Invenção de Orfeu - Canto I: Fundação da Ilha - bloco 04 (p. 651-658)
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há de haver pelo menos por ali os pássaros que nós idealizamos.
Feliz de quem com cânticos se esconde e julga tê-los em seus próprios bicos, e ao bico alheio em cânticos responde.
E vendo em tôrno as mais terríveis cenas, possa mirar-se as asas depenadas e contentar-se com as secretas penas.
XXVII
Há uns eclipses, há; e há outros casos: de sementes de coisas serem outras, rochedos esvoaçados por acasos e acasos serem tudo, coisas tôdas.
Lãs de faces, madeiras invisíveis, visão de coitos entre os impossíveis, fôlhas brotando de âmagos de bronze, demônios tristes choros nas bifronte'l.
Tudo é veleiro sôbre as ondas íris, condores podem ser os baixos ramos, montes boiarem, aços se delirem. Vemos ao longe sombras, e são flâmulas, lábios sedentos, lírios com ventosas, ódios gerando flôres amorosas.
XXVIII
Contemplo agora as rochas vigilantes, na funda permanência dessa tarde escuto-as comovido, elas me escutam: recalcamos silêncios imprecisos com tal fé no momento das borrascas, que nesse ar tão viscoso e tão sofrido nascem lumes de paz esplandecidos.
Contemplo-as, e elas guardam minha sombra, transportam-na à mansão mais tormentosa, agito-me em seus veios, tempo alado, colunas de guerreiros, ressonâncias dias e dias calmos, densas vozes latejando nas pedras incendidas, encerrando as estátuas habitadas. As raízes são minhas, pedra lusa e refrão de aventuras renovadas; eis êssc itinerário de meus nomes, eis êsse aço de afiar minas espadas, penedo de esbarrar naves absortas, febre dura de fé, vocabulário, 6 meu pai Perestrelo, 6 vós Jerônimo. Contemplo as rochas puras que assistiram passar por essas tardes caravelas; o sulco inda foi ontem, doce Olaia: tu jazias nos Anjos, (coisa estranha!) descobrimos nas ondas essas algas, essas lndias tão nuas, êsses ventos, essas admirações em São Brandão! E depois escrevemos uma carta contando tuas graças, nessas praias, sôbre os giolhos das môças, nas vergonhas. No entretanto ali estão as outras faces. Ah! as praias e as tragédias e as Ineses, e os presságios bilingües, multilingües e as visões tão fatais, tão desabridas. O desaparecidos, 6 encobertos, 6 perdidos nas guerras e nas copias, eu moro junto a vós, nesses rochedos das certezas finais desencontradas, reis desejados, sopros ocultados, esperança e renúncia, 6 D. José, queridas confusões, graças vos dou. Procuro nessas rochas as raízes e as fontes provindouras e as cabalas; 6 querida Eufrosina tão despida,
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vamos apascentar o nosso gado, ordenhar e mungir essas montanhas, amar os nossos filhos erradios, desejar as constantes perdições. Que legendas, que signos e epitáfios existem na clausura dessas rochas! Quantos fachos, indícios e centelhas nesses ombros gigantes, nessas faces. nessas esfinges, nessas deusas mudas! Quedo em assombro, muro-me dos sábios. muno os desertos. clamo por mouramas. "Mescla-te aos climas, ser inadvertido em serviço de Deus e seus roteiros sem ajuda de Marte e de outros numes!" - digo-me contemplando as rochas nuas que parecem agora caminhantes. Elas param por vêzes e me escutam. eu as alcanço; chamam-me de filho. Quero as lndiasl 6 mães onde os caminhos? Elas se deixam confundir com a noite. Pergunto-lhes de novo, elas se entreolham, censuram-me a ambição, ficam perplexas, esgueiram-se na noite recriada. Finjo-me triste. busco direções. Elas estacam; ponho-me a chorar. Não há motivo dêsse chôro longo; que a vontade é passar essas montanhas, tornar-me o desejado, desgarrar-me, procurar ouro, e à falta de ouro - rochas, elas mesmas, as rochas sem caminhos, paradas, impassíveis, ancoradas: outras coisas nos chamam noutros vales. Não são paisagens lógicas nem minas Não paiJagens nem singularidades nem desígnios, lógicas. mas o dom da aventura desgraçada, a lágrima, a saudade, o canto triste. Porém a noite e o mêdo, porém tudo, porém a gente nova e o reino vão. Maléficos Saturnos, Pedros Nunes.
Quero famas nas Ásias, porcelanas, os desertos sem noite, a cristandade, as flâmulas frementes, gorgorões, os xairéis e o matiz das hacanéias, e alguns brasões e as nobres qualidades, ações extraordinárias, bons combates e tudo que conforte o entendimento. Consulto-vos ó rochas. Bons propósitos? Estimo reais alvitres, fiéis concílios, vossas prerrogativas, rochas puras, vossas lições de mortas, vossos gestos, rochas pclejadoras, rochas vivas, grandezas que seremos, febre glórica, mas não além dos mouros, sim com os mouros.
Mas não sem os judios, sim com êles. Não surtais grandes ódios, pestes grandes. Não vos circundeis almas, não bulais. Chamam-me as rochas. Mães, vós me chamastes? Elas se encrespam ríjidas nos ares. Quero vos convocar! profiro em côro, pois sou as muitas vozes dessas rochas.
Tristonhas emudecem; e emudeço com uma hesitação que vem do início; só tenho algumas vozes mas tão trôpegas que mais parecem fontes embriagadas. O pobre filho! E as rochas se semi-abrem, e as incestuo de amôres e de pazes. Essas castas madonas não culpadas.
XXIX Não há atividade mai~ fiel Que a de pintar em côres a ilha. Como os efeitos não persistem Devo chorar muito depressa. A espátula corre sôbre a tela, Nascem raízes sôbre a terra, Os corpos ficam côr-de-barro, Vou enterrá-los sem pincel.
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Composição desordenada Fica ao crepúsculo colossal; E tudo agora se encorpora Ao horizonte vegetal. Há todavia luz nas côres Para que as veja saturadas Nesse crepíisculo verde-negro. Musgos nascendo de repente, Eras passando nesse espaço. A proporção é desmedida, Enche as distâncias desoladas Cobre as estrêlas nunca fixas, Muda a paisagem cada tarde, A luz informa fósseis vivos, Vulcões mastigam rochas neutras Pondo lacunas nas criaturas. Meu crescimento é sem limites, Há conseqüências tenebrosas Mas já não bastam nostalgias Pois sobem asas assombradas, Predecessores exilados Jazem de bôrco em marés baixas. Essa. maneira é mais contínua, Mais luxuriante e mais devassa; Novos rigores instalados, Climas diversos sublevados, Outros tetardos massacrados, Vários "cromagnons" enforcados, Particularmente danados. O dura legenda incendiada. O palimpsestos humanados! Esse o imensíssimo poema Onde os outros se entrelaçaram, Datas, ní1meros, leis dantescas. Início, início. início, início, Poema unânime abrange os sêres E quantas pátrias. Quantas vêzes. Poema-Queda jamais finado Eu seu herói matei um Deus Genitum non factum Memento. Não sou a Luz mas fui mandado Para testemunhar a Luz Que flui dêste poema alheio. Amen.
XXX Inda meninos, íamos com febre comer juntos o barro dessa encosta. Será talvez, por isso, que o homem goze ser a seu modo tão visionário e ébrio. E inda goste de ter em si a terra com seu talude estanque e sua rosa, e êsse incesto contínuo, e infância anosa, e céu chorando as vísceras que o cevam. Geo/ngia Tudo isso é um abril desenterrado e ilha de se comer, ontem e agora, e vontade contínua de cavá-los, cavá-los com a maleita renovada. ó terra que a si própria se devora! ó pulsos galopantes, 6 cavalos!
XXXI
Esquecidos dos donos, nós os bastos, nós os complexos, nós os pioneiros, nós os devastadores e assassinos, vamos agora fabricar o índio com a tristeza da mata e a fuga da maloca, com a alegria de caçar. Vamos dar-lhe paciências de amansar os bichos, de juntar as belas penas, O tndl(l raízes, frutos; vamos abalar lnt~rlm·
com êle o chão da maloca, batucando . Essa terra dançada, D. Manuel, de ponta a ponta é tôda de arvoredo& . 1?. tôda de arvoredos e de ar bom, como o ar bom de Entre-Douro-e-Minho, e as águas são muitas, infinitas, tudo dando, dando peixe, lavando a carne nua,
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lambendo os pés da selva embaraçosa. a feição é ser parda, bons narizes . Boas vergonhas nuas, boas caras e bons Jcans de Lery contando as coisas. Ausentamos recalques e pudores e colares de dentes e de contas para atrair as musas e as mães-d'água, e adornos para os sexos merecidos. Nenhuma idéia exata possuímos sôbrc origens de carnes c de sangues, mas de mortes somente, mesmas caras que vós, mesmos desejos, nós indígenas, vós indígenas, nós madeiras mesmas, decadentes. corroídas, não pacíficas. O nosso cão doméstico aprendeu a latir. Nós também sabemos coisas, tatuamos índios para que os maus gênios de nós não se apoderem . Canibales, canibais, upupiaras, cães e peixes, homens fluviais, nós índios, curiqueãs. Goiazis, matuins, encantada India, sempre India ocidental, oriental India. povoada de cardumes mitológicos, minhas proas cortando os tenebrosos mares, de duendes lusos e outras nuvens, promotórios, gigantes e grandezas. E eu menino pequeno, todo penas, com essas flechas sem leis e êsses colares prefaciando viagens, aventuras, narradores de pêtas européias, eu sem ouros, com apenas maracás, bondades naturais, recém-nascidas. Eu índio diferente, mau selvagem, bom selvagem nascido pra o humanismo. à lei da natureza me despindo com pilotos e epístolas, cabrais, navegações e viagens e ramúsios, santas-cruzes, vespúcios, paus-brasis.
E eu palavreando com êsses papagaios completamente apócrifo no mundo, cosmogonia nua, áspero clima sem moeda e comércio, muito bem, liberdade social, perfeitamente com tacapes ferindo mas sem guerras. Sobretudo eu escravo do homem branco, 6 cunhãs, inocências e pobrezas, curiosidades sôbre meus amôres, visões de missionários, flor de peles, narrativas de naus e manuscritos, madeiras de Calombos e de Espanhas. Vivo estranho em Lisboas babeladas entre chios e japões pelas ruelas, os domínios distantes me afogando, cotovelada pelo Rei das quinas, resgatado com fardos c tonéis, descoberto de trajes e de galas. Ou então em bororo me chamando. - Que venha o peixe ocogue! e o peixe veio e outros peixes gerados com ixegui . Quero do1s paus para acender meu fogo, a morada das almas me chamou, bororo forte, linguagem ue IJororo. Dentro dos jenipapos o ser grávida subiu na árvore, fruto, irmã menor, para flechar morada de assovios, as águas se alargaram, a anta veio, então chegou a terra e se embebeu, formou um vale, o vale se fendeu. Conheço plantas pra grudar memórias, boas embiras amarrando os cantos, resinas, cascas para funerais, para caçadas, cantos de pescar, ó filas de antas, taquarais, canastras, ruídos tristes, largados, desabados.
O fogo na penugem da montanha, o fogo sôbre o rio, sôbre a mata,