Poemas Escolhidos - bloco 02 (p. 333-338) Obra Completa, Volume I · Capítulo 16 de 90
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Poemas Escolhidos - bloco 02 (p. 333-338)

I'! 1/;M ..tS ESCOLHIDOS 333

se não há pássaros no meu parque, pode ser, se o vento não soprar forte, que venham borboletas. Tudo é relativo e incerto no mundo. Também tuas sobrancelhas parecem asas abertas.

MULHER PROLETARIA

MULHER PROLETÁRIA - única fábrica que o operário tem, (fábrica de filhos) tu na tua superprodução de máquina humana forneces anjos para o Senhor Jesus, forneces braços para o senhor burguês. Mulher proletária, o operário, teu proprietário há de ver, há de ver: a tua produção, a tua superprodução, ao contrário das máquinas burgul''\as salvar teu proprietário.

FELICIDADE

I ,\o BONirA a Lagoa Mundaú! I 'u vi os meninos pobres que i:1m tirar sururu. Um bando dêles. Uns tinham Jozc ou ln:ze ano~ c p

Comer terra! Quando a bala vermelhinha côr úe telha toca (' [na língua a bôca se enche dágua para a bala se embeber. • Os meninos amarelos têm água por demais na bôca. Gôsto de terra não é gôsto de comida, de sal. úe açúcar, j [de carne. É gôsto diferente. De terra! É um gôsto doente 1 [como gôsto de maleita. Também quem não tem maleita não sabe tirar sururu com gôsto. O frio ua maleita não se importa com sol nem com chuva nem [com o frio lJUC está por fora da gente. no ar. É um frio que vem de dentro . Dá-se a mão c a mão está com 40. t\las o frio é bom por.:fUC [é diferente dos outros frios. Os meninos que vão tir:1r sururu têm O!'> olhos sumiúos. :Vfãe-maleita úorme com eles no jirau úe pau-cundu. Mãe-ma- licita dá-lhes sonhos úe febre. Os meninos sonham coisas doidas. Que uma inglesinha que [passou uma vez numa lancha-automóvel veio urinar no [massapê. Eles sentem o gósto da inglcsinha. sonhando com o gôsto do [massapê mijado. Têm outros sonhos. todos gostosos. Os meninos tiram sururu com gôsto. Ao meio dia o sol tine. LA água está morna e suja. Ali pertinho já é a lama do sururu. Que gôsto pisar na lama! É diferente de pisar nas praias. na neve, na grama. Os pés dos meninos têm sensibilidades inéditas. A lama abarca [o pé, entra entre os dedos, mais grossa do que baba de [boi, gruda-se na pele. úá uma coceira boa nas frieiras. Os meninos entram mais. A lama sobe. É uma carícia pega- [nhenta pelo corpo. As mãos descem na lama. As canoas afundam de sururu. O sol [está tinindo, mas ninguém sente calor. Tuúo é bom. A miséria é boa. A lama é amorosa. Parece que [a vida é uma feitiçaria de sonho de maleita.

I'OEI\IA DO NADADOR

A ..\ou.\ é falsa. a água é boa. Na da, nadador! - A água é mansa. a água é úoida,

l'ti/·.MA5 f..'SCOLHIDO S

aqUI c fria. ali é morna. a água é fêmea. Nada. nadador! A água sohc. a água desce. a água é mansa. a água é doida. Nada. nadador! A água te lambe. a água te abraça a água te leva. a água te mata . Nada, nadador! Senão. que restará de ti. nadador? Nada, nadador.

POEMA À IRMÃ

Ó IRMÃ, agora que a!> noites vêm cedo c paira por tudo uma tristeza enorme c o silêncio é tão longo que os cães enlouquecem nas ruas, irmã. vem me relembrar que crescemos juntos quando os dias eram compridos c diferentes. Irmã, se tu sabes signos para mudar o tempo, vem.

Vem que eu quero fugir para outras paragens onde as gaivotas sejam menos inúteis c haja um coração em cada pôrto: c os pássaros do mar tão lavados e tão alvos c tão lentos e tão sabedores de viagens venham esvoaçar sôbre o meu cachimbo em que os cometas do céu se apagaram. Irmã. nos meus ritmos há colegas que gritam : Daubler, Ehrenstcin. Stramm, suicidas.

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336 JORGE DE LIMA i OBRA COMPJ-F:T A I 11 0LUME I

vagabundos, crianças. operários, leprosos e prostitutas que se lembram ainda de suas orações familiares.

Há não sei onde outros ares e outras serras. outros limites, adeus irmã. ú que noite longa, ú que noite tão longa ! Que é que chora lá fora ? - A humanidade ou qualquer fonte ?

POEMA À BEM-AMADA

AMADA, não penses, escutemos a chuva que o inverno chegou. Sejamos as árvores que Deus semeou sem nunca O ouvir, sem nunca O olhar serenos, morramos sem nos separar.

Renunciemos, amada, os vãos pensamentos. cumpramos apenas a lei do Senhor sem nunca O ouvir, sem nunca O tocar. sem nunca duvidar, duvidar, duvidar.

Soframos, amada, sem nos lamentar. Sejamos as árvores que Deuo; esqueceu. que o vento abalou c o raio abateu.

Amada ! Amada ! Rem-aventurado qt1ern .iá morreu. Escutemos a chuva. que a chuva é de Deus !

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/'fii.'MAS ESCOLHIDOS 337

POEMA A MARCEL PROUST

Ó MON PE.TIT Proust, hoje o teu rosto de lua dêsse quadro bonito de Jacques Emile Blanche; o teu rosto de flor noturna se apagou, mon petit, e dentro de mim voltou, o sertão, o sertão, o sertão, pois, mon petit, no meu país as polícias passaram c Lampião ficou; os governadores passaram, os congressos, os chefes políticos, os exércitos, as repúblicas, as revoluções, os grandes generais passaram e Lampião ficou. A nova poesia brasileira passou e Lampião ficou iluminando tudo mais que teu rosto de lua que Jacques Emile Blanche compôs.

:e preciso ver : Lampião é eterno e é preciso crer na opinião da Europa : Lampião tira dos ricos para dar aos pobre!'. f.. preciso crer nas orações fortes. ê preciso crer em Lampião.

Mon petit Proust, - sai do teu salão, vem ver o meu luar : não há no mundo luar como êste do sertão.

JORGE m; LIMA OHRA COMPl.ElA VOLUME I

VOLlA À CASA PATERNA I É TARDE e eu quero entrar em casa. que a noite vem aí. cheia dos seus espantos. A luz foi intensa, o dia foi cálido, o ritmo das horas é monótono e irreal. As danças do pátio, as paisagens de fora. os caminhantes são falsos. Os caminhos são errados. Os ritmos são errados. Os poemas são outros. A noite aí vem cheia dos seus espantos. Há uma rêde aqui dentro que me embalou. Há na parede da sala uma estampa sagrada que por mim chorou. Há um raio de lua no corredor. Será a alma de meu pai que Deus mandou ?

Casa. doce casa sem elevador. cadê o Ford que me levou ?

Há sombras que passam. fantasmas que vão. que vêm, que choram. que riem. que me beijam ... Há um livro aberto na minha mesa :

Padre Nosso que e~tás no céu. ~antificado. vem a nós. . . assim na tcrnt ...

POEMA A PÁTRIA

Ú GRANDE PAÍS. tu aderiste também. Teus urubus são inquietados nos teus ares altíssimos pelos aviões. Nos teus céus os anjos já não podem solfej:u.

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