Castro Alves - Vidinha - bloco 01 (p. 929-936)
Quem nunca leu Os Escravos - ou a "Ode ao Dois de Julho" e o "Gondoleiro do Amor", ai! êsse sofreu esbulho, desconhecendo poesia desconhece um santo orgulho. Orgulho do que é divino, orgulho do que é verdade, nunca sentiu essa coisa que a alma da gente invade e de cuja tirania ninguém quer a liberdade. Agora, peço a você, 6 caboclo brasileiro, caboclo ainda cativo, ler o "Navio Negreiro" para ficar informado do passado cativeiro. Era um navio maldito, uma ave de rapina voando à flor do oceano, no bôjo a gana assassina conduzia ouro humano: a raça negra era a mina. Caboclo, não chore não, não chore quando o poema apertar-lhe o coração; se não puder impe ou gema ou grite de indignação. Caboclo, êste o dilema. Depois leias as Vozes d'Ã/rica com a mesma indignação contra os senhores de escravos, 6 caboclo do sertão, o cativeiro de hoje é o mesmo: ·cana e algodão. Mas leia, caboclo, leia, que eu leio no seu olhar
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o poema que Castro Alves desejaria acabar: a nau maldita do mar viaja pelo sertão. Acontece que o empresário da Companhia queria que Eugênia a acompanhas!e. O teatro não servia sem ela representar o que estava então em dia. No Gaiato de Lisboa Eugênia Câmara fazia o teatro vir abaixo, era uma estrepolia. Eugênia nesse papel fazia o que bem queria. Não vás! dizia Ceceu fica comigo meu bem, vamos viver isolados a vida que nos convém, fazer versos sossegados, . pois a canção vai além. Eugênia Câmara acolhia êsse pedido, ficava mas depois de uns poucos dias a môça logo voltava ao convite enganador que Ceceu logo aceitava. ,, -Vamos meu bem pra Bahia? , mas com pouco lá se ia A atriz bonita cercava um mundão de incensadores. Dêsse cêrco ela gostava. E depois dos, eSpetáculos havia ceias;· e o poeta não deixava -que ela fôsse. O ciúme que o inquieta
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toma-lhe a vida infeliz, introduz-lhe dor secreta. Um lhe trazia um presente, outro lhe dava um buquê com uma promessa traiçoeira que o enganado não vê. Se ela fugia dos laços logo ficava à merca. - Eugênia, falava êle, prêso de sua paixão: eu te amo, pois me inspiras o amor da redenção que me impele noite e dia contra o mal da escravidão. Preciso do teu amor Eugênia para me alentar, para escrever poesia, para viver e sonhar, para enfrentar os senhores de escravos, e os dominar. Enquanto isso falava, Eugênia ouvia os gorjeios daqueles que a desejavam por dinheiro e outros meios. Dalila esquece Ceceu, já não são dêle os seus seios. Para esquecer essa mágoa o poeta se embriaga, vê definhar a saúde. Meu Deus que noite pressaga desaba sôbre Castro Alves maldição, ruína, praga! Alta noite, a febre o exalta, corrói-lhe a vida devassa. Percebe que vai morrer, polpa de gênio - argamassa, peito de atlante a sentir a morte perto. Desgraça!
Mas escreve e ama e labuta vem à Iiça defender pátria, amor, glória, canção, embora veja pender na mão de herói a espada gloriosa até morrer. Eugênia tu não consentes que eu· me entregue à poesia nem descante a liberdade. Em minha vida há um dia que espero com ansiedade: o dia de ver libertos os que sofrem tirania. Eugênia? Eugênia? Deserto o quarto que os abrigava. Tinha vindo convidá-la a roda que a desviava. Mentira! a Glória ali estava. A procura da fortuna segue Eugênia sua sina. que a vida errante os domina pelo Rio e por São Paulo. Glória, delírio, ruína! Mas nem dores nem desgraças fazem dêle prisioneiro. Mesmo traído e doente compõe dramas, versos, versos, compõe as Vozes da Á/rica, compõe o "Navio Negreiro". Em São Paulo a amante o deixa, cobre-o de dor e amargura. O poeta vaga a sós, finge que caça, procura andar nas matas do Brás e esquecer sua loucura. Um dia não sabe como um tiro da pr6pria carga
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fere-lhe o pé como a Aquiles, a tísica o passo lhe embarga, febre, tosse e hemoptise tinge em sangue a bôca amarga. e. voltar à terra pátria, é voltar desarvorado como o barco que se acolhe ao abrigo desprezado. Meu Deus! Que negra loucura foi êsse amor desgraçado! Era noite de São João. Na varanda do Sodré, em seu velho casarão, êle mal se põe em pé. A fumaça da saudade afoga o homem sem fé. Recua para morrer dias depois - três e meia da tarde lenta tão bela, tão algazarra, tão cheia de aves; finda o poeta como exaurida candeia. Quer falar não pode mais. Quer olhar não vê mais nada . A escuridão o envolveu. Mentira! A morte é alvorada! Liberdade derradeira! Derradeira Bem-Amada!
FIM DE "CASTRO ALVES - VIDINHA"
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