Invenção de Orfeu - Canto VIII: Biografia - bloco 04 (p. 834-841) Obra Completa, Volume I · Capítulo 71 de 90
Obra Menu

Invenção de Orfeu - Canto VIII: Biografia - bloco 04 (p. 834-841)

834 JORGE DE LIMA I OBRA. COMPLETA I VOLUMIC I

jazigos achatados, cal escura, chapéus de bôbo para nos saudar. metades fabulosas. ó centauros, verdadeiros centauros de Lusbel.

A impulsão é a blasfêmia contra os céus ou o poema contínuo de esquecer: Nazareno dos lagos, lume primo, atende à pobre enguia de águas rasas. Nazareno dos lagos, lume sempre, sete vêzes por sete me perdoa.

São as asas no adeus oraculado. repetido, monótono, ecoado. No mais: êste contido peregrino, personagem doente sem certezas. sem pernas. sem cabeças, peão deitaJo em leitos, em esquifes, em esteJas. Rebentamos com o pêso dos aléns, perduração de pesos alongados, espessuras pesadas e cegueiras de chumbo, asas caçadas e cassadas. insônias plúmbeas, pesos condensado~. carregadas, opacas profundezas. Movimentos vulgares nos convencem que saímos de um ôvo para os dias. eremitas alegres vamos dar aos desertos lições elementares, cuidar dos grãos sedentos de raízes, revelar os mistérios transumanos.

Podridos grãos darão plantas vivazes. tão velozes que anulam nossos tempos e ficamos sem ontens e sem hojes sem movimento, imóveis como a luz, gravitados em nós sempre antevistos, contudo aperfeiçoados pensadores.

Ficamos luz, a fim de conhecê-la, conhecendo a unidade de nós mesmos. signos de paz, princípios de contrastes.

!XVENÇÃO DE ORFEU I CANTO VIII 835

Não nos roubeis ladrões memorialistas, fôrças intencionais, pactos de sangue, outras medidas fora da medida. Esta é a zona sem mar e sem distâncias. solidão-sumidouro, retirei-me como o bicho do salmo em seu covil. coração aquecido além de mim, meditação queimando-me nas brasas, eu sou dor e alegria de conhecer-me. E em redor os odores do trivial: cinemas e jornais, televisões, mutiladas mulheres, seios vossos, ventres vossos, ilhargas para quando, sexos predestinados, vós os tendes, mas aos pedaços, Sades respeitosos! Quando parar a dança notaremos os pés além, no baile da outra vida, e o sono após o baile e as novas máscaras, novos atores para novas cenas, e nas terras os netos esquecendo. e as tuas cinzas sôbre os teus cabelos. Reconciliemos antes nossa angústia com as agachadas asas das abóbadas. é debalde querermos descansar com tanta tempestade sôbre os olhos, baixemos as pálpebras de vidro, é debalde querermos evocar. Terra evocada, fomos dessa terra sugerida nas dores e alegrias, com os sentidos traídos, degradados; e até mesmo as pessoas que nos amam são dissolvidas pelas horas ácidas; a face da amizade deformada. Inesperadamente chega um dia de transcendentes mágicas, e há surprêsas: num pedaço de tempo reencontrado, a possível menina nos fitando, nossa terra natal, seu rio torto, geografia existida, continuada.

Um ser comendo terra, 6 êsse enfêrmo, 6 delirado engole-meridianos, vosso corpo nascido, espelho-d'águas, imagem transmitida a algas diluídas, e vós poetas dormindo, ora acordados, os retratos já trêmulos, reagindo. Até que enfim de súbito êsse peixe, os pedaços se unindo no mar só: era um Moisés em cesta, restaurado, e bem que desmaiado, ainda chefe, escutando-se a voz na própria aresta, absurda descoberta final sua. Nossos olhos envidrados repetindo côres intermediárias blasfemadas, passos de pés sutis, na areia nova, dores que não as nossas aumentando-nos, prantos que não dos olhos pelo corpo, pedaços de outros vidros espetando-nos. Contudo ausências são fagueiras virgens, e sôbre os terremotos um cometa, e essa feliz estrêla sem retôrno! ú sim nosso alto mar com a sã loucura! Pois só o pranto selvático é deserto, e a solidão perfeita possui côr. Naufragamentos todos em garrafas para alguém encontrar em pólo frio, impregnados os corpos policéfalos de mariscos trivalves, somos flôres, apavorantes flôres, cujos pássaros visitam-nos nas horas apagadas. Nas horas reacendidas procuramo-nos, fomos dispersos pelos campos secos, os círios apagados pelas nuvens, as nuvens gordurosas como banhas, glândulas devastadas, gordas nuvens, como cachos de vísceras sem sangue. E eram nuvens fugazes, beija-flôres, sinceramente cios dos espaços

/.\TENÇÃO DE ORFEU I CANTO Vlll 837

essas nuvens suadas enlaçando-se, acicates de raios seviciando-as; mas ontem um ciclone devastou o arquipélago dos mortais felizes. Todavia há meus súditos indóceis: enquanto sopro o oboé, circula o sangue sem seu dono ordenar, e um nervo puxa o cardume dos sinos medulares; há matinas sem que eu me vibre em férias, os pintassilgos comem meus celeiros.

Outros estendem para nós as mãos, e as nossas mãos volvemos para êles, êles nos olham, nós calamos, vamos, e êles voltam parando, e nós velozes, paramos adiante, os pés nos traem, as mãos travam os pés desajustados. No possível dos ventos duvidosos gritamos por socorro, alguém solfeja, uma menina dorme, a estrêla dêsse talvez já se apagara, um cão espera seu cometa sangrento, requentado. Não pedimos socorro, foram outros. Sorrimos dessas quedas seculares, aprendemos a rir desanimados, sonegamos a morte, rimos, rimos, uma vela cadente, um periscópio, um sol de concha alvar, um castor seno, rimos, oh! como rimos, não sorrimos. E tudo é um gôsto mole para os dentes, dançamos com emplastros sôbre o fígado, pastosa água chupando-nos a bile; e apesar disso o tronco amargo gira, e o palhaço escondido, estenografa um esgar sob as barbas e os bigodes. Nenhum de nós ao certo se conhece com tanta areia e urtigas sôbre a face. Os crustáceos das unhas nos carregam através de rochedos impossíveis.

No mais as larvas, fel dêsses cortiços, tingindo as mãos juradas dos meninos. Mástique e cal extinta para as fendas naufragadas em raso, para as peças, e para malaxar essas marinhas, essa mesa quebrada, essas madeiras, êsses zincos jogados, malaxar manequins que tristonhos confessaram. E rezar pelos fusos planisféricos, pelos quadrantes, pelas horas nulas, pelos tempos dos prismas entornados, pelos planêtas médios desmanchados, pelas culpas das coisas minerais, pelas horas abertas de verão. Na encruzilhada, as hécates trigêmeas não provocando ruínas, mas parindo várias placentas de tulipas roxas; e essas placentas dão feitios sépias transformadas nas horas de vigília com Artaxerxes mostrando-nos as mãos. Contudo aproveitar arcobotantes, dar-lhes abóbadas sombrias, dar-lhes, agüentar as ogivas contra os demos, resistir com essas pedras, resistir, depois bater nas portas, apressados, bater nas portas, sim, bater nas portas. Os armários domados não têm armas, guardam cigarros, pombas, bons cadáveres, assumamos as asas responsáveis e os brasões difamados pelas traças, com os aparelhos náuticos mais simples, esperai-nos amadas acordadas. Nós queremos enfim lápis-Iazúli, purezas de vitrais, goles-cristais, ou uns anis mais puros pra abandonos, sossêgo nesse esmalte, sem assombros, para transparecer qualquer matiz, para ficar assim, como assim-seja.

11\'VENÇÃO DE ORFEU I CANTO Vlli 839

Saudamos essas coisas com faróis metidos nas cabeças para os longes, uivando nos nevoeiros contra os lôbos, os cardumes aéreos, os cações, suportamos as chuvas dominantes, guanos de peixes, de aves e de deuses. A crôsta melodiosa faz-nos grandes, tornamo-nos colossos de estrumeira; nascem ervas de Deus sôbre as ilhargas, canas nas faces, flechas nos ouvidos, fecundamos as flôres das montanhas; vereis que somos luz e somos peixe. Um colosso o que somos, Sansão bôbo, os cabelos grudados com essas gosmas, dialogando com os ventos balbuciantes, esbofeteados pelas tempestades, enganados por tôdas as dalilas dalilas e sereias maliciosas. E brilhamos com a luz que não é nossa, clausurados em cima dos rochedos, bonapartes montados em Vendomes, 6 brados imortais, 6 waterloos, ó guanos sôbre nós, agigantando-nos, e do alto descobrimos alguns mares. Perdoai-nos ser ungidos dêsse modo, íncubos em acasos como grãos de colheitas nos seios das espigas agitadas acima das roseiras. Perdoai-nos ser ungidos como vós como todos, precários, totalmente. Sêres lívidos vemo-nos assim refratados nas fábulas que somos, chamas coradas respirando brisas. Os pássaros são brancos por que as neves, bem mais que as neves, insuflados pássaros e frios casualmente congelados. E morrem sôbre a neve e a neve fica de repente mais alva, mais substância

contendo um canto morto, uma asa fria, um dia sôbre si perpetuamente, um dia frio igual a seu inverno, igual à face com que o frio a beija. Beijo da morte veio sôbre o pássaro, tão frio como o pássaro na neve ou sob a neve que o rodeia todo, todo de neve vence três milênios; a morte espia o pássaro de neve: os reis lá vão em câmaras ardentes. Vai o poeta de capa impermeável mas permeável· o poeta dentro dela, sôbre neves ardentes e reis frios, como um pássaro aliado às suas penas, de penas impermeáveis como capa, e êle permeável para ser poesia. Perene candelabro derretendo-se como um cacto sem pinos, no deserto, sõzinho, silencioso, como um pássaro, sempre verde fincado, devolvido à vida para quê? para cantar. Olhai para êsses lírios do deserto. E em tôrno a solidão onde além nascem as coisas estagnadas, as areias, e em redor e no meio coisas sem têrmos, coisas sem fim; e acima bafos; e abaixo de seus pés, dos pés de quem percorre êsses desertos, nem o chão. No ar quente o candelabro levitou-se. Ninguém para aplaudi-lo: êle acendeu-se. Subiu iluminado. Ninguém viu. Parou na altura como um astro-rei. O Sôpro Seu Irmão sorveu-lhe as luzes. Só seu destino o viu. E silenciou. Não foi para ser belo que ~]e o criou mas pra testemunhar, testemunhar-se, testemunhar Sua Obra. Vocação. Revelação do eterno. Mas seus pés

11\'VENÇÃO DE ORFEU I CANTO V111

mergulhados no mundo, no país. na paisagem natal, vero paisano. País molhado pelos lagos blaus, vocação de menino nem sei como, coqueirais sussurando, mares verdes, lendas nas coisas, lendas nas montanhas, no passado-presente e no futuro, no espaço entre as montanhas e o oceano. Era um clima essencial à febre cedo à caída das fôlhas para a sombra, as asas sob o sol umbrosamente; e a exalação da terra com a penumbra, com o suor das penedias, suor mais frio que o da febre no corpo do menino. O cheiro das resinas, condensando a esperança de ver a musa criança inda invisível todavia perto, e todavia nesse continente místico. Meu Senhor, ei-la que chega: Musa de infância, Musa de meus dias! Minha alma estava aberta à encantação. Agora nós. Podemos, nós espelhos captar o som de côres, transmiti-lo em espécies sensíveis e inefáveis os dons intelegíveis e as mensagens, as asas inda tenras e os desígnios. Nossos contatos formam nossas ilhas, formamos sêres líricos, choramos apupados em cena, nós relâmpagos varando jovens nuvens descansadas, dançando sob as arcas. Os acólitos. O grito pelas portas através. Os muros transparentes. Eis as chaves. Metal humano em chama purgatório, fumando claridades de um minuto, mas sofrendo na carne, mas sofrendo, na árvore transmissível, mas sofrendo o instrumento da voz que vem rachado.

1/1
Menu

Fazer anotação