Novos Poemas - bloco 02 (p. 299-306) Obra Completa, Volume I · Capítulo 13 de 90
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Novos Poemas - bloco 02 (p. 299-306)

1\'tWOS POEMAS ~99

Mas tudo isso, Zefa, vamos dizer, só com os poderes de Jesus Cristo!

MADORNA DE lAIA

IAIÁ está na rêde de tucum. A mucama de Iaiá tange os piuns, balança a rêde, canta um lundum tão bambo, tão molengo, tão dengoso, que Iaiá tem vontade de dormir. Com quem? Ram-rem. Que preguiça, que calor ! Iaiá tira a camisa, toma aluá, prende o cocó, limpa o suor, pula pra rêde. Mas que cheiro gostoso tem Iaiá ! Que vontade doida de dormir ... Com quem? Cheiro de mel da casa das caldeiras ! O sagüim de Iaiá dorme num côco. Iaiá ferra no sono, pende a cabeça, abre-se a rêde, como uma ingá.

Pára a mucama de cantar, tange os piuns, cala o ram-rem, abre a janela, olha o curral : - um bruto sossêgo no curral I

~ui!o lon~e , uma ~ei~ica faz si-dó ... SI-dO. . . SI-do. . . SI-do .. ,

Antes que Iaiá corte a madorna, a moleca de Iaiá balança a rêde, tange os piuns, canta um lundum tão bambo, tão molengo, tão dengoso, que Iaiá sem se acordar, se coça, se estira e se abre tôda, na rêde de tucum. Sonha com quem ?

DIABO BRASILEIRO

ENXÔFRE, botija, galinha prêta ! Credo em cruz, capeta, pé-de-pato ! Diabo brasileiro, dente-de-ouro, botija, onde está? Credo, capeta, pé-de-pato !

Diabo brasileiro quero saber quando dá a dezena do carneiro? Enxôfre, botija, galinha preta ! Credo em cruz, capeta, pé-de-pato I

Capeta, dente-de-ouro, tome galinha preta, quero dormir com a Zcfa ! Capeta, bode prêto, quero dormir com a Zefa !

NOVOS POEMAS 301

Capeta, diabo brasileiro, só lhe dou galinha preta ! Capeta, quero casar com a Zefa, quero que Sêo Vigário me case logo com a Zefa !

Capeta tome galinha preta I Capeta, diabo brasileiro, quando dá a centena do macaco ? Quero quebrar banqueiro, capeta danado, pé-de-pato, dente-de-ouro, cheiro de enxôfre, tome galinha preta I Capeta, pé-de-pato, quero acertar com o bicho, quero comprar gravata, botina de bico fino, terno de casimira pra quando a Zefa me ver ! Capeta, pé-de-pato, tome galinha preta !

Capeta, pé-de-pato, dente-de-ouro, quero dente de ouro, quero capa de borracha, punho engomado, camisa, bengala castão de ouro, capeta, pé-de-pato, tome galinha preta I Quero saber suas partes, suas sabedorias, quero saber mandingas, capeta, pé-de-pato, tome galinha preta, que eu quero quebrar banqueiro, que eu quero tirar botija, que eu não quero trabalhar, que eu também sou brasileiro I

Capeta, tome galinha preta, que eu quero saber embolada, quero saber martelo, quero ser um cantador, capeta, quero dizer à Zefa essa quentura de amor ! Capeta, tome galinha preta, que eu quero casar com a Zefa. l'or Deus, que eu quero, capeta, pé-de-pato ! f orne galinha preta I

SANTA RITA DURÃO

DURÃO! que apelido bom para um caboclo pachola, caboclo de bagaceira ou cangaceiro do sertão, capaz de bancar Caramuru no bando de Lampião I

Mas teu Brasil, CARAMURU, não tem sertão, \ nem sul, nem norte, nem no teu mato f há catolé, oiticoró, cabaço de marimba, harbatimão !

Nas tuas roças não tem banana-samburá, não tem mandioca-gomo-roxo, não tem feijão mulatinho, não tem nada, Sêo Durão !

Nos teus caminhos não há malmequeres. flor-de-relógio, vassoura-de-botão, não há, Sêo Durão, essa florzinha espia-caminho que moça não pode ver !

As tuas semanas-santas não têm flôres-de-quaresma para alegrar Nossa Senhora que perdeu Nosso Senhor ! As tuas frutas são como essas frutas de cêra (enfeites de certas mesas).

As tuas caatingas não têm burras-leiteiras que dão leite, não têm pau-sangue que verte sangue, que nem cabocla, tôdas as luas, ·não têm peitinhos de jaracatiás, · não têm beijos de maracujás-de-estalo, não têm imbés chupando troncos de baraúnas tão grossas, tão pretas como pretas-minas !

E os teus quintais não têm, plantado num caco de panela, um pé de saudade roxa, pra o entêrro dos manezinhos que se não morressem (quem sabe, Sêo Durão?), poderiam ser cangaceiros do grupo de Lampião. E agora,

agora vão ser anjinhos pra glória de Deus ! Amém!

NOVOS POE."MAS 303

JOAQUINA MALUCA

JoAQUINA Maluca, você ficou lesa não sei por que foi ! Você tem um resto de graça menina, na bôca, nos peitos, não sei onde é ...

Joaquina Maluca, você ficou lesa. não é? Talvez pra não ver o que o mundo lhe faz. Você ficou lesa, não foi ? Talvez pra não ver o que o mundo lhe fêz. Joaquina Maluca, você foi bonita, não foi ? Você tem um resto de graça menina não sei onde é ...

Tão suja de vício, nem sabe o que o foi. Tão lesa, tão pura. tão limpa de culpa. nem sabe o que é !

OS CAVALINHOS

Os CAVALINHOS ficam nas noites de festa dentro das mil e uma noites . ~les rodam, rodam, rodam, marcam na terra o limite do mundo.

~les levam os mais belos guerreiros I

Que felizes guerreiros I As suas damas vão com êles à peleja !

E em vez dos cavalinhos irem pelo mundo, r o mundo é que vem rodar em tôrno dos cavalinhos. I O realejo toca. ( As damas estão alegres. ' Os cavaleiros riem. Poeta, para onde te levaram os teus corcéis ?

MINHA SOMBRA

DE MANHÃ a minha sombra com meu papagaio e o meu macaco começam a me arremedar. E quando eu saio a minha sombra vai comigo fazendo o que eu faço seguindo os meus passos. Depois é meio-dia. E a minha sombra fica do tamaninho de quando eu era menino. Depois é tardinha. E a minha sombra tão comprida brinca de pernas de pau. Minha sombra, eu só queria ter o humor que você tem, ter a sua meninice, ser igualzinho a você. E de noite quando escrevo. fazer como você faz, como eu fazia em criança : Minha sombra você põe a sua mão por baixo da minha mão, vai cobrindo o rascunho dos meus poemas sem saber ler e escrever.

NOVOS POEMAS 305

DOMINGO

"AMANHÃ É DOMINGO pede cachimbo. O galo monteiro pisou na areia. A areia é fina deu no sino. O sino é de prata deu na mata. A mata é valente deu no tenente. O tenente é mofino deu no menino. O menino é carolho furou teu ôlho." Ah I que saudades que eu tenho da aurora de minha vida I Ah I Casimiro, a aurora de minha vida foi um domingo bonito : Logo cedo o galo monteiro cantava no pátio e a aurora saía do canto do galo e o Zuza da Lica, tenente da guarda, de quepe nos olhos, botões areados, rondava fumando a casa da Aurora I (Aurora Carvalho - cunhada do padre I) O sino da igreja chamava pra missa. A areia era fina nos pés sem sapatos. E a gente trepava na tôrre da igreja e o sino da igreja cantava tão alto que o galo monteiro olhava de baixo ciscando na areia com inveja do sino, e a mata escutava o canto de prata. Somente o tenente ficava danado, subia na tôrre atrás do menino I Os olhos carolhos olhavam de cima : Tenente mofino! Tenente mofino!

"Amanhã é domingo pede cachimbo. O galo montês pisou na areia. A areia é fina deu no sino.

)()6 JORGE DE LIMA i ORRA COMPLETA I VOLUMf I ~ ...

' O sino é de prata deu na mata. A mata é valente deu no tenente. O tenente é mofino deu no menino. I O menino é carolho furou teu ôlho."

FLOS SANCTORUM

SANTA BÁRBARA que nos livra do corisco. São Bento que cura mordida de cobra, São Gonçalo casador. São Jorge que me cedeu o seu nome pra meu pai me batizar, que escolheu o seu dia pra eu chegar nesse mundo, que só não me deu seu cavalo porque o pobre do bichinho não podia descer da lua ! Pulei tanta tacha de engenho, passei tanta correnteza, conheci tanto perau fundo !

E você, meu anjo-da-guarda, nunca me disse seu nome, pra cu fa1.er um poeminha pra você !

LOUVADO

LouvADO seja N. S. Jesus Cristo e a Mãe d'E.le - Nossa Senhora, minha madrinha. Louvado seja o que é d'E.le c d'E.le vem : ritos, amitos, benuítos, são beneditos !

Louvadas sejam suas palavras tão bonitas : Gloria Patri, Aleluia, salve-rainha

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