Poemas - bloco 02 (p. 233-240) Obra Completa, Volume I · Capítulo 6 de 90
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Poemas - bloco 02 (p. 233-240)

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e não vão além de tua Rua Chile asfaltada, de tuas avenidas que o Seabra alargou. Tu, como tôda mulher, tens os lugares mais sombrios mais [gostosos: - Baixa do Sapateiro ! Beco do Guindaste dos Padres ! Barroquinha ! Tabuão I

Bahia de Todos os Santos, por que os teus santos não quiseram mudar o curso inglório de meus 17 anos, nos quais os teus professôres retóricos, os teus médicos literatos, injetaram a empôla de ãgua suja de doutrinas sem fé ? I: depois de tanto tempo perdido, de tanto caminho errado, leu amigo voltou para os teus braços abertos. Perdoa ! Perdoa ! Bahia I

Fu vim rezar nos teus santuários, l'll jã sou um homem que tem afetos por quem pedir e rezar. I' tu que me ensinaste a crer quando eu era criança, e depois a descrer, e hoje a crer outra vez. . . eu sou um rio torto e tu és a Bahia do Salvador ! ( 'ohrc-me com o lençol de tua noite esburacada de cstrêlas, em que a lua abriu um rombo maior Bahia, para olhar as nossas núpcias, cobre-me com o teu perdão Bahia ! Iu és a católica, tu és a fé, tu és a âncora do Nordeste, tu és a sempre nova, 111 és a rainha, tu és a cidade que mostra ao que chega ''" invés de arranha-céus, cruzes e cruzes de braços estendidos para os céus, ,. na entrada do pôrto, oiiiiCS dO faro) da barra, " primeiro cristo redentor do Brasil I

Bahia de ruas santas de Santo Antônio da Mouraria, da Verônica, da Oração, da Cruz do Cosme, dos Perdões, de fortes bem-aventurados. de São Marcelo, de Santa Ana, de Santo Antônio da Barra, Bahia do Teatro São João e do Cinema São Jerônimo. Bahia que tocaste a minha bôca, que acendeste os meus pecados, que ressuscitaste a minha fé, que iluminaste os meus olhos de treva, Bahia do arroz a uçá, do acarajé de feijão branco, dos aberéns de milho, e dos carurus de quiabos, cadê o teu poeta Artur de Sales que não faz um poema a tua carne de brasas, a teus vatapás, e a teus efós que ardem como beijos chupados, a tuas casas sombrias que ardem em incêndios danados ? Quando o médico do pôrto visitar êste itazinho andarilho, eu vou doidinho no caminho do Bonfim rever : a feira de Água de meninos, os portões e bicas coloniais, os teus molequinhos nus que jogam carrapetas, o serviço do pôrto com dragas enferrujadas, pior que a Great Western, nichos, mangues, campeões negros de regatas, e depois disso tudo, o Bonfim.

Senhor do Bonfim, é preciso que vos diga: eu vim rezar e recordar com a mais pura das atenções piedosas, tôda a história dos vossos milagres e da vossa glória, e vim também agradecer todo o bem que tendes feito a minha gente. Os meus olhos querem ver tudo : aquêles quadros da "Morte do Justo e do Pecador", e no chão: Aqui jaz o Cap. de Mar e Guerra Teodosio Roiz de Faria I. 0 benfeitor desta igreja.

•• I'OEMAS 23S

I Jm padre-nosso e 2 ave-marias por alma dêle. Senhor, não se entende comigo aquêle aviso da escada : E vedada a subida em virtude de abusos repetidos por parte de freqUentadores do côro.

Núo, meu Senhor do Bonfim, eu tenho Ir ~s amôres por quem rezar e pedir. Vús sois tôda a originalidade do mundo, que distribuís graças miraculosas e ganhais presentes de cêra, de curas extraordi- 1nárias que haveis efetuado de panarícios e escarros de sangue, Vós praticais o moderno milagre, e como outrora recebíeis âncoras de brtrcaças, recebeis hoje salva-vidas da tripulação do Pedro 11, e milhares de muletas de aleijados curados, de filhos agradecidos, de mães de quem vós curastes os filhinhos desenganados pelos médicos. Senhor, pnlloai qualquer irreverência que meus sentidos hajam cometido rnvoluntàriamente contra vós, perdoai. Eu tenho três amôres por quem rezar e pedir I

PLANTAS

N .\o apeiba simbalanea, o teu nome, conterrânea, é Embira Branca, Pau-de-jangada, simplesmente, com que o homem das praias vence as ondas e ferra o tubarão, o mero, a arraia.

~------- .... Copaúba, dendê, côco pindoba, pau-d'arco côr de oiro camará côr de luar, sapucaia côr-de-rosa, canafístula côr de feridas; já não há mais pau-brasil mas há plantas que dão pão, sal, azeite, água, pano, remédios, carrapetas, taramelas, e há a cana que dá tudo, porque dá ao homem triste dessas terras, a alearia côr de brasa da embriaguez e o esquecimento côr de cinza que vem dela.

CAMINHOS DE MINHA TERRA

CAMINHOS inventados por quem não tem pressa de ir-se embora. Pelos que vão à escola. PeiOi que vão à vila trabalhar. Pelos que vão ao etto. Pelos que deixam a terra como eu deixei um dia ... Pelos que levam quem se despede da vida que é tão bela ... A minha terra ninguém chega: ela é tão pobre ... Dizem que tem bons ares para os tísicos - mas os tísicos não vão lá: é tão difícil de ir-se lá ... Caminhos de minha terra onde perdi os olhos e os passos da meditação ... Caminhos em que ceguinhos e aleijados podem

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ir sem olhos e sem pernas: êles não atropelam os pobrezinhos. Alguém quer partir e êles dizem : - "não vás: toma lá uma goiaba madura, uma pitanga, uma ingá e dão como as mãos dos missionários que dão tudo, cajus, pitombas, araçás a todos os meninos do lugar. Caminhos que ainda têm orvalhos e sonâmbulos bacurau-. e têm ninhos suspensos nas ramadas. Ali perto, na Curva do Encantado onde mataram de emboscada um cangaceiro, hli uma cruz de pitombeira ... l)uem passa joga uma pedra, reza baixinho: "Padre nosso que estais 110 céu santificado seja o vosso nome venha a nós ..." Aquela cruz do cangaceiro é milagrosa, tft me curou dum puxado que 1'11 peguei na escola da professôra - minha tia Bárbara de Olivedo Cunha Lima Mundaú ! - soube depois que quer dizer rio torto. Quem te inventou Mundaú, das minhas lavadeiras 'l'lllinuas, dos meus pescadores de traíras ? - ~1undaú ! - rio torto - caminho de curvas, por onde eu vim para a cidade ••ndc ninguém sabe o que é caminho.

ORAÇA O

"AvE MARIA cheia de graça .. ." t\ tarde era tão bela, a vida era tão pura, ''~ mãos de minha mãe eram tão doces, lt;tvia, lá no azul, um crepúsculo de ouro. . . lá longe ... "Cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita I llr·11dita !"

238 .IORGE IJF. 1./MA i OBRA ('nMPLET A i VOLUM~/'

Os outros meninos, minha irmã, meus irmãos menores, mtus [ brinquedos, a casaria branca de minha terra, a bur• · [ rinha do vigário pastando junto à capela . . . lá longe ... A ve cheia de graça "bendita sois entre as mulheres, bendito é o fruto do [ ventre . .. " E as mãos do sono sôbre os meus olhos, e as mãos de minha mãe sôbre o meu sonho, e as estampas de meu catecismo para o meu sonho de ave I E isso tudo tão longe . . . tão longe ...

GUERREIRO

E MEU PAI, vendo aquêle dia 23 tão lindo e tão verde aquêle mês de abril, e vendo seu primeiro filho, bendisse a Deus primeiro, e depois foi à folhinha ver o nome do Santo que ali estava : São Jorge I E o guerreiro cresceu e foi vencer todos os dragões da vida. e não vencendo cobriu com a humildade do seu Santo a derrota do guerreiro : Senhor, tende piedade I

MENINICE

LEMBRAS-TE minha irmã, da velha casa colonial em que nascemos e onde havia o retrato do vovô Simões Lima ?

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I,,, relógio de pesos, dos móveis d1· jacarandá do quarto da vovó ?

I la mamãe, do papai, •~ta.tvcsmas austeros e que liam à noite 11 Uocambole de Ponson du Terrail?

I la mesa de jantar em que garatujávamos a lápis de côr, quanta coisa havia? I ··mhras-te da maior emoção •111c já tivemos? tão forte, 1111c ficamos parados ••lha ndo-nos mutuamente: Aquela tarde em que chegou "( l grande Circo Internacional de Vigo"?

. O palhaço Serafim ... . O anão que engulia espada o ••

. O cachorro que sabia números ... . O homem que sabia mágicas. o o

. O cavalo ensinado o ••

. O burrico que mordia o palhaço ... . O palhaço que levava tombos .. o

A charanga do circo ! Que beleza a charanga ! I lc repente vem a mocinha do trapézio ... c ·umprimentos, reverências, um sornso p:aa a o respeitabilíssimo público da cidade ! Tu não podias ver ... Se a mocinha caísse ! Meu Jesus! Eu olhei - ela subiu, deu duas voltas imortais ! A charanga parou . A emoção da cidade badalou ! Tu não podias ver ! Se a mocinha caísse, meu Jesus! Eu olhei : ela deu outra volta sensacional e, zás ! as calcinhas da môça se romperam! Ela desceu .. o

/ A charanga bateu forte. Meu coração bateu também ! Um dia o circo foi-se embora ... Foi-se embora a môça das calcinhas ... Tu eras uma inocência silenciosa que choravas por tudo. Eu era um menino de olhos extasiados que tinham saudade mas não choravam nunca I Lembras-te do meu gorro de marujo, de minha blusa de gola azul-marinho ? Do teu sagüim que morreu enforcado na grade do jardim? Tu choraste tanto ! A noite tiveste mêdo da alma do sagüim. Tu eras uma inocência supersticiosa que chorava por tudo ... Eu era um menino de olhos extasiados que tinham saudades mas não choravam nunca !

NOITE DE S. JOÃO

V AMOS VER quem é que sabe soltar fogos de S. João? Foguetes, bombas, chuvinhas, chios, chuveiros, chiando, chiando, chovendo chuvas de fogo I Chá- Bum! O delegado proibiu bombas, foguetes, busca-pés. Chamalotes checoslavos enchem o chão de chamas rubras.

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