Anunciação e Encontro de Mira-Celi - bloco 01 (p. 501-508)
NOTA PRELIMINAR $
JOROI! DI! LIMA
llc 110 DIFICULDADE de explicar à projessôra americana a vidtl c/c· IIJira-Celi. A vida, a origem, os jogos, o conhecimento dela. 111do inexplicável. Ainda menino, encomramo-nos durante uma •olll'{llescença, depois em outras, em outras depois, em mo- '"'' li/os que não posso precisar. Em aulas de leitura virando t•cigillas de Felisberto de Carvalho, ao pedir-me explicações de l"''!:lllltas finais, l'Í-a debruçada sôbre mim com 1ms olhos tão /ongí11quos que pareciam vir de eternidade. Mas quando a pro- /nltira ordenou que ela fôsse ao quadro negro, desapareceu m1 lo11111 escura, sem nenhum desapontamento para a classe. Po- 11111, eu continuo a procurá-la dentro da noite, ou, melhor. cl/llll'és das janelas que se debruçam sôbre a noite. Por vêze.v. "'"''''ulo constelações, ela aparece desgarrada, ainda úmida das ,,.,:.\. noturnas; e são os seus cabelos longos e molhados de: c1lgn~ que eu conservo entre as mãos, mesmo quando escre,•o; ,. nc·cessário afastar os longos fios espalhados no papel, arras- li/do.\' no bico da pena, cobrindo a tinta mortal. Certa vez o olihil•io já havia atingido a altura da minha janela quando ela IPI huscar os meus óculos, contra a proibição do meu horóscopo, •/111' assegura: "hás de encontrá-la sempre na vida, mas sem whacs quando ela chel!a ou se vai". l'mdo o guarda-chuva à dobra do braço, ela me reconheceu: ru f.s louco, saíres de noite com um dilúvio dêstes! :I 11: a minha morte conservei esta advertência, mesmo entre: ''""' ou mais experiências de ''física para divertimento" ou "''"''c' das lâmpadas noturnas povoadas de insetos. ' Publicado em Vamos Ler!, Rio de Janeiro, 16 março 1943, sob o ''''"" "Explicação de Mira-Celi."
.IOJU;J. OF /.i 1/-f 0/l/U CO.\II'LfJ.-1 I"U/.U,\1/ I
Numa tla1 ríltiiiWI noite.\· do século tínhamo.~ certe:.a de t/fll • mundo ia acerba r dem r o duma hom no mâximo; 1·imos mes11111 algumas can·utr!fens atrasadas travarem as rodas rws esquinUI/ llll.\" praçm êrmas desfilm•am inúmeras tmtlheres de prêro, cochl• t·hando. Ela nu• dis.\·,·: "Tudo rt•começará; stio apenm parricida.\· ""' foram desterrados pam não criar prect•demes". Ntio procuremos exegt'St'S a muitlls r
DE MIRA- CELI
11 INESPEllADO ser começou a desenrolar as suas faixas em que l'~tava escrita a história da criação passada c futura. Retirou a sua imensa cabeça de dentro da tôrre, sob o es- trondo das muralhas desabadas com o seu gesto. A estreita porta abriu-se reverente para êle passar. O pátio interior espraiou-se como um lago. e as colunas l'lnnas que sustentavam as abóbadas c;ubstituíram os seus braços o.• a' suas pernas. Fntretanto, êle continuava incluso na eternidade. Nos blo- o'll\ retangulares de suas órbitas estavam encerradas inúmeras ~~··rações. l'ra tão velho que morava dentro da morte. Fra tão jovem que inscrevera no seu peito de pedra o nome olt· várias mulheres. Dentro dos aquedutos que irrigavam os jardins suspensos o·m suas frentes haviam navegado muitos povos experientes. Acharam a sua carne tão áspera como a sua solidão. Tendo selecionado algumas presenças. pôde expulsar várias rnínhas tombadas em seu pórtico. Caíra de qualquer dinastia: " hálito quente do deserto ainda corria sôbre os seus lábios f'll'lados. O inesperado ser tinha taras humanas; mas a sua rota se dtrigia às Três Pessoas Eternas e Unas no imenso Deus que o rt•(obrira com esta aparência. Senhor, o meu corpo é genérico; e por que me crucificam? Falava e pensava a sós como um louco. A abundância de faces que se sucediam ininterruptamente o•m sua cabeça criou a lenda de que êle era mágico; mas seu llt\lo permanecia absolutamente infantil; o rosto dos outros ho- mens é que se movia com premeditada desigualdade; muitos de seus companheiros se fantasiaram de anões para desapontá-lo; inúmeros se metamorfosearam em deuses secundários. em coisas t''llanques, em manequins, em pássaros empalhados.
506 JOR(if: DI·: UMA I JIJ/?.~ COMPLETA VOLUMI I
Pretenderam descohrir a sua tumha. e não conseguiram: i•l1• ii.!> vêzes SI! declarava morto. porque :1 morte era apenas 1111111 continuação. Contudo. desenterraram milhares de rC encontrava nela. Que nome mais antigo qu1· u seu c da mus;~ saída de si'! O horror all cspa.;o c à tragmcntação llbrigOLHl a encher n planície de coluna-; c~1111 :ts insigni;ts de seus :uuigo' c d.: ~•perll rios que com êlc truhalhavam. Olhai utentamcnte os espelhos. que os verá; lá dcntw. E se vcd~·s guerras. ~iio scmpr..: cenus bélica' CLllllra gril•" vigil~lllh!s ou ~Oitâmhulos. Entrct;tnto. aparecem outros tema-; ma i' determinados: ~li•• :ts faces do Pai sob os mais vário~ signos; mas tôdas o:stas f:1t:l'' \,io um~1. ~ob distribuição tripartite. O ine,pcrado ser luta pelo~ seth irmãos acossados l' :m1a •• magnitude do perigo. As suas flcchas já atr:l\·e..,sam os cora~·~-,c... 'uperpo,to, ~~~· um pelotão 1lc dcmónillS. E se ne~'a luta êle se lkdara morto. é 4u.: a mütlc lhe d;i maior panor~tma du vida. Ego dvrmil·i. ,·r .wpon/1 11\ wm: omiti/li H/.I'Cepit lllt'. lllltmina oc!1/o1 IIIC' t!IU/t.
I ' I ' 1 I 1(.~"(1 F E. \ ( (} .' I R. n fi r \f/ R A -C E/_/
11 i"· t' Mira-Celi. a repercutida c o laitmotivo lflll" 01parccc ao longo de meu poema. Ni·k c~tás construída à semelhança de um imenegundo, l'lltério. I "' olhos que perpassarem atravé~ de tantos poema~ que nlio liuolam c que se transformam de momento a momento. 11o1u compreenderão o movimento perpétuo , '" que nos persegui mas c no~ superpomo". llrrtr ors vêzes ainda, as minhas mãos são um disfarce uc ti. I"'' rn·cndo tua história ou me ~ustcntando a face. 11r.1 pareces marcha nupcial: és. no entanto, elegia. t h .1 és sacerdotisa, musa, louca, pastôrn ou apenas ave. I kr-lc diversos nomes, para que ninguém te acompanhe. '\uuncio que morreste. para que ninguém te convide. 1)11,1\C sempre te transformo. para te distribuir. I quando me resta uma única migalha. rcconstituo-te como uma [catcdnd ' .dimcnto-tc CllnlO uma criancinha.
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Figuramos no mapa como um sol gêmeo que num perpétuo cciiJ* desse a impressão de um só núcleo. Gravidades estranhas nos atraem; sombras tutelares protoalll a nossa rotação, em que tudo são coincidências de duas asas nu• [corpo. Algum sacerdote antigo já nos tinha visto, por acaso, uma noll.. c morreu sem nos decifrar, pois não voltamos ainda nem à primeira página, nem à primeira estrofe do imenso e misterioso poema sempre por terminar.
HÁ NECESSIDADE de tua vinda, Mira-Celi: Milhares de ventres virginais te esperam através de séculos e séculos de insônia! Basta de te entremostrares: Nós já te pressentimos demais em certos momentos de mistério ou sob algumas aparências obscuras. Há lábios entreabertos esperando: São os meus irmãos, a quem anunciei que tu virias. Há palavras de fogo. semi-apagadas; há janelas desertas, já fechadas; há ausências inexplicáveis. gestos mortos: há lagos estagnados sob gritos de luto. Quando vieres, as árvores ôcas darão flôres, e teu esplendor acenderá pela noite dormente os olhos entreabertos dos semblantes amados.
Os GRANDES poemas ainda permanecem inéditos, e as grandes palavras dormem nas línguas sêcas . Foram ouvidas apenas algumas lamentações; mas precisamos de blasfêmias que entremeçam o Cristo, e de delírios da mais incruenta febre ou então de gestos humildes que arranquem uma clemência delo.