Invenção de Orfeu - Canto I: Fundação da Ilha - bloco 01 (p. 627-634) Obra Completa, Volume I · Capítulo 42 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto I: Fundação da Ilha - bloco 01 (p. 627-634)

CANT O PRIME IRO FUND AÇÃO DA ILHA

UM BARÃO assinalado sem brasão, sem gume e fama cumpre apenas o seu fado: amar, louvar sua dama, dia e noite navegar, que é de aquém e de além-mar a ilha que busca e amor que ama. Nobre apenas de memórias, vai lembrado de seus dias, dias que são as histórias, histórias que são porfias de passados e futuros, naufrágios e outros apuros, descobertas e alegrias. Alegrias descobertas ou mesmo achadas, lá vão a tôdas as naus alertas de vária mastreação, mastros que apontam caminhos a países de outros vinhos. Esta é a ébria embarcação. Barão ébrio, mas barão, de manchas condecorado; entre o mar, o céu e o chão fala sem ser escutado

628 JORGE DE LIMA i OBRA COMPI.l:'TA VOLUMI I

a peixes, homens e aves, bôcas c bicos, com chaves. e êle sem chaves na mão. .

A ilha ninguém achou porque todos a sabíamos. Mesmo nos olhos havia uma clara geografia. Mesmo ne'>se fim de mar qualquer ilha se encontrava, mesmo sem mar e sem fim, mesmo sem terra e sem mim. Mesmo sem naus e sem rumos, mesmo sem vagas e areias, há sempre um copo de mar para um homem navegar. Nem achada e nem não vista nem descrita nem viagem, há aventuras de partidas porém nunca acontecidas. Chegados nunca chegamos eu e a ilha movediça. Móvel terra, céu incerto, mundo jamais descoberto. Indícios de canibais, sinais de céu e sargaços, aqui um mundo escondido geme num búzio perdido. Rosa-de-ventos na testa, maré rasa, aljôfre, pérolas, domingos de pascoelas. E êsse veleiro sem velas! Afinal: ilha de praias. Quereis outros achamentos além dessas ventanias tão tristes, tão alegrias?

I\'1'/:N(.'ÃO DE ORFF.CJ I CANTO PRTMF.IRO

E depois das infensas geografias e do vento indo e vindo nos rosais e das pedras dormidas e das ramas e das aves nos ninhos intencionais e dos sumos maduros e das chuvas e das coisas contidas nessas coisas refletidas nas faces dos espelhos sete vêzes por sete renegados. reinventamos o mar com seus colombos. e columbas revoando sôbrc as ondas, e as ondas envolvendo o peixe, e o pl•ixe ( ó misterioso ser assinalado). com linguagem dos livros ignorada: rcinventamos o mar para essa ilha que possui "cabos-não" a ser dobrados e terras e brasis com boa aguada para as naves que vão para o oriente.

E demos êsse mar às travessias e aos mapas-múndi sempre inacabados; e criamos o convés e o marinheiro e em tôrno ao marinheiro a lenda esquiva que êle quer povoar com seus selvagens.

Empreendemos com a ajuda dos acasos as travessias nunca projetadas, sem roteiros, sem mapas e astrolábios e sem carta a El-Rei contando a viagem. Bastam velas e dados de jogar e o salitre nas vigas e o agiológio, c a fé ardendo em claro, nas bandeiras. O mais: A meia quilha entre os naufrágios que tão bastantes varram os pavores. O mais: ~sse farol com o feixe largo que tão unido varre a embarcação. Eis o mar: era morto e renasceu. Eis o mar: era pródigo e o encontrei. Sua voz? ó que voz convalescida! Que lamúrias tão fortes nessas gáveasl

Que coqueiros gemendo em suas palmas! Que chegar de luares e de rêdes! Contemos uma história. Mas que história? A história mal-dormida de uma viagem.

IV Vós sabeis onde estão as latituJcs, longitudes, limites, tordesilhas e as fronteiras fechadas para as ilhas. Mas além dessas firmes certitudes, há o túnel que Virgílio descobriu e onde o ódio torcicola as criatura:>, suor e pranto correndo num só rio; e há as bôcas sagitais - corolas duras, os lábios quais dois calos, e as ilhargas como as asas dos pássaros convulsos, patas ungueadas, breves mas amargas, agarradas a si, de si expulsas pelo tubo das ventas que tremeu um bramido tão fundo, tão danado que o próprio ódio desencarcerado, ziguezagueou do inferno que o ferveu.

v Não esqueçais escribas os somenos, as geografias pobres, os nordestes vagos, os setentriões desabitados e essas flôres pétreas antilhanas. Há nesses mapas números pequenos, uns tempos esbraseados para pestes e muitos ossos tíbios chamuscados, faces perdidas, formas inumanas. Não esqueçais, escribas, ir contando nas cartas o que está aparente, ao lado das invenções em seu fictício arranjo.

.... ~~----------- INI'ENÇÃO DE ORFEU I CANTO PRIMEIRO 6~1

E os pequenos orgulhos, sempre quando quereis fugir ao mundo persignado, 6 impenitente e despenhado arcanjo.

VI

A proa é que é, é que é timão furando em cheio, furando em vão.

A proa é que é ave, peixe de velas, velas e penas, tudo o que é a nave. A proa é em si, em si andada. Ave poesia, ela e mais nada. Soa que soa fendendo a vaga, peixe que voa, ave. vôo, som. Proa sem quilha, ave em si e proa, peixe sonoro que em si reboa. Peixe veleiro, que tudo o deixe ser só o que é: anterior peixe.

VII As estradas pertencem aos vizinhos, as minas aos feudais, domina o centro o famoso vulcão, e tudo já

pertenceu a algum céu e há gêlo c há ouro e há presídios e hã tropas: Não há paz. E há desertos de pedras e umas savanas. População: Uns dez biliões de escravos, e seu descobridor entre os antípodas, entre as febres, daí jorra a montanha com seus mares em tôrno, c vinho e vinho. E eis os climas por dentro de outros climas, e no âmago dos âmagos - êsse ÔV

VIII Na oscilação das noites e dos dias, ouve-se a avena suave, distribuída sôbre êsse tempo como estrêla exata, tão gaia estrêla, tão ocaso frio. Contempla-se o ondulante movimento das cabras, belas cabras recolhendo-se. Seus olhares sensíveis colhem lírios que lhes perfumam os chavelhos altos. Dirige-se a canção por onde nunca nem as cabras subiram nem os ecos, campo alegre com íris e bonanças, bôcas leves de flautas dissolvidas, mãos nas mãos. manjeronas e ave~ mansa~. e desejados peixes que pastassem e encantados penedos que ressoassem com silvestres planêtas rcfloridos. Ovos nas relvas com seus olhos mansos, pequenas nuvens baixas, e uma ondina sonâmbula, inocente, com dois pássaros nas mãos com abundâncias, leites, âmbares.

I.VI'Ic'NÇÃO DE ORFEU l CANTO PRIMEIRO 633

É preciso que a própria natureza seja nossa com sortes de açucenas; e ela aqui está, seus pulsos latejando. como em tudo, provando poesia.

Indicados desejos singulares mesmo em reinos inanes; e sibilos. grãos de aventura ubérrimos no vento. Coisas rorejam. Abluções repetem-se. Uns certos descantares solicitam abandonos sem culpa, pois nos cactos a densa névoa fura-se em segrêdo. Foi preciso que tu, ó natureza, cios provisionados transmitisses e nos contaminasses com êsses viço~ de setas mergulhadas nas ilhargas, no peito, como santos reeditados. Milagre dá-se, dá-se o dom jucundo. coisas de luz somente, coisas de ar. leis revogadas pelas mãos infantes. lidos pâmpanos e tão lidos zéfiros.

O sol tão ali perto em ramo de asas baixado até consultas de corolas, até despetalado entre sorrisos de meninas suspensas em bailados de bucles açoitados por algum apêlo em lábios. natureza e vida. ciclo total de júbilos largados nos véus dos ásperos convites. Pródigos. Nem sei de pensamento mais lavado, de face mais rociada de epiderme, e mãos sem temer crêspas expressões, as palmas encerradas com as promessas. Ah! os juramentos. votos dados. Voar. Direção de voar. prevaricato contra a nossa lerdice postedênica. e um doce refrigério amanhecido. Larguei-me de mim mesmo renunciado dos sentidos comuns. Ido na pátria,

....

considero-me lícito no instante; pelo menos sem ver-me, restituo-me pés que nunca possuí, mãos foragidas, pensamento de lídima poesia envolvendo o profundo da alegria, pelo fundo dos mares e dos céus. Entrepus-me a diversos sentimentos; há uma loucura amada e repetida sem descrição possível nem notícia: é como leve apuro, leve lado com destinos não tidos, tão tumultuária placidez, que sondagem do universo é como êsse metro, mão inexistente dedilhando-o canção desconhecida.

IX Há umas coisas parindo, ninguém sabe em que leito, em que chuvas, em que mê'l. Coisas aparecidas. Céus morados. As presenças destilam. Chamam de onde? Em que útero fundo êste ôvo cabe, no regaço alcançado em que te vês? A porta aberta, os vales saturados. e um gemido bivalve que se esconde. Fios para as aranhas orvalhadas. Rosas florindo pêlos. Graves molhos mugidos sob as órbitas dos bois. Há apelos nas pelejas procuradas na multiplicidade de cem olhos refletidos na espreita. Choram dois.

X Os rios que passam, os rios que descem, iá foram cantados por muitos.

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