Invenção de Orfeu - Canto IV: As Aparições - bloco 01 (p. 727-734)
CANTO IV AS APARTÇOES
I
UM MONSTRO flui nesse poema feito de úmido sal-gema. A abóbada estreita mana a loucura cotidiana . Pra me salvar da loucura como sal-gema. Eis a cura. O ar imenso amadurece, a água nasce, a pedra cresce. Mas desde quando êsse rio corre no leito vazio? Vêde que arrasta cabeças, frontes sumidas, espêssas. E são minhas as medusas, cabeças de estranhas musas . Mas nem tristeza e alegria cindem a noite, do dia . Se vós não tendes sal-gema, não entreis nesse poema .
li
Era um cavalo todo feito em chamas alastrado de insânias esbraseadas; pelas tardes sem tempo êle surgia e lia a mesma página que cu lia. Depois lambia os signos e assoprava a luz intermitente, destronada, então a escuridão cobria o rei Nabucodonosor que eu ressonhei. Bem se sabia que êle não sabia a lembrança do sonho subsistido e transformado em musas sublevadas . Bem se sabia: a noite que o cobria era a insânia do rei já transformado no cavalo de fogo que o seguia .
III Qual um fagote inúmero a ave aquática com uma ostreira de teclas submarinas, os sons encachoeirados estrugindo pelos goles das águas empoladas conclamando os deHins de rosto humano, cabeleiras de polvos e de fúrias, com um severo clangor, uma ·lamúria, um apêlo profundo, tão insano dêsse mar que nos mapas não se vê, abrasado de raios e ardentias, devorado por duendes que eram seus, e voz tão rubra de cains oriunda; que as águas se enrugavam e a ave ia ia perder-se nos confins do mundo.
INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO IV 729
IV Era um cavalo todo feito em lavas recoberto de brasas e de espinhos . Pelas tardes amenas êle vinha e lia o mesmo livro que eu folheava. Depois lambia a página, e apagava a memória dos versos mais doridos; então a escuridão cobria o livro, e o cavalo de fogo se encantava. Bem se sabia que êle ainda ardia na salsugem do livro subsistido e transformado em vagas sublevadas. Bem se sabia: o livro que êle lia era a loucura do homem agoniado em que o íncubo cavalo se nutria .
v Entre livro e cavalo o homem instalou duas escadarias e uma bússola; depois verificou que sendo duplas as suas asas dúbias, duplo o vôo . Pousou na escuridão, e repousou, pois era o dia sete de seus súcubos . Foi quando se exclamou: Faça-se a luz. E a luz dentro das trevas se formou . Moldoror! Mal-e-horror! ó terra nata, tão emprêsa, tão ébria, tão perjura e sempre, e ao mesmo tempo tão amarga!
Que lume bruxuleia sôbre as vagas? Candelabro ou veleiro ou raio obscuro que ora sobe na proa ora se apaga?
VP Vinde ó alma das coisas, evidências, cinzas, certezas, ventos, noites, dias, rosas eternas, pedras resignadas, que eu vos recebo à porta de meu limbo. Vinde esquecidos sêres e presenças e coisas que eu não sei de tão dormidas. Graças numes eternos: vai-se a tarde e as corujas esvoaçam nas estradas. Quero dizer-vos veras e constâncias que não fujam ao ritmo soberano, e depois e depois os dias móveis sem meditar nas aves e nos vôos e nos têrmos parados sôbre as ilhas, sem saber se isso é meu sono ou se é de outro, que êsse tempo que passa, passa em muitos e galopa um cavalo a eternidade.
Como primeira e interminável voz mostrO-vos as mãos sôltas nesses ares mQdificando as côres relativas; e dePois repousemos nesse orvalho, molhemos nossos olhos nos regatos, acendamos a lâmpada das vésperas. Sabes Critilo? Sabes Leredeno? E perguntando aos magos silencio. Que coisa foi mais canto? As rosas rubras? A seta desprendida? O silvo alado? Outros apelos foram clavic6rdios e estremeceram frontes combalidas em pautas multicores esvoaçadas, em teclas reluzentes e pedais escarlates vibrando as agonias, sangue jorrando em lenços ostentados.
• :!ste poema foi public:ado em livro sob o título de A..r llluu. Edições Hipocampo, 19S2.
INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO IV 731
Apaguei nesses muros os lamentos para olhar o que nêles se coagula , Que a luz regougue nêles seus clarins e a sombra pouse à tarde as noites baixas . Virão salgá-los sais das ardentias e as maripôsas nêles pousarão. Os ecos devolvidos dos espantos baixarão em meus olhos insulanos . Desinquietantes vinhos em que embebo a língua liberada entre caninos. Sumamente intangíveis falas jovens. Pensamentos sem dores, nos frontais. E as laringes com as vozes inventadas . Luziam flechas, gestos perpassavam, transparências baixavam das estrêlas, elas mesmas tão leves como as nuvens . Urge dizer a espera adivinhada, a noite apetecida e a carne irreal, as formas espirais sem nenhum tédio, a bôca indevassável sôbre os hálitos, os sentidos sem linhos condenados, a solidão imensa atenta aos gestos, a duração das mãos transfiguradas, surpreendida volúpia dialogada! As horas casuais estão aqui, e o pressentir o o acaso e o abismo claro; raízes vêm à tona, lemos solos . O ímpeto atendido, 6 grito amado, 6 repousar das árdegas amantes, ócios mais doces, auges mais serenos; jamais nessa amplidão houve tão êxtase nem tão emersas ânsias naturais . Ouço o meu nome. Volto-me. Chamaram-me, ou me chamei ou o tempo me chamou? Ou abriram a porta devagar? Visitante noturno onde te ocultas, em que obscura vertente te assinalas? O dorme antigo ser permanecido, lúcido ser, agudo ser terrível, ó sempre antecedente sagitário!
JORGE DI:. LIMA I OBRA COMPLETA I VOLUMI.' I
Regresso ao meu zodíaco de espelhos contemplo a noite vasta e simultânea à solidão me entrego, sacra névoa, respiro os horizontes superados, sossego a ventania despertada, e eis que escuto o meu nome; certo é o nome de alguém perdido em mim, algum lamento, algum adeus que do outro lado vem. Loucura efêmera antes não viesses reintegrar-me no senso verdadeiro. Quero voltar a ti, à calma branca sem apelos a mim, de mim, de quem? Amo-vos virgens campos de poesia com os tules das mensagens pressentida. Reacendo esta Lâmpada. E Esta. E Esta. Sabeis quais são as Três. Laudamus Te Decorro nesta febre tão suave, queimo-me em cinzas, tenho as mãos furadas, o sumo desta vida Te é mais caro . Reacendeste-te muro sem lamentos! ó muro sem lamentos e lamentos! Que falenas ocultas te formaram na cêra intermitente em que te espessas, mas te espessas em tempo e eternidade! Terra de exflio? Não és meu canto. ó terra elaborada, cena e sêde, raízes sem censura, dramas leves, inclinação venial, arcaica noite. ó telescópios salve, sou noturno; a memória do sonho é meu cristal, delirio lúcido, eu me ressurgi, ascendo-me, transluzo-me, consagro-me. De onde vens fero orgulho imemorial? Quem me chama de novo? A face andrógina que é duplo gôzo, - sexo e pensamento? Decerto abriu-se a porta devagar ou veio abri-la um nume sagitário? Ou é a fala do incesto inacabado, mãe e amante tão lava primitiva, Eva e árvore em serpe e chamamento?
INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO IV 733
Das ribeiras da noite o corvo antigo no turbilhão soturno se afundou . Os anjos despertaram sôbre as cúpulas . Leveza anadiomênica, asa sôlta, poder e liberdade, roca e fio. Graças doces volutas, casa aberta, serva inatural, que doce, sêres serva e sêres nômade e ida antepassada . Agua natal, reflito-me em teu ouro; vejo passar os féretros vermelhos; as tuas tranças verdes de laguna remam-me em teias e urnas alumiadas, doce oceânida, máscara latente, minha atividade vês, ó mímica; cultivas meus inventos e anéis mágicos, cultivas dupla amiga, serva e dona? Em ícone te gravo, ouço teus remos, os teus ritmos nas côres anuviadas, os degraus das maretas te levantam e em coluna torcida te transformam; depois o véu das águas te desnuda: monstro efêmero, musa, ré veemente, os teus braços se escamam de clamores, razão de ondina? Sim. Talvez de amor. Nada mais simples, a água é hereditária, as carnes sós aderem às arestas, surgem as cabeleiras superpostas, os peitos antevistos se intumescem em mor correlação com a voz amante, solicitando a morte, a morte, a morte; campo da sombra sôbre as águas mansas, a laguna se extingue . Nasce essa ilha . Gracioso horror surgiu na face bela recoberta de signos e tatuagens, o rito se cobriu de sôpro ardente, o bosque em cabeleira. o corpo em dons, os espelhos profundos se entreolharam, cem vôos iguais partiram do estuário, setas aladas descerraram o ar e o desejo das coisas consumiu-se .
734 JORGE DE LIMA I OBRA. COMPLETA I VOLUME I
Ouço o meu nome. Volto-me. Chamaram-me. A cara viperina é tão visível que lhe falo da porta devagar: Lúcido ser, agudo ser terrível e sempre antecedente sagitário, por que vens visitar o meu poema? De que círculo de horror ou de que treva trazes a inquietação ao meu silêncio? A que eu amo não mora nesses dramas, e em meio às potestades preexistiu; nada podes dizer-me de seus hortos; que pretendes demônio, serpe ou nada? Nada mais pretendia que chamar-me. O apêlo no deserto é tão ardente, que os apelos das flôres emudecem e o despertar das urzes se flagelam . Pensamentos vagueai sem agonias, sem os inclusos outros pensamentos, de tal modo que o sôpro das palavras se espalhe livre pelas oceanias. O denso solilóquio, sombra ondeante, como dizer teu ânimo bramido, teus valorosos ventos, teus agostos em tuas cabeleiras subvertidas? Tudo será melhor assim sem pausas, vendo os sêres das selvas transformar-se; denomino-os, amparo-os, são humanos. Ali as mansas brisas junto às rocas, acolá um leão-d'água tão magoado, e além essa teoria de medusas, os cabelos tão crespos, tão formosos, as vergonhas tão puras, tão selvagens . Um resto de salgada branca espuma impede-me de ver as samorins e os condestabres e os idalcões-reis; e eis senão quando Bóreas proceloso, essa ilha estremece como nau, devasta as grandes velas, parte o céu . Um bramido apressado vai e volta desde o antártico gêlo ao gêlo oposto.