Poemas - bloco 06 (p. 265-272) Obra Completa, Volume I · Capítulo 10 de 90
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Poemas - bloco 06 (p. 265-272)

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feiras, cegos cantando, gado pastando nos cercados, bodes pulando pelos morros, ovelhas descendo as encostas, potros correndo danados. Passam engenhos pitorescos, meu Debret : o Bandarra, o Mata-boi, o Cajuípe, o Papa-Ovelha, passam tangedores de gado, vaqueiros entoando o aboiado, canoeiros recolhendo os traquetes que o Imperador achou bonitos. E são bonitos, Debret. E é coragem meu amigo vê-los enfrentar os sorvedouros, correntezas, sarambiras recortadas de ventos. Na pedra do Mateus naufragou o Irênio que vinha praguejando contra Frei Doroteu. Correnteza do Boqueirão, Engenho do Brejo Grande, aningas, arrozais, garças, jaçanãs que emigram, mulheres que vão de canoa ouvir o têrço em Vila Nova. A canoa vai na zinga : a coringa molhada, os laises das retrancas bem seguros, c o canoeiro se lembrou de cantar uma modinha. A noite os vaga-lumes acendem luzes no mato, vagam fogos corredores, e nas noites de luar a lua bóia nas águas ... J aciobá - espelho da lua, por que te chamam Pão de Açúcar ?

I~ o rio desce. I·: um dia os riachos, as torrentes, a~ nuvens,

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os outros rios vêm visitar o rio Opara. E êle para receber tôdas as águas, arreda as gentes das margens, cresce, corre rugindo nas pedras. E o povo treme de febre e êle entra doido no mar. Mas um dia, um dia enfim deixa de chover no Piauí, não chove no Ceará, os ventos não correm embaixo, vão correr junto do sol. O bafo da terra queima, as nuvens se vão embora, e a sêca devora tudo, devora as fôlhas e o gado, tira a camisa do pobre, vende a honra das donzelas. "S a Sêca I - "Senhor! dai-me que comer I Senhor, secou na terra a última raiz de mucunã, e eu sou capaz de assar os meus filhos para comer I" - "Senhor ! O vosso sol secou a minha língua, comeu as minhas entranhas, esquentou a concupiscência dos ricos contra as minhas filhas donzelas I E o rio de São Francisco como o próprio São Francisco de Assis não consente que se zombe do irmão sol, dos irmãos lôbos da cidade. Tenho aqui água fresca, tenho aqui algum peixe, meus irmãos, tenho para os vossos bichos um restinho de ervas no surrão. E dá-lhes água e dá-lhes o pão do umbuzeiro, caroás, gravatás e cajuís. Dá-lhes o peixe das parábolas, mandins, curumatás,

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surubins. E o gado come quipás, xique-xiques, mandacarus. E o caboclo retempera as entranhas queimadas com o refresco da jurema. E o rio desce. E volta o tempo da fartura. E o homem esquece ... E refloresce outra vez a alma do sertão : Romarias a Nossa Senhora dos Prazeres, pescarias a caceia pelas praias das coroas, a acauã canta nas grotas, a ema corre nas catingas e capoeiras e o homem delira outra vez a nevrose dos sertões. Frei Doroteu renasce, o Conselheiro reaparece, e o povo volta de novo a tomar bênção ao Padre Cícero. E o rio, o grande rio como a alma do sertão desce de Paulo Afonso com sete ataques de doido, e ruge, e espuma, e bate e dorme lá embaixo

E o cearense desceu com uma turbina na mão. Delmiro viu que o rio era o monge de Assis, c viu que era preciso descruzar outra vez os braços do ';•nlinho. E os braços edüicaram a caatinga, iluminaram os capões, c quando o mestiço inspirado pelo santo ia fazer o milagre da multiplicação e salvar o Nordeste e remir o sertão, •• trabuco do irmão lôbo calou o grito da raça. flfi1·erere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam.

BONECA DE PANO

BoNECA de pano dos olhos de conta, vestido de chita, cabelo de fita, cheinha de lã . De dia, de noite, os olhos abertos, olhando os bonecos que sabem marchar, calungas de mola que sabem pular . Boneca de pano que cai: não se quebra, que custa um tostão . Boneca de pano das meninas infelizes que são guias de aleijados, que apanham pontas de cigarro, que mendigam nas esquinas, coitadas! Boneca de pano de rosto parado como essas meninas . Boneca sujinha, cheinha de lã. - Os olhos de conta caíram. Ceguinha rolou na sarjeta. O homem do lixo a levou, coberta de lama, nuinha, como quis Nosso Senhor.

PAI JOÃO

PAI JoÃo secou como um pau sem raiz. Pai João vai morrer. Pai João remou nas canoas. - Cavou a terra . Fêz brotar do chão a esmeralda Das fôlhas - café, cana, algodão . Pai João cavou mais esmeraldas Que Pais Leme.

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A filha de Pai João tinha um peito de Turina para os filhos de ioiô mamar: Quando o peito secou a filha de Pai João Também secou agarrada num Ferro de engomar. A pele de Pai João ficou na ponta Dos chicotes. A fôrça de Pai João ficou no cabo Da enxada e da foice. A mulher de Pai João o branco A roubou para fazer mucamas. O sangue de Pai João se sumiu no sangue bom Como um torrão de açúcar bruto Numa panela de leite. - Pai João foi cavalo pra os filhos do ioiô montar. Pai João sabia histórias tão bonitas que Davam vontade de chorar.

Pai João vai morrer. Há uma noite Já fora como a pele de Pai João. Nem uma estrêla no céu. Parece até mandinga de Pai João.

SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS

SANTA Teresinha. Santinha que ris só para alegrar Nosso Senhor. Ele te vê do Crucifixo que tu tens . e te vendo Teresa tão nova e bonitinha êle se lembra de quando era também menino e andava nos braços das Nossas Senhoras de todos os altares do Brasil! Menino Jesus das Vitória~, nuzinho com a bola do mundo aos pés, sua bola de borracha, seu brinquedo mais querido.

Menino Jesus das Lapinhas, entre reis, burrinhos e pastôres de papelão e casinhas trepadas nas colinas como os sobrados da Bahia. Menino Jesus dos presepes e dos pastoris, menino Jesus do tempo em que Santo Antônio foi soldado português, Menino Jesus! - O menino mais branco que S. Benedito já viu, menino loirinho que passou carvão no rosto, menino da Aparecida que quis ser moreninho pra contentar os meninos mulatinhos! Menino Jesus nacional dos santuários coloniais das senhoras de Engenho do Nordeste! Menino Jesus que nasceu com a minha Terra, que tem coroa de prata, da velha prata do Pôrto, que tem vestido de cetim com bordados de retrós! Menino Jesus! Menino Jesus, homem já feito pregado na cruz que Tercsinha cobre de rosas, cobre de risos . Santa Teresinha, Santinha que ris só para alegrar Nosso Senhor, que fazes florescer o lenho da cruz, os cravos, a coroa de espinhos de Jesus, e fazes de cada chaga uma flor, que fazes de Jesus um rosall E a Santinha ri. E nos joelhos de Cristo nascem rosas, nos pés, nas mãos, por todo o Corpo, a Santinha faz brotar rosas

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raras rosas milagrosas, rosas pretas, rosas de sangue talhado . E ri-se a Santinha, e o Senhor ri um riso de canteiro novo, todo florido de cravos, todo florido de rosas!

• O Ml?.DO

O BICHO Carrapatu, o negro velho do surrão - foi o mêdo que passou .

Mas depois chegou o mêdo, o mêdo maior que houve que as negras velhas contavam: era a mula sem cabeça, era a cabra cabriola, lobisomens, bêstas-feras.

A gente sabia quem era a mula sem cabeça. O lobisomem era o Zuza-fogueteiro.

Pelo sinal da Santa Cruz . ..

E a vovozinha: Reze a oração de Nossa Senhora do Destêrro.

A gente rezava. O mêdo tremia o queixo da gente, mas lá ia ... O engenho dt· minha avó era cheio de almas penadas que vagavam nas senzalas abandonadas.

O engenho de minha avó era tão triste!

• I

No tempo do cólera, morreu gente como bala. Na sêca de 77 não ficou raiz de imbu ... As pedras do rio tinham letreiros de botijas que ninguém descobriu.

Quando a vozinha morreu o resto da gente partiu para o Juàzeiro.

• Pelo Sinal da Santa Cruz . ..

SANTA DICA

QuANDO ela era pequena não sofreu bicho-de-pé. Quando ela era pequena nunca estêve com puxado . Ela nunca comeu terra quando ela era pequena. Quando ela ficou môça, a cama dela era estreitinha, as mãos juntas para o céu, pernas juntas para o mundo. A roupa dela tinha cheiro de alecrim, - roupa de cassa, trança grande, laço azul que nem santa de verdade!

Santa Dica, ora por mim!

Quando ela ficou môça ficou santa, fêz milagres, curou gente, curou boubas, espinhelas. Curou tudo,

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