Invenção de Orfeu - Canto I: Fundação da Ilha - bloco 02 (p. 635-642) Obra Completa, Volume I · Capítulo 43 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto I: Fundação da Ilha - bloco 02 (p. 635-642)

/NITNÇÃO DE ORFEU I CANTO PRIMEIRO 635

Os rios parados na face do tempo, porém mais velozes, são rios. Os seus afogados jamais conseguiram descer apressados pra o mar. As luas que nêles se espelham constantes não têm suas fases, não mudam. Pois que êsses rios são rios do espaço com as águas do tempo velozes. Mas se êles parassem abaixo das faces ... Que parem! Quem importa! Eu não. Mas se êles corressem com as faces passadas, presentes, futuras, seriam. Os rios não são parados ou rápidos, alegres ou tristes, são rios.

XI Quem te fêz assim soturno quieto reino mineral, escondido chão noturno? Que bico rói o teu mal? Quem antes dos sete dias te argamassou em seu gral?

JORGE DE Lli\·IA I OBRA COMPLETA I VOLUMlf ·I

Quem te apontou pra onde irias? Quem te confiou morte e guerra? Quem te deu ouro e agonias? Quem em teu seio de terra

\ infundiu a destruição? Quem com lavas em ti berra?

Quem te fêz do céu o chão I Quieto reino mineral? Quem te pôs tão taciturno?

Que gênio fêz por seu turno antes do mundo nascer: a criação do metal, a danução do poder?

XII Padeço, Ré vegetal, por ti. Estavas no meio do éden. Uma voluta cingia-te, voluta que tinha voz, voz que tinha sedução. Cedi. Num momento rei e ré, eu e tu, sombras ali. Frondc e fronte entrelaçadas. reino, rei, ré renegados de si.

XIII E vós rei animal rei sem trono, cetro e o mais; e do menos: coisas várias. Rei? Não sei.

1\'l'f.NÇÃO DE ORFEU I CANTO PRIMEIRO 637

Rei escravo, viscerado, sem memória.

Rei de manto de mentiras. Rei? Não sei. Rei viciado.

Conheço quem voz fêz, quem vos gorou, rei animado e anal. chefe sem po\'o, tão divino mas sujo. mas falhado, mas comido de dôrcs, mas sem fé. orai, orai por vós, rei destronado. rei tão morrido da cabeça aos pés.

Rei? Não sei. Rei escravo, viseerado, governado, sem memória. Rei? Não rei.

XIV

O dom do sono representa a vida dessa ilha tormentória e principal, esquecida dos povos primitivos, entre Altair e o Cisne solsticial.

Chamaram-na Ultra-sombra c a consagraram à clausura do amor em túnel ébrio. Em agôsto a imolaram a um deus surdo. Urdo eu clérigo a rota e o cosmolábio.

Os ouvidos do deus são duas conchas que deglutem impulsos inviolados e os transformam enfim nestas reais fontes que necessitam ser adivinhadas.

638 .TORGE DE UMA OBRA COMI'LET A , I'OLUMif I

XV A garupa da vaca era palustre e bela, uma penugem havia em seu queixo formoso; e na fronte lunada onde ardia uma estrêla pairava um pensamento em constante repous

XVI Dêsse leite profundo emergido do sonho coagulou-se essa ilha e essa nuvem e êsse rio e essa sombra bulindo e êsse reino e êsse pranto e essa dança contínua amortalhada e pia. Hoje brota uma flor, amanhã fonte oculta, e depois de amanhã, a memória sepulta aventuras e fins, relicários e estios; nasce a nova palavra em calendários frios. Descobrem-se o mercúrio e a febre e a ressonância e êsses velosos pés e o pranto dessa vaca indo e vindo e nascendo em leite e morte e infância E em cada passo surge um serpentário de erros e uma face sutil que de repente estaca os meninos, os pés, os sonhos e os bezerros.

INI'fNÇAO DE ORFEU I CANTO PRIMEIRO 639

XVII

E êsse rebanho de bezerros, cedo recomeça constante sua estrada. As horas moribundas já curvadas deslizam nos ossuários. Tenho mêdo. O vida tão confusa e tão lidada, ó sombra tão compacta e tão rochedo, de mim que choro que é que resta? Nada c nada e nada mais do que antecedo. Antecedo-me, esbarro-me em mim mesmo. Filiei-me à eternidade sem querer, c agora vago como se vaga a êsmo.

Verto-me em ilha, vejo-me nascer, retiro dessa ilharga verdadeira a minha perdição por companheira.

xvm f.guas vieram, à tarde, perseguidas, depositaram bostas sob as vides. Logo após borboletas vespertinas, gordas e veludosas como urtigas sugar vieram o estêrco fumegante. Se as vísseis, vós diríeis que o composto das asas e dos restos eram flôres. Porque parecem sexos; nesse instante, os mais belos centauros do alto empírco, pelas pétalas desceram atraídos, e agora debruçados formam círculos; depois as beijam como beijam lírios.

640 /ORGf.' IJE L/AIA i OBRA COMI'l.I:.T.-1. I VOLUMI I

XIX

O casas relativas, deformadas pelos ares e gostos insalubres ou bons. E mesmo piores. Silenciadas, alegres, agitadas ou estt'1pidas.

Vejo-vos em fantasmas umas vê:l.es e outras vos ostentais reincidentes, que doces prostitutas pareceis vistas assim do beco com essas )l!ntes.

Dá-se que uma mulher em negro sobre- vém e apunhala os prédios alvadios eretos ao luar, luar salobre como vaga de mar lambendo rios.

Assombram-se os quartéis. Mas as meninas ainda debruçadas nas janelas esperam pelas noites assassinas em que uns gangster.1· venham indeléveis.

E no entanto. afinal. sob êsse sol de outubro, as casas ficam Jissolvidas: nem mansão UI! fantasmas e nem molde das moradas casuais que há nessa ante-ilha.

Todavia, vejamos, há meninos nascidos, e há uns tantos moribundos a olhar as mãos, e os dedos supcrfinos das próprias mãos, não muito. mas imu·tdas.

E agora penetramos: Camarinhas, halls, salas e outras peças sem suores, algumas sujidadl!s tuas. minhas, e vasos para mijos tão conformes.

Encolhem-se de pejo, ficam rubras, atrás dos reposteiros, doces lares com cheiros de comidas e ossos-bucos e alguns mirrados numes tutelares.

INI'I:N(ÃO DE ORFEV I CANTO PRIMEIRO 641 Gozemos as visitas dos sofás, perplexas, muitas vêzes. com os tremores de terra ou sufocadas pelo gás, senão por transcendentes cobertores. Senão pelas memórias de famíJia, pelos vultos das pátrias. (ó que tempos!) pelos falsos demônios em vigília mais caviJosos que os genuínos demos. Senão por mim, atrás do pincenê, do pensamento dito, do retrato da parede escabrosa. (Quem me vê, vê janelas de infância num sobrado). Sobrado

E essa indelével rosa c as cabras-cegas, e as madornas gomosas e as mucamas e essa rêde escondida em que carregas a dissimulação te acalentando. O casas de tranqüilos terremotos, primaveras, velhices, Jenocínios. desarrimos presentes e remotos, relativos, senão bons desatinos. Nessas tardes ca]mosas tão pudenda11 com os rostos maquilados e precários, concordemos, amigo, que dos tempos as tardes são os tempos e os cenários.

XX Fundamos ao sudoeste êsse bravo leão para encarar o sol quando o sol nos encara. (Nós perdemos o olhar dêsse anima] irmão e a coroa de rei que lhe circunda a cara).

Para aos poucos suprir essa destituição, o rei a sua juba à de Apolo compara: o ouro de ambos provém de idêntico filão, o fogo que os agita é de uma só coivara.

Frente a frente, o leão uiva, e o sol acre uiva. (Enormes girassóis cujas ardentes lavas são a ignificação mais pungente e mais ruiva). Certos dias êssc uivo é tão forte e tão duro que parecem os dois duas rimas-oitavas candentes pelo céu dêste poema impuro.

XXI Decide-se a fazer os cactos, quer dizer: simetria. Urgência em colocar espinhos onde • estariam as fôlhas gordas dos facetados mastros verdes de gomos estandardizados, duros, fortes, blindados como arma de destruição e fúria, sem desejar sequer um ramo para dar pouso ou sombra ou fruto ou segregar resina; mas adivinha-se o sangue às pontas estripando vaqueiros, e uivos de ventos trespassados quando distraídos perpassam. Vê-se a provisão constante dágua contra a sêca; sem ter raízes profundas, para não fixar-se demais, e ser nos ares um mirante, contemplando os céus de fogo, e embaixo a terra morta. e lá longe - pedrouços, ossos, luas vermelhas, céus de fogo. Mandacarus, mandacarus, que técnica vos fêz tão tôrres nesse verde marfim de caule que não dá lenho para quem deseje um poema, um navio manso, mas encarnais ossuários com tutanos de seiva oculta manancialmente para bois.

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