A Túnica Inconsútil - bloco 08 (p. 481-488) Obra Completa, Volume I · Capítulo 27 de 90
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A Túnica Inconsútil - bloco 08 (p. 481-488)

I /IIV/CA INCONSOTJL 41!1

1• perto do palácio do Rei havia n templo pnra tentar a soberba do Rei. I! em tôdas estas terras alheias 11 Rei se substituiu como dono. romo cspôso e como deus. I 1 era no tempo em que os reis eram muitos 11 o Senhor praticava experiências nos Reis para Yeu povo.

O NECESSARIO AUXfLJO NA GUERRA

SI'NIIOR! eu nunca inventei arma de guerrear ou de sacrificar [ninguém uu de derramar o sangue de meu próximo. ma~ se aparecer o gigante que tem seis dedos em cada mão "' cuja lança é como um cilindro de tear, t•nsina-me astúcias para guerrear; L' se depois de abater em defesa do espírito criado, nquela montanha de matéria animada, dc~cer da colina o segundo golias que tem seis côvados e um [palmo de altura 1 cuja lança pesa seiscentos siclos de ferro: c desafiar os meus iguais no espírito 1lurante quarenta dias e quarenta noites para unta luta singular. ~•·rei forte se me deres uma pedra e mão certeira, para que ao [cair da tarde, eu entregue às aves do céu c aos animais da terra, 11 cabeça que ameaçou teus filhos. meus irmãos. 11. se com o teu auxílio eu vencer o segundo gigante: I' então o terceiro que é fornecido pelos deuses pagãos, pelos bezerros de ouro e pelos ídolos sanguinários da guerra, descer dos montes para me esmagar, (I Deus dos exércitos, fornece-me armas que o meu arsenal [és Tu!

JORGE J)f: U\IA , OlJRA COMPLETA VOLU,\·11-: I

CERJM(')NJA DO LAVA-MAOS

l!s POR ACASO um dêstes homens que inventaram canhões lllguma metralhadon1 ou guilhotina ou máquina de [sangue'! Se és, vem que te lavarei as mãos. Se és por acaso um dêstes homens que empilham ,Jinhciro tiram da hôca faminta o pão escas!lo ou descobrem a [friorenta, vem que te lavarei as mãos. Se és por acaso um dêstes homens que puxam a corda da ou manejam as molas das cadeiras elétricas ou branJem as [chadinhas das execuções. vem que te lavarei as mãos. Se és por acaso um dêstes homens que têm &arras no~ mf•mll\rn c o sangue de Abel inda fresco entre os dedos, [lavarei as mãos.

O DIREITO DA PRIMOOENlTURA E O DIREITO DOS NOVOS PATRIARCAS

RECENSEEI tuas tribos 4ue se contam aos milhares, mas Te abandonaram. Recenscd teus primogênitos que são mais numerosos •Juc no (po de Moisés e Je Aarão, mas não Te pertencem mais; pois os pais. em favor déste primogênito matam a do nascimento tal como é preceito junto aos deuse~ E eis que os primogênitos assim feitos unigênitos não são tua semelhança, Pai numeroso, ma~ continu::.rão u matança d;,~ prok t'm favor do [Bezerro de Ouro_

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''''irn pois recenseei tuas tribo~ c recenseei teus promogénito~ I' :rmho~ não Te pertencem mais. s,. os patriarcas vivem na mais negra miséria. s~·· o' patriarcas trabalham e suam para ganhar o pão. I' rrunca lhe dão lugar junto ao Teu Tabernáculo. I I holocausto dos outros é contra tua Lei. Senhor! O unigênito do:. outros não é semelhante ao Teu! Mo~tru aos patriarcas Tua Face. de novo. par01 que êles Te reconheçam r verifiquem que estão mais perto de Ti. de~ se levantarão 1· 1dnarão, Senhor!

ESTRANGEIRO. ESTRANGEIRO

1.11 ·INDO os ASSÍRIOS acabaram de hrigar l'lllll o~ caldcus cnter- [raram os mortos; 1· outros povos começaram a brigar pela pos:-;e da terra: ma~ antes do dia findar. filisteus. hebrcus. persas, gregos, anali. I romanos, ~rfricanos, russos, espanhóis, chineses. japoneses. lu i~aram. brigaram, brigaram. I houve paz para enterrar os morto~. I nem o Sinédrio. nem os Conselhos. nem a Liga 1las Naçõ~. llllda fizeram. nada resolven1m. nada adiotntaram. I houve paz para enterrar as liga!i. I rebentaram na carcaça velha do mundo cinqlicnta rcvoluçõe~ I simultâneas pura salvar o homem c garantir a paz. I deram inúmeros prêmios nóbeis a vanos chancclcre~. e. can- l taram hinos a várias democracias. 11 ,.,írios grandes condutores: I' ,,, polícias continuaram a espancar os sonhadores;

1' , ' ' generais ganharam grandes soldos para defender a!i pátria~. 1· houve bombas em várias partes do globo:

,. ainua ontem. num morro do mundo, ,, l'ísica devorou várias môças. ,. "' vermes continuam a se alimentar de crianças órfãs: '"'"'· pobres. moços c velhos se enforcaram nas árvores.

484 JORGE Df; UMA , OHHA COMPI.I>TA 1 I'OLV/If/, I

A massa tem fome, o uivo da humanidade é mais doloroso [de noite. A superfície da terra continua do tamanho de uma cova. Estrangeiro que passais, sois tão novo e sois tão velho quanto eu sou. A mesma inquietação e a mesma decepção nos arrazam os Estrangeiro que passais, quantas vêzes o chão que pisamos . [mudou? O senhor comissário já nos deu licença de olhar as nuvens e aspirar a brisa de Deus? E para olhar o próximo eclipse arranjaremos [chefe? Estrangeiro amigo. escrevamos para os a história eterna do homem decaído c Estrangeiro, vós me estendeis vossos braços e somos [ velhos amigos passeando no cais. e olhando no mar, - a vela, a asa, a onda e as coisas fugitivae Estrangeiro, estrangeiro, as nossas nações. apesar de nossa [ zade. continuam isoladas e inimigas como em Mesopotâmia; e ainda há entre elas raças irreconciliáveis. Estrangeiro, estrangeiro. eu sou dos vossos. E, se quereis ser dos meus, aceitai que só a Igreja de Cristo - mais forte que a lei de continua a enterrar os mortos neste planêta errado.

RECEBE AS DA DIVAS DOS FILHOS PRODIGOS PARA AI.BER'rO OI' SF.III'A

VÊ SE o HOMEM ímpio quer dar um sino para a e a mulher mais devassa quer dar o dízimo do vicio para as lajes do chão; vê se o grande fornecedor quer dar o vinho para o sacrifíci,,: quando os que exaltam o Senhor cantarem os louvores de seu [ministério. us trombetas dos filhos pródigos ecoarão lá dentro como seu [saltério.

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OS TREZE DIAS A CAMINHO DO DESERTO

I PARA ADOLFO CASAIS MONTEIRO

A ~ABELEIRA das nebulosas havia embranquecido, lil'nhuma estrêla temporária existia mais no catálogo geral das [ constelações, uma compreensão unânime envolvia a terra, do Oriente ao Oci- [ dente. Fntão, no deserto. onde nunca medrara semente. nasceram flôres nunca vistas que as Virtudes 1111 as Potestades haviam semeado . I:, como o perfume e o pólen fôssem trazidos pelo vento 1olé aos povos das praias do mar; no primeiro dia, ns abelhas e os besouros dourados tinham emigrado para Já; c no segundo, os beija-flôres transportaram seus ninhos a ca- l minho do deserto; c, no terceiro, pastôres, magos e jardineiros se juntaram, l'. no quarto e no quinto o cortejo era imenso e mais numeroso [que as estrêlas do céu; c vinham nêle mulheres de cabelo sôlto e de seios fecundos, l' outras já fecundadas que iam, a fim de seus meninos nasce- [ rem puros sob o pólen sagrado; l' iam milhares de virgens que tinham sentido de longe n presença das flôres, e queriam dormir junto delas para acor- [ dar mais lindas; 11 hálito da grande massa era tão poderoso que produzia as [ marés, a oscilação das palmas e o afago das brisas; l' quando chegava sôbre as bordas do mar. as ondas se entrea- [briam e o cortejo passava; no sexto dia, a terra se fendeu e milhões de cabeças decepadas [ se encorporaram ao desfile; l' essas cabeças que tinham sido de grandes alucinados e de grandes precursores conservaram adiante delas visões nunca [ vistas e muitas coisas que apenas começavam a nascer;

486 JORGE DE LIMA ORR.f < 0.11rii1.1 VOU'Mf I

c depois das cabeças vinha a nação do~ videntes, dt>\ tocante• [e dos ouvintes vendo, ouvindo c tocando sêres que não vemos. gritos que se interromperam desde as primeiras gerações (pensamentos que se envolveram de nuvens: girândolas distribuíam mensagens c alimento aos homens de [vontade, grandes águias esvoaçavam sôbrc a procissão [donzelas ou espalmando as asas para dar sombra aos cansados; no sétimo dia, o cortejo passou através das grandes [ e meninas de tranças se juntaram aos nossos. cantando e dançando sob um belo arco-íris: e no oitavo dia. grandes máquinas redimidas de crimes [ foram cúmplices dos homens, automàticamente rodavam cobertas de flôres. obedientes c muitos perfumistas envergonhados c orgulhosos ingeriam ( nos de plantas; c serpentes verdes dos bosques virgens c das águas nunca (cobertas, enrolavam as cintas das donzelas ou lhes ( vam os tornozelos c os pescoços a fim de , ___ ..... ....., [para o deserto; e no nono dia. hortelões plantadores de mirra e cinamomo, e fabricantes de bálsamos sagrado~ nos buscaram tão ávidos que não viram o rei que [em seu trono. porque tôdas as mulheres c favoritas e donzéis c eunucos c môças do harém tinham ido conosco com seus cande.:iros c suas alfaias: e muitos generais ficaram sem comando porque as tropas os abandonaram pelo grande cortejo: ao menor aceno dos condutores de tribos. codornizes e outros manjares baixavam sôbre a multidão. E não havia nenhum tempo de armar tendas. e acampar o varão com sua amada. pois ao segundo toque de trombeta as noites se dissipavam c as profecius eram acessíveis a todos; no décimo dia, ordenamos que poços se abrissem junto dos lábios de todos os sedentos. e que viessem os náufragos aumentar o cortejo; e no undécimo: "vinde pássaros cantar nas nossas madrugadas,

I I u.Vf(A INCONS(/1"1/. 41:7

I' ol)llll(CJll·Se aS águas-mães C Separem-~e de nOVO 1111, :íguas do dilúvio e nos acompanhem também para o deserto!·· •• no duodécimo, viu Deus que tudo era bom; • no décimo terceiro tôda a infinita multidão divisou. 1111 \ubir a montanha donde se avista o deserto, . 1111c o poeta ia na frente, conduzindo o seu povo. I' i1 sombra das grandes flôres, ~~~ homens cresceram e se multiplicaram; I' 11 resto do mundo era vazio e vão " era corno o antigo deserto.

A CURA DO HOMHJ POSSESSO PARA Jud Rl!tíhJ

Ih CORTEJOS qui! muita~> vêzes ucompanharam o poeta e o louvaram foram muitos; ,. muitos foram os que o apedrejaram. Num Domingo de Ramos êle se pôs a andar, c logo os homens jogavam sob seus pés 11\ livros que haviam escrito; ,. muitos desenrolaram sábias obras que abrangiam os tempo-. ,. muitos espalharam as fôlhas de vastos h•mos sob suas plantas; mil ras tribos vieram para louvá-lo. ,. jogavam em seu caminho coisas de seus próprios sêres: mulheres depositaram - cabeleiras inteiras 1' longos cílios e perfumadas trançlls 1' véus que tinham adejado nas faccs c mantos i.!UC lhes havi::ml l apertado as ancas. Vicr:un cordeiros sacudir a lã sôbrc o seu caminho 1' muitos sên:s alados se despojaram de suas penas ,~··hrc o leito da estrada; j11has inteiras e crinas atapetavam o caminho, c os derradeiros reis estenderam os mantos para êle pisar; 1111 declínio da tarde milhares de môça~ l'icram cantar, ,. :1\ vo1.es atapetaram o chão pe~r.t o poeta passar;

c jovens cantores entoaram hinos em louvor do poeta e as notas eram macias para o poeta pisar; então sob o crepúsculo, homens inquietos retiraram de si vísceras cheias de instintos para o poeta c dos países de sol jovens casais negros vieram com suas danças que animaram o caminho para o poeta pisar; e alucinados despencaram os braços que deixavam na estrada para o poeta pisar; grandes guerreiros deceparam as orelhas, mas o poeta as repunha para que todos ouvissem o que ia falar. Afinal nada havia para o poeta pisar que a poeira dos [ em que tudo será; e o poeta persistia sôbre a poeira dos ossos em que tudo Mas já antes da noite apareceu um possesso que vinha de Cafarnaum com setenta demônios; e era aleijado e corrompido e coberto de cobras. e dava saltos tão grandes que iam de um pólo a outro, e dava urros tão fortes que estremeciam o mar; e vendo o poeta estacou no caminho; e a única alma boa que restava nêle, conseguiu exclamar entre as vozes contrárias: ensinai-me poesia que eu vos quero louvar! E o poeta: - Não é preciso que me louves; o que é preciso é que creias! E imediatamente o possesso se transformou no companheiro mais belo para o acompanhar.

INVOCAÇÃO A ISRAEL

IsRAEL, povo da escolha de Deus, fonte da grande poesia, da grande inquietação, da grande tragédia, povo de eterno exílio e de [nhada, que representas o passado, o presente e o futuro a quem nós gentios devemos a poesia que continuará; eu te convoco, carne e sangue do Messias ressurrecto

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