', penso muitas vêzes onde ides habitar depois de mim, livros de meu agrado, retratos familiares ou de amigos, canetas e lápis com que escrevo; e o retrato de meu pai onde irá órfão de mim? Em que antiquário se cobrirá de poeira entre coisas profanas? Que destino tomará a mesa em que escrevo, a cadeira em que [me sento e em que doces pessoas amadas repousaram? Onde passarão a habitar os gestos, os olhares, o contato dos sêres que dormitam colados a essas coisas? a mão em 1is da que numa tarde pousou no espaldar, e ia tocar o poema e o interrompeu em meio? E os sons das músicas queridas? e as vozes doces que vinham dos sonhos agitados e que alta noite penetravam pela janela aberta? Tudo isto órfão de mim sem tato e sem repouso, irá procurar-me em minha tumba ou uivar pelos caminhos ermos ou vagar como cadáveres de insetos? Neste meu simples quarto de estudo, penso nos olhares dos que me quiserem bem, nas réstias que a claridade me enviou, nas sombras que me envolveram de mistério, na ventania que uma noite veio do alto mar com o véu de uma desconhecida atirada nas águas. Neste meu simples quarto de estudo, penso nas flôres murchas entre as páginas dos livros ou nalguma lágrima embebida nas letras, nos traços que sublinharam as frases mais amadas, nos pequenos insetos mortos sob minha lâmpada. Tôdas estas coisas órfãs de mim, sem repouso e ~em teto, ficarão como sonâmbulos, como arlequins de luto?

POEMAS DISPERSOS 985

Neste meu simples quarto de estudo, penso nas presenças que moram atrás dos vidros ou da penum- [ bra diáfana, nos mais puros estados d'alma que pairam atrás das sombras amigas - mágoas que existiram atrás de ciúmes, desenganos que surgiram atrás de grandes renúncias, olhares que seguem passos inquietos na noite. Tôdas estas coisas órfãs de mim, sem repouso e sem teto, ficarão soluçando com frio nos parques sem fôlhas? Dêste meu simples quarto de estudo vejo meus sapatos caminhando na chuva. O senhor mendigo, prestai atenção para não molhar os pés!

FLAMA NUA •

NADAS ENTRE a espuma que é agora mais verde que teus olhos; e o ruído do cravo de tuas mãos, e:11.igido, dá-lhe ao amor um anjo e uma aurora.

Já de teu corpo a água se colora, amada minha, rio que floriu, onda total que o peito preferiu quando o sangue de seus espaços chora.

Como é fugaz! que arroio tão ligeiro! és o azar fendido pela esteira ou magnólia talvez, donde te quero.

E já a onda seus rosais encerra e sua pomba que o olhar desvela me liberta a pena e a desterra.

BELA ADORMECIDA

DoRMES sendo centelha e são amôres hastes de solidão já conjurada, a alma só, com a voz embargada e o ar em seus ruídos observadores.

• Os 17 sonetos que se seguem foram compostos na mesma época do Livro de Sonetos. Postos de lado, o autor aproveitou os temas em outros poemaa incluídos na Invenção de Orteu. Encontraram-se, juntos e datilo- grafados, no arquivo do poeta. À diferença dos demais, estes têm título. 8 que o autor, para dar unidade ao Livro de Sonetos, decidiu na 6ltima prova, retirar os das peças que o compõem, motivo por que ficaram com título os poemas excedentes, que o poeta omitiu por achar que não sin· tonizavam com o espírito a:eral do volume.

1/1
Menu

Fazer anotação