Invenção de Orfeu - Canto VII: Audição de Orfeu - bloco 02 (p. 799-806)
I\ I I:NÇÃO DE ORFEU 1 CANTO VIl 799 i Fiar tudo fiava teia, ardil e roca, e a vida recomposta não findava na urdidura dos sangues evidentes, mas as tumbas gerais, profundas, certas, conclamavam as sombras pensativas, infantas olvidadas em seus brincos, verbenas, caramujos, tranças, mas Reminis- atroz calcomania é a dêsses mares, cência da copiando o sangue injusto que há no ocaso. T. lncon- sútil: "O ú sevícia das coisas e dos sêres, l>esus/re miséria e morte e dúvida e descrença! Aht'o.
Tu, pátria de imprevistos, sopesada e olvidada em recalques, solo frio, país novo de séculos nascentes, última terra de viuvez secreta. E as velhas pausas. E os hiemais repousos, ó terra sem abalos, meiga terra de arvoredos conjuntos, tantos braços, no ar pungente. Regougam de meu corpo, êstes ais e estas côres, sangue de minha fronde cipoenta e exangue como a coroa de espinhos de quem vive. Permite-me falar sem minha língua: campo de estrêlas no descobrimento, dessa cosmogonia adormecida. Já vi fremir os dias, e os devolvo com seus frios, seus poucos universos. Meu olhar estrangeiro é seu olhar, minha noite estrelada os acalenta, !!uprime-lhe equadores, pólos áureos. Quero o tempo irredento dos espaços. ú atos puros, fronte límpida eu não sou minha paixão: ela me invade. Saúdo-vos avitos serpentários, com vossos fogos, febres e delírios, pavores ancestrais, ociosidades, noites eternas, cursos humilhados que eu sei banhar-me em prantos, eu que velo, sob o olhar do Senhor, entre seus dias, eu fugido de mim, eu enterrado
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na próxima alforria, dor deixada nos secretos suores dêsse exílio; saúdo-vos. avitos sagitários de flechas e de lumes perecíveis!
Que a serena ambígua urca traiçoeira, paliçada plebana motivada se esboroe sôbre o chumbo dessas campas e em nossos ramos suba para os cirros, e deixe que se conte sua idade nessas lousas e COilchas remissórias . Esta a lânguida linfa adormecida, esta, a selva de troncos movediços. também osculatório das idades . Esta, a imemorial lança soberana! Esta, a concisa pilha de holocaustos!
Nada digas. O antigo pedestal (sorriso, beijo e lábio de veemências) floriu, frutificou: amor alteado. Um ato só bastou, fêz que fundissem ouros, e dêsses ouros vieram cálices . Graças, vidente ser, graças, essências que as ramadas ondulam nessa verde conjuração dos píncaros selvagens. Novas terras e sóis, novas esferas nascem de extremo a extremo. O que gemidos na glória das manhãs reconquistadas!
Desperta quieto brilho, nota arisca, eu farei voar as flechas que te crivam como prismas gritantes, como tigres, como fôrças ferozes, como infernos, como espadas de guerra, como gritos . Aguarda, ó dia do alto, teu reflexo contido nas trombetas terminais. Mastins celestes, cisnes, vias-lácteas, exatas nebulosas, signos, Hércules, e novas invenções, coisas de coisas, apraz-me pronunciar-vos, sou vosso áugure.
Apenas ser, que linde sideral! Os astros se recolhem: reza o infante
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a avegraça nos trigos dessas tardes. Cai a futura noite, cai luar, os silêncios parados, as canções, os segredos longínquos, os insetos nas luzes, e êsse pranto sem motivo . Dorme infante, cintila estrêla, pranto desce dos olhos simples, lâmpada alta cobre os amantes . Som de mar, sossega as tristezas das ruas . Amanhãs. Meus sobressaltos, rude placidez, entre descidas pálpebras e alentos, sôbre vésperas sumas, novos nomes. Apraz-me designar estritamente êsse caleidoscópio batismal, ôvo armilar tombado nas laringes, mar opressor caído dos céus rubros . Essas faces de urtiga têm aromas, os braços medusares das sibilas desenham seus desígnios . Claridade . e um mapa-múndi: vale registrá-lo.
IV
Palavras ancestrais, previmos que eram chaves, e fomos nada mais, que puros arrastados. O vento é sempre um ser que nos entreabre as asas. O vai-te em vento ser um doce verso alado . A mágoa a nossos pés pendia-nos a fonte, a fronte era um convés de náufragos chorando. O páscoas que previ, ó terras que aspirei, o verso nasce aqui mas corre em outros vales. Mas por encantação às vêzes volto a mim, perdido da canção, regresso às ondas raras que as cinzas guardarão, ó últimas grisalhas, que as mágoas comerão, ó cândidas voragens! A 1, A 2, A 3, vogais locomotivas. Que assonâncias sem leis, o duro céu queimado! Ferragens no sem-fim. Eterno desafio. Ahl sempre um serafim correndo paralelo.
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Valente mente c ação, galope cordas bambas. E aquela vocação triângulos tocando; tocado sempre sou por essa tentação; não sei por onde vou: criatura e abstração. Sonâmbulo salvei algumas andorinhas . Depois as relerei. Que enquanto quero: andar olhando os girassóis que rondam meu olhar. queimar-me em outros sóis, plantar-me em outras vinhas.
v No centro um tribunal. Eu me recordo que havia em meio a ilha um tribunal. E por mais que me esforce afastar tal recordação. revejo o tribunal.
Levaram-me a êle. Fui. Eu me recordo. Em tôrno havia um círculo fatal. Os olhos em redor. E tudo igual. Igual circunferência: o bem e o mal.
Ilha e tribunal; e eu, ali, no meio e os olhos em redor . Eu me recordo . No centro o tribunal. Ergui-me e olhei-o. E olhou-me o tribunal em seu rebôrdo de olhares sôbre mim. sôbre os meus erros: E tudo em círculo entre o bem e o mal.
VI
Diante do que entrevi resolvi desdenhar-me c apagar de meu corpo o que houvesse de mar: o seu sal, o seu chôro inconsciente, até mesmo o min(Jsculo hipocampo e outras coisas e rêdes.
Sei que cu era capaz de tamanho suicídio pois que a vida parece uma breve centelha, e tudo o mais vaidade ou necessário vício ou cansaço vulgar ou paciente mêdo.
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Para esquecer ergui as mãos e por instantes apertando o ar da terra abafado e constante tive alguma ilusão, vinham seivas recentes, vestígios, abstrações. ou rangiam-me os dentes.
Sempre é melhor a flora expansiva e invitada, dir-se-ia uma atriz amainando leopardos enquanto com uma luva arrebanha libélulas; tudo é encanto na atriz que se reverte em mágica.
Certos dias segui as renas legionárias arrastando em seu leite uns tipos ofegados que das selvas os leões espreitavam suspensos na seivosa begônia enorme como um poema.
A cena era traiçoeira; enfim vencia o leão, e o sibilo da mata arquejava nas chamas que cobrindo o clamor das presenças despertas varava o coração dos seviciados clérigos.
Eu estava na selva a procurar Lenora quando escuto no fim dessa sombria história, o pungente ondular de uma voz encantada desferindo no azul cadências ignoradas. Cobri-me de esperança e procurei nas searas alguma fome real ou mesmo alguma sêde que da fome e da sêde apagasse a vontade e me desse Lenora ao longo das veredas .
Em tôrno dêsse luto - a jornada sem têrmo. Aqui como no mar a natureza é êrma; e o perigo do vácuo é o perigo maior quando não temos com que preenchê-lo de amor. Rimando em dois, eis que! qual nada, meus amôrcs! Sigo em busca de um ouro em que tudo se oculta. Setas de canitar traspassam-me de dor, sofro todo o torpor de um soldado insepulto. Dias e dias fico assim como um rochedo criando lôdo em meu queixo e caracóis nos lados: sob as chuvas da América, eis-me de novo alado. Seguramente vôo pelos ramos, sem mêdo.
Amo reverdecer côres sôbre o meu bico sonoro como um deus dedilhando uma flauta; debruço-me numa asa, abro a alma no espaço. Eu bem me sinto idiotamente rico. Mendigo de pedir retorno a ser, 6 Deus! E peço-te Lenora, e peço-te meu canto! E eu próprio fique em minha enodoada bandeja pedindo um níquel para uma fumigação. Estendo as mãos pedindo, estendo os pés nos lagos, purifico-me em bíblia, arrependo-me em vida; com uma sonda no umbigo alimento-me de escassas migalhas que introduzo em seu canal esguio. Mas se eu soprar por essa enguia assumo logo a feição do deus 6rfico . ~ um lunar pavio incendiando o torpor de meu tão longo exílio vindo dos céus de lava em favor de meus rogos. Onde pairas então minha sempre Lenora, verdadeira Lenora, 6 grande amada em suma? Vem desejada há tanto: em meu peito há uma porta, porta leve a esperar, essa mais que nenhuma . Tuas irmãs no entanto ou ·túrgidas ou vivas como as aves já são não dois pontos sozinhos sob os quais a montanha é uma noite perdida e além se vê florir algum astro mais frio. '·!-.'\. - .
O esta viagem pela encruzilhada ardente tão cheia de dragões de cada lado olhando-me: um me escarnece enquanto o outro sendo tridentt não me desfaz da voz asas dêsse amanhã! Triste de quem com o seu sozinho pé intent;o a vereda sutil, ou corrido das bêstas debruça-se no chão para dormir ao vento, e vem alguém de noite e rouba-lhe as muletas. Triste do pobre oleiro em seus barros cozido roendo o calcanhar de Prometeu sem águias! Nada de maldições! A botelha trazida deu-me sêde e a bebi. Engoli-me com a água.
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VII
Não adianta entender-me, se amanhã serei mudo, serás amanhã mudo. Desconversemos. Logo, percebeis entre essa noite algum vestígio humano? Ingrata via, ingrata vista, vida? Falemos de Lenora, Belatrix. Mira-celi nasceu nesse momento, a canção me acompanha nos silêncios. Convalesço na fé crucificado, entre arvoredo e vento. Larga tarde. Largos céus, largos ares e velames, as lágrimas no fundo estão presentes . Desconversemos, descboremos. Nós! A palavra é fraterna e conseqüente: Trono, Sol, Oriente, Aurora, Esfera. Vamos degustar ecos reouvidos.
Vlll
Vela rôta final na travessia refletida na última comporta estacando-se nesse alegre dia. Imensa solidão. Cerrada porta. E agora? Agora vês o que não vias: tua imobilidade recomposta no primitivo barro em que jazias, com êsse manto de treva em tuas costas.
E essa môsca vagando em tua testa! E essa corrupção em tua entranha! De tão murchos teus lábios rir parecem .
Outras coisas curiosas acontecem: teu cadáver metido nesse estranho traje a rigor de bailes e de festas.
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IX
Conta-me ainda. Musa, enquanto vindo é o calmo sôpro ao líquido elemento. Não longe dêsse pélago é o tormentoso Indo. E à direita, ao nascente é a conjura do vento. Tempestades fatais estão hoje destruindo os rosais, sem paixão. ó século famulento! Que conjuras se vão contra os lírios urdindo? Quem vem ao meu unindo o passo suave e lento'?
Eis a clava da fé com que êle se armava solapando em redor catapultas sombrias e as sombrias paixões de qualquer alma escrava. Mas sempre viverão as promessas estranhas e as palavras do céu que inda ontem lhe ouvias silencioso através dessas mesmas montanhas.
X
Impermanência em li llêssc cristal perpétuo crescendo aqui. ardendo ali, parando estrito. Forma de tuas mãos, transcendência e matéria, alta e dura tensão. fossilizado grito.
Forma das coisas, forma emudecida em vestes cobrindo âmagos olha a forma em que me agito e em que Deus me deixou, frente a frente daquelas seqüências naturais: calor após o atrito.
O aspecto é o dêsse sol visto de sob as ondas - astro cozido em sal mais pequeno que a brasa que assa o pequeno pão que com fome tu rondas.
E rondando-o entrevês a forma de tua fome permanente e contida em meio à escura vasa em que irás dissolver os ossos e o teu nome .