Invenção de Orfeu - Canto I: Fundação da Ilha - bloco 06 (p. 667-674)
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E todavia acorrem guarda-chuvas enfunando defuntos embriagados, vêm revestidos de bagaços brancos das canas ósseas dos canaviais. Todavia hã soluços nas moendas: é o roteiro da cana e seu delírio, e umas visões de bichos e demônios; é o motivo da cana pelo mundo. ú demências, ó mortes, ó bailados!
XXXIII
Tu queres ilha: despe-te das coisas, das excrescências, tira de teus olhos as vidraças c os véus, sapatos de teus pés, e roupas, calos, botões e
também as faces que se colam à tua, e os braços alheios que te abraçam e os pés que querem ir por ti, e as môças que querem te esposar, e os ais (não ouças!)
que querem te carpir, e os cantos que querem te consolar, e tantos guias que querem te perder, e as ventanias
que não dormem, que batem alta noite, tristes, em tua porta, se ressonas pois nem o vento, nada te abandona.
XXXIV
Os minerais tocados de venenos, como vísceras, como gânglios rotos, encharcados na terra, dementados, umas pratas tão pobres como os ouros,
tão gelados, mas saltam de seus senos c rolam vagarosos como os bôtos, como cipós em lôdos, ondulados, e sugam. Sugam ânimos e soros,
pequenas almas, sangues e salivas, cogumelos humanos. Depois vendem as crateras abertas nos escravos enleados de serpes sempre-vivas, umas nos braços, outras cobras pendem, cordas atadas em lugar de cravos .
XXXV Estávamos esquivados dos asfaltos e bucólicas, dos perenes naturais elementos suportados . Quisemos uma existência fora de tôda vontade, testemunhas afastadas sem nenhuma cerimônia, um ar assim reflorido sem o nosso assentimento, uma fábula ofertada uma graça acontecida, estávamos encontrados no plano do aceitamento sem fuga premeditada no entretanto aparição, mas, eis tudo: não queríamos a procura convocada mas um dom desabrochado, um consôlo comovido fora de tôda esperança, pés e mãos tão abolidos
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nesse corpo manietado que a intensa coisa fizesse acordar a alma cansada.
XXXVI
Novamente eis que a fábula prossegue com a absorvência das fôrças tresbordadas e inadvertida fonte derramando-se; aparecida fonte sob e sôbre, ouvindo, refletindo, lamentando-se, mas sempre um canto cego na garganta e as muralhas das margens escondidas. E vão com ela os movimentos todos e as alucinações desesperadas, e a existência dos mortos atirados, e a correnteza das ações falhadas. Enfim comédia lívida e cortejo, enfim tardia, enfim perplexidade, calcomania funda em sangue alado. Para levá-la as mãos do sonho arderam incandescendo a fronte despenhada, amou seus vales frios mas crispados com voz humilde e bôca pressagiada revolveu-se em moinhos, fêz-se filha dos silêncios largados e dos signos, recebeu os lamentos pensativos. ~ste é o curso impreciso e calendário participante e ouvido deslumbrado; a cadência do mundo o precipita numa história perdida mas lembrada, talvez despossuída, talvez nada, talvez um sabre abandonado no tempo - nosso castigo hoje e amanhã. Ora, acontece um conto ou fala ou pranto, acontece uma nuvem, dá-se um grito, vai-se na escuridão, dobram-se páginas,
avistamos um manto sôbre a praia ou à noite falamos de cometas; então nos entreolhamos e nas brumas passa um homem transido, passa um corvo. Também julgamos ver uma menina, que deve ser finada, penteando-se, ficamos pensativos ou folheamos à luz de uma candeia qualquer livro ilustrado com jogos malabares, nem sabemos das tardes em que musgos nascem Já fora sôbre as telhas frias. Compreendemos os junhos com seus dias que se findam com chuvas nas vidraças, pensamos em estátuas solitárias meio afogadas em lagunas vagas; enfim sendo meninos aprendemos experiências de física em família, e preparamos desde já os jogos. As nossas mães seguram-nos os pulsos, temos febre e avistamos coisas, ou ouvimos coisas. Já começa o mundo. Descem memórias nos constantes olhos; é bom não ser-se Jogo deslumbrado nem fiel aos solilóquios encantados nem às visões que vêm nos acordar. Temos meses de viagens, temos búzios, os sibilos noturnos singram calmas, contemplamos as mãos, os gestos puros . :E:ste rosto formou-se nas procuras, este pranto jorrou daquele espectro. Seu desalento, ó noite, ó calafrio nos salgueiros nascidos nos soalhos. Suma-se a precisão dêsse astrolábio, venham fugazes breves visitantes, venham absortos dedos represar qualquer imprecação nesses recantos de parques calcinados em que assoma uma forma de pura permanência, uma fala predita de repente.
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Irresistência à graça consentida, as mãos em candelabro tormentório vocativo de sinos que o respondam, e as folias acerbas que o levitam; velejam pensamentos, deblateram duplas onipotências, latem ventos, remordem-se molossos invisíveis.
Estio dêsses olhos sem orvalhos mostrados sob as pálpebras remotas mas sem sombra de olivas remissórias, e tão rubras das dores corrosivas, que a violência das iras se enfurece, e os véus dos templos bem-aventurados circundam a existência ameaçada.
Assombro e fel de bôcas sufocadas pedindo as livre Deus, que as alumia, da inerência escorbútica das árvores que põem os frutos para que absorvam ácidos rubros, travos de agonia, o pomo envenenado e o nutrimento negativo que dão o orgulho e a ira.
As asas adventícias já se batem pela pobre rês magra que eu encarno, de costelas salientes, urro triste e algumas bostas prêsas às garupas, mas comendo capins circunjacentes, estreita vaca do Senhor de tudo, apraz-lhe apenas ir com as outras vacas.
Entregado destino! Apesar disso ' coisas diversas dessas ilhas sou; o ruminado berro se transforma j 1:
em pássaro de côres, cascos em ritmos de poemas, e os seus olhos olham o couro retesado soar louvores à Mão que o consolou com essa harmonia de palavras faladas sem propósito, tremidas pelas febres, pelos mêdos; Palavrtu umas indo cair sôbre os rochedos, Pardboltu
outras indo afundar-se no oceano, outras nas urzes, outras se estraçalham, e as derradeiras, só as derradeiras, como sôpro de doente são ouvidas. A imaginação dói-me. Quem ma deu, deu-ma para sofrer, para gastar-me nessas reminiscências e visões, nessas conchas noturnas murmurantes, nesses ares sonoros, nesses muros cansados de lamentos, nesses ermos de carne vigilante, nesses gumes. Eu quero sossegar, fôrças rodantes, espiras, remoinhos, giros, elos, simetrias das órbitas violadas, pensamento contínuo circulando-me nas águas do passado e do futuro, insônias circulares, vôos no quarto de asas e asas em tôrno à minha lâmpada. Doem-me as nuvens cobrindo o globo opacQ, a falência das coisas açoitadas. a perpétua lamúria dos espaços, a velhice do templo, essa procura de entender o que é escuro como a noite escura da razão perdida, como a treva rubra dos desesperados . Ahl o cansaço que vem do movimento da memória insofrida e borrascosa, do pensamento alerta com a alma tonta. A alma aturdida diante da tormenta prende-se à ventania como a um tronco. A alma aturdida quer morrer, mas, ahl recrudesce a tormenta e a alma não morre. Vá que dessa danada travessia nasça a canção contínua. Desespêro dessa alegria triste, vão consôlo, Irada explicação que não conforta a ave suja do pó que cobre o mundo, e que para limpar-se dêsse pó, morre lavada pela tempestade .
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XXXVII Vinde vós das cidades para o campo onde existe a aventura da malária. Malária: Foi em agôsto, o lago respirando Anjo, Calunga que ouvi no sangue a mais formosa ária.
E vi mais um ginete galopando num ocaso de sangue iluminado; ,·o/ta ca,·ctlo era o tempo mais ouro das queimadas, e as geórgicas se enchiam de piratas.
Deram-nos tudo: frêmitos e prata e certo afã de lírios encarnados. Que madura estação provisionada! Que lagunas noturnas sôbre as frontes! Que mãos frias errando no ar parado! Que sibilos de mêdos e de fontes!
XXXVIII
A soberba Veneza está no meio das águas - que tão baixa começou! Mais baixa que a cidade o mundo alheio dos anjos que em seu bôjo se abrigou, e que informa na terra o turvo seio do arcanjo renegado que inda sou. - Braço mago de gente revelada não menos nos engenhos que em mais nada.
Que há que nesse mundo possa crer que fluíssem êsses sêres do esplendor, e que fôssem a Luz do Eterno Ser? E seu claro desígnio mais louvado, e seu modo de agir e de ceder? Quem diria que êsse povo tão confiad•j se tornasse em corruta sutileza, em canais vomitados, ó veneza'/
674 JORGE DE UMA I OBRA COMPLETA I VOLUAtE I
ú cidade de rios absintados onde as cstrêlas verdes pereceram, c as argolas dos Dogcs renegadas em bússolas sem nível se inverteram. ú vcneza das ilhas rcinventadas c que ilhas rcinventadas corromperam, cavalgar êsses mares, ó que emprês:1? Que pureza mais alta, que realeza! Duvidais senso meu dessas traições, dêsses vários engenhos c venenos de quem usa armadilhas e alçapões, c parecendo grandes são pequenos, c parecendo bravos são poltrões. viris querendo ser, são epicenos? São todos êles aracnídea teia, matam com o próprio fio que os enleia. ~les sabem ardis e várias artes como partidas belas e outros jogos para atrair a si inocentes partes; urdem frases sutis, engolem fogos, desfraldam presumidos estandartes, fingem-se dóceis, falam meigos rogos, disfarçam suas armas com arminhos, preferem os cristãos para seus ninhos. Vês, vão os reis da Lúcifa e Malvilha batidos, tão sem brilho a espada de aço; tão cansada a carcaça de osso em quilha; são réus de quem, senão do humano braço ou de quem fôr que à sombra os dentes rilha? Ou de quem vencer pode todo o espaço? Vencer com jogos tais e tal bravura, de Deus chamar podemos, de loucura. T ôda veneza tem o seu restclo gemendo em búzio como trompa humana; são seus cabelos ressonante velo, a barba límpida, eólia barbatana; o senso esfria a glória como gêlo; meneia a testa. os bravos desengana: Dura inquietação d'alma e dessa vida, colônin dos impérios mal-nascida.