Poemas Dispersos - bloco 04 (p. 967-974) Obra Completa, Volume I · Capítulo 87 de 90
Obra Menu

Poemas Dispersos - bloco 04 (p. 967-974)

I'IJHMAS DISPERSOS 971

parece que é o sangue correndo no chão . Menina morena não venhas pras fábricas 6 não venhas não. Menina bonita de saia encarnada como uma bandeira voando no chão parece que é o sangue o sangue da terra correndo no chão. As fábricas menina te apodrecerão. Menina morena um dia vieram meninas iguais de saia encarnada viver do tear. Quereis uma história menina escutar? Um dia, era um dia .. . Acabou-se a menina .. . Menina bonita história mais triste não existe não. Menina morena bandeira vermelha voando no chão, menina bonita 6 não venhas não. Publicado em O Jornal, Rio de .Janeiro, 2 setembro 1934.

POEMA FAWCETI

CANTAI de leve 6 água pura silêncio vento, vento amainais,

aves do céu voai mais lento eu sou Fawcett que se perdeu no nunca mais. ó capineiro que capinai tende cuidado, pra não cortar meu sono fundo.

Calai-vos mundo rodai de leve que eu sou Fawcett aqui é a terra do nunca mais. Mineiro amigo aqui não há ouro nem prata cavar mars longe morri pra o mundo sou mais que um monge minhas palavras ninguém repete que eu sou Fawcett que se perdeu no nunca mais. Criei raízes virei-me em planta não me interessa a vida insana minhas ramagens vivem felizes, tende cuidado meu capineiro os meus cabelos não capinais que eu sou aquêle que se perdeu no nunca mais.

I'OEMAS DISPERSOS 973

Cantai de leve ó água pura não perturbeis meu quieto abrigo passai de longe sou mais que um monge menos que planta, ninguém repete minha aventura que eu sou Fawcelt que se perdeu no nunca mais. Publicado em O Jvmal, Rio de Janeiro, 1938.

ELEGIA E NOTlCIAS DA TERRA PARA ALUISIO BRANCO

0 JOVEM cristão, a morte apurou tuas feições e cerrou tua barba tênue, e transmitiu majestade às tuas mãos inquietas e deu serenidade a teus passos, a teus gestos ainda infantis. Pertences agora à grande raça, e te imprimiste a bela face solene do Mestre! O jovem cristão, a tua bôca desmaiada que sabia poemas e o orfeão de João Crisóstomo. E as tuas insônias e as tuas noites de infindáveis conversas transformadas em hastes floridas pendem agora sôbre os ouvidos [das musas. Sabes signos secretos; e tua estatura imponente a teus cabelos de ramos em flor entrelaçados abrigam asas de raros pássaros que ninguém avistou! Compreendes a sem-importância do tempo e a fragilidade das grandes nações da terra e visto como eras forte e como eras grande com teus poemas e com tua fraqueza! Jovem cristão, coroado de espinhos, transformados em flôres, [ teu rosto sereno

se multiplicou em mil prismas celestes, e o cubo sossegado de teu quarto de livros pende de tua mão como uma gaiola azul. Vives a existência inúmera e reservada das montanhas sôbre que planam as imensas constelações de Deus. Jovem cristão, aqui a vida continua tímida e provisória, e os suicídios aumentam, e cada tarde vermelha é um prenúncio de horas inseguras em que sentimos o hálito da morte disfarçado entre as rosas. Os nossos serões estão vazios sem ti e a ventania dos nossos coqueirais aprendeu o uivo dos ho1mens., Só os negros ainda riem entre um saxofone e dois banjos. Ontem um gladiador veio marchando e afugentou os pássaros. Mas fizemos tremular tua bandeira sôbre o mastro da nau. Publicado em Diário da Manhã, Recife, 20 novembro 1938.

INCESTO

A GAITA era tão natural na sua face agreste que parecia a sua própria língua esburacada de sons e ventilada por uma brisa íntima. Até a sagrada saliva irrigava-a como ao pedaço de lábio pendido para a toada simples que daquela gaita saía. Saía daquela gaita uma pastôra: ficava àli perto repercutida, e o homem da gaita era tão comovido que um maribondo podia lhe espicaçar o umbigo. Então a pastôra despia em frente dêle ventre e seio e uma ou outra aba até ficar alagada de harmonia. Ouvia-se trinta anos em frente o burrinho chocalhando e três netas do pastor se ensaboando. Sabão ou saliva era o banho de som que inundava a paisagem e tudo era limpo como depois de chuva. Ao fim da tarde enlevado recolhia em si a gaita

I'OEMAS DISPERSOS 975

c a noite milenar caía. Três pastôras ficaram do lado de fora para se perder. ·rende cuidado, amigo, que há três incestos na noite para vos pegar. Publicado em Coisas Nossas, (?), dezem- bro 1938.

DEIXAI vir sôbre nós a tarde sem meninas nas janelas nem embarcações ancoradas nem cêstos de polvos esquecidos [no cais. Deixai vir a tarde só como uma vereda de cabras entre as salsas [das praias c a fumaça das choupanas desertas batidas por ventania branda . Pois sabeis que meu horizonte tem que ser recriado de momento [a momento c que eu não desejo o peixe de nenhum companheiro e nem quero que ninguém me dê nenhuma concha. Conservo a memória do mar para que ninguém me acorrente a [ nenhuma âncora ou a algum limite de praia. Nem me apareçam ridículos banhistas com salva-vidas e óculos [de côr. Deixai vir a nós ó Pai a tarde só com suas fortes marés para me despregarem da terra e dissolverem boiões do barro [que ainda tenho nos ouvidos e algumas conchas agarradas ao pescoço. Então me banharei com os meus rochedos e tudo, abrindo as [ águas meio a meio, indo e vindo na gosma do mar alto que me dê até aos ombros [ que criastes. Peço que não me afogueis os olhos nem os lábios ungidos nem os esqueçais transformados em coisas do oceano mas que êles continuem como memória e verbo de vossas mãos! Publicado em O Diário, Belo Horizonte, 19 fevereiro 1939.

A MEIA-NOITE, EM OUTUBRO, AO SUDOESTE', PARA ROBI!RT 0ARRIC

O CORPO e a alma do poeta estão tão ajustados às distâncias do passado, do presente e [futuro, que o ar deslocado pelo seu dedo mínimo, refrescou o rosto de uma criança que dormia sôbre a relva [ Ganges. Pois se o poeta encher o estômago um pouco mais, naus se afundarão, 6 amigos que desgraça esta enfim! Se êle queimar uma semente sequer de café ou de trigo, um ciclone varrerá as ilhas do Pacífico e ninguém saberá a causa de tantas misérias no mar! Se êle não vigiar pelas horas da noite, as luzes da vida se extinguirão, e se êle não cantar os ninhos não cantarão, desfeitos! Quando o poeta mantém as mãos apoiadas nas nuvens, os pomares dão frutos sob sua sombra e grandes pescas se realizam pelas praias do mundo. O poeta consegue conduzir seus rebanhos desde as primeiras era11 aos silos suspensos do ano quinze mil. Quando o poeta se inclina dois graus além dos equinócios, Vega, Sírios e Castor tornam-se estrêlas duplas e as searas da terra dão trigo para os miseráveis. Quando êle olha ao sudoeste a estrêla Vésper tremeluzindo no céu,' Que6ps sobe na pirâmide e o Nilo vem desembocar onde o poeta [está. O corpo e a alma do poeta estão ajustados às distâncias do passado, do presente e do futuro. Publicado em Esfera, (?), outubro 1939.

POEMAS DISPERSOS 977

O DESENTERRAMENTO DA ESTÁTUA

A PAISAGEM com insetos se transformou sete vêzes. Vi que eu era uma cariátide sustentando uma pluma. Alta noite começaram a jorrar fontes dos meus olhos e vieram uns cinco febricitantes beber. Quando os lábios do mais môço me sorveram comecei a andar ligeiro e a imaginar em cada estrada um roteiro diverso. Recordo-me que ao atingir a órbita de Andrômeda tinha esquecido o pince-nez na estante. · Ao voltar, minha casa havia se coberto de hera e não reconheceu os meus antigos acenos. Minha mobília tinha se transformado em barcos no derradeiro [dilúvio. Meu guarda-chuva renegou meus braços. As minhas mãos tão servis me abandonaram na praia. Vi que se encantaram em duas rainhas más . Meus pés tão dançarinos que eram se cobriram de ouriços e eram tristes ao vento. Cariátide mutilada, sou neste recanto de parque a testemunha do jardim que virou pomar. Os homens do ano dois mil me desenterrarão. Publicado em jornal não identificado, janeiro 1940.

POEMA

VENTO invencível que voais com meus olhos e com as longas fôlhas das minhas mãos; chuva que chorais com as minhas lágrimas; vistes por acaso em qualquer canto do mundo a velha que me contava histórias? Vistes? Conversastes com ela? Perguntastes onde

ficou aquela menina do conto adormecida no campo com a mão no peito e o sonho galopando no tempo? Vento que andais por tôda parte, ainda há muitos lôbos famintos? Muitos quibungos com surrões cantadores? E a filha do rei ainda é noiva do senhor Pinto Pelado? E o bicho manjaléu ainda é feroz? E os peitinhos de chapelinho vermelho já nasceram? Vento invencível trazei-me êsse povo, acordai essa gente que eu não posso dormir com o barulho das máquinas no chão, no ar, no tempo, nos quatro pontos cardeais. Publicado em Mt!tr6pol~. Rio de 1940.

BOBO

Esrou comparecendo, ó senhores que pensais que eu sou bôbo também. Pois sou. Basta olhardes estas cinzas que me cobrem o rosto, e êstes punhos em amaranto, e êste colarinho que me empata as palavras, e estas mãos como estrêlas de barro. Tudo é um fingimento claro por mais que mude a voz e oculte o guarda-chuva por detrás desta armadura baça. Também há um rasgão nesta púrpura sovada que já perdeu o orgulho e os brasões. Se chegardes lume aos mulambos da blusa, eis que o coração abrasado de mêdo poderá ficar enxuto de prantos e abrir-se diante de vosso contentamento. O mais nada vale como disfarce de mim. Sou transparente, e o timbre de minha voz repercute sombrio como de uma abóbada afogada.

1/1
Menu

Fazer anotação