Poemas Dispersos - bloco 02 (p. 951-958)
I'OEMAS DISPERSOS
O HOMEM COMUM
NÃo vou só pelo mundo: vou com os caminhos, vou com as nuvens, vou com as coisas instáveis. Vou com o meu desejo constante de amanhecer outro homem. Não vou só pelo mundo: tenho ouvidos para ouvir, tenho pés para ir adiante, tenho joelhos para ajoelhar . Não vou só pelo mundo: vou com as nuvens que não param. Não vou s6 pelo mundo: vou com a paz. Guerras na Africa sempre houvf' ~ não quero ver brigas de reis . Apareceu uma estrêla em Abbeba. Guerras, guerras, guerras sempre houve: quero ver a estrêla. Amanhã morrerei: ressuscitarei depois algum dia, não sei que poemas formarei. Excedente de Tempo e Eternidade. Publi- cado em Diário de Notlcitls, Rio de Ja- neiro, 18 fevereiro 193S.
ACEITAÇÃO DA VIDA
A ACEITAÇÃO da vida me deu três Jós berrando à porta que vieram de longe para me ver nascer. Por vêzes sou uma bôlha sob a tempestade ou uma bulha do tempo - coisa humilde - aí a pedir poesia a tudo o que há no mundo. ·
e a me negarem muitas vêzes água à minha sêde mofina. Em certo morrer de tarde sai uma Astaré do beco e me espanca , Às vêzes me julgo Davi por me parecer com Cristo de Quem dilúvios cotidianos me afastam. A canalha do inferno me apupa por tôdas estas pretensões, por que l!Je se lembrou de me mandar ao mundo (eu que sou todo penas sôbre um saco de ossos!) Algumas tias velhas vendo-me aflito e amargo, denunciaram-me ao Santo Ofício e me envolveram em cinq lle que brotei em sarça e queimei-me em Paixão. Não sei se tenho pulso sob esta palidez polar c esta solidão de peixe morto esquecido na praia! Mas sinto o sangue vivo, sinto um pouco de escamas a cair dt rmeus olhos; c o fígado em pó há de dar vista a três andorinhas cegas, a três virgens loucas, a três olhos de vidro. Três tias velhas vendo que eu persistia em êrro embarcaram-me num navio fantasma sem aguada e sem bússola: percebo agora as águas me lavarem c novas evidências me brotarem das mãos: vou fazendo versos para quanta sereia nade à proa a ver se deixam em paz o equilíbrio da nau c não espadanem água na constelação do mastro. Irei me restituindo ao início, tábua à tábua arriando nas ondas; amanhã comecei as velas depois as rêdes em que se embalaram [os peixes: aí o escorbuto divino há de salgar-me a bôca que continuará sozinha os poemas de Jó. Excedente de Tempo e Eternidade. Publl• • cado em Pra Você, Rio de Janeiro, (?)
A ÁRIA DOS MENINOS MORTOS
E. MUITO tarde! E tudo é uma inutilidade! Mas de repente um clamor estranho acabou de se ouvir! Será a ária dos meninos mortos? E. muito tarde! As estrêlas não são lindas. 1 Não há árvores, não há brisas, tudo está quieto para eu ouvir a ária dos meninos mortos. O meus companheiros de infância, onde repousais para sempre'/
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A noite não tem berços embalando, nem borboletas noturnas, nem as saudosas assombrações. A poesia não consegue encontrar o amor nem os lábios sensuais. Mas de repente um clamor acabou de se ouvir. Será a ária dos meninos mortos? Um era cego, o outro era pobre e doente como Jó. A noite não tem flôres, nem nuvens nem cabras-cabriolas. A poesia não consegue ouvir as fontes nem os acalantos nem os pássaros escuros . :\h! os meninos mortos! Celidônia era branquinha ..• Nada está propício, poesia! Meninos mortos, meninos mortos a noite que veio é sem fim! F.xcedentc de Tt'lllf>O
POEMA
ONDE ESTÁ a calma dêste mundo? Onde está o sossêgo? Onde está o sono'! Onde está a infância sem crime? Onde está a namorada de velocípede? Onde está o pátio com as andorinhas c a fonte? E o rio de tua meninice? E as tardes de maio? E as primeiras estrêlas surgindo lá em cima da serra'! E os sonhos que penetravam pelas pálpebras? E as sombras na parede? E o velho candeeiro familiar? Isso tudo onde está? Isso tudo onde está? O seio frio dos poços contém calma. As chamas destruidoras contêm calma. Os lagos dos suicidas contêm calma . Mas vês essas mãos perfuradas de cravos? . E essas chagas sangrando? E êsse peito arrombado? E êsse olhar compassivo? E êsse Deus moribundo? Tudo para te dar calma! Tudo para te dar calma! Excedente de Tempo e Eternidade. Publi- cado em .( Nota, Rio de Janeiro, 15 no- vembro 1936.
AS ARMAS DE DEUS O ARSENAL de Deus é de carros alados, cada carro com seis com áJuias degoladas indo e vindo pelo mundo. A massa tartária, negra, do outro lado da vida vê os carros de asas passar, indo e vindo pelo mundo. Há esferas como ouro líquido ::........ três para cada virtude .. Há espadas como línguas, indo e vindo em cada trono. A massa tartária, negra, do outro lado da vida • nega a e~ncia dos tronos, nega a existência dos...,carros, nega a exi3tência da luz. ·• "· ~ " •4 Mas os carros do Deus único, ert;~•vez de rodas têm asas: te abaum ·na negra massa; ' e a mi!Ssa negra se abate .. . dentro da eternidade . E dentro da eternidade, mesmo esmagada e vencil\a, cega os olhos da criatura: armaS de Dew llão sois nada! • Efeedente de Tetlllpo • 6nrnldade. cade em Diário .da .Manh~, lt.~ife. U ...- ·lho 193~. ·. .., ~ ·• 4' • .. -~ .. •
. O POETA • • .. • • •, ' lU GRANDES tardes que se findam 'CI~. replnte quando ._, poeta fecha as pálpebras cansadas: • as pombas que voavam longe voltam· para s~ traspasfadas • Somente as. velhas tias acendem oil candelabros, ou dão.um pouco ~ azeite às dersadeiras aves. Algum cadáver que nunQ4J foi encontrado • 4
e que -esta"' boiando SCIP destino no .qaar, . • mergulha ]tela água adentro entre u medusas !pOrtas. O poe~ abre as pálpebras: resswçita ~;~ma pomba • e dela sae111 milhues de.Pj.ttras poinbas . As velhas das cottem alU!JPdas • .. • ..
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com pistilos nos braços, c o antigo cadáver que nunca foi encontrado tem madrepérola no olhar, e ri, . ri. como um deus entre os deuses do mar. Excedente de Tempo e Eternidade.
O DISClPULO
O DIScfPULO de Deus partiu. Encontrando cegos dep seus olhos . Reconduziu um peixe órfão a uma enseada límpida. Acalmou uma ventania antes de fuzilarem um prêso. Espalhou a ralíssima barba entre as pobres cambaxirras. Cl1mpriu · a promessa de um soldado. Deu um pince-nez a um professor primário.
A sua farda era uma carcomida estôpa. Talvez mesmo a própria pele simulando bolôres . Chovia muito. O discípulo de Deus teve pena da chuva como [ de tudo que cai: abriu a bôca em torma de cálice para alguns pingos dÔrmirem. Vindo o verão a saliva sumiu e só lhe restaram as lágrimas que uma pantera· lambeu das [ ~uas órbitas à beira de um riacho. Ficou nos ossos entregues à fome da cal virgem.., Tudo tem o pobre que dar, meu Deus! Até os diabos vem comer e beber neste pobre! Só para Vos dar um molambo de alulal Excedente de Tempo e Eternidade. Publi- cado em Diretrizes, Rio de Janeiro, (?) .
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960 JORGE DE UMA .' OBRA COMPLETA I VOLUM/i I
I NÃo VENHO com a fronte serena nem com um amigo presságio, ó Deusa, ó divindade do mundo subterrâneo, dos olhos fosforescentes e de cabelos rubros, venho com a tocha através das sombras para renunciar ao teu domínio. Estou cansado, Deusa, e quero voltar à amada mortal, ao cão amigo, ao poço debaixo da árvore; quero voltar à aventura da vida e à certeza da morte. Quero dormir e acordar para lutar sem as tuas mãos me acalentando, Deusa.
li
Quando o sól descambav..a sôbre a wande montanha~ eu·· me lembrei de ti, Deusa, •· · dot. teus cabelos de ouro penteados em cone dos pássaros do mar que baixavam sôbre ti, do teu ,prg_uipélago em ~ue reinas e tranuormas os m!jlrtaJs, • dos teus olhos surpresos, dos teus 'dedÕs pontiagudos, de teu mistério, De~a; aqui tudo é quieto e 11' amiga vai à tarde buscar água c se desvela para que o fogo não morra: a amiga é tostada de sol e tem mêdo do raio. Deusa, a natureza humana se dobrará sempre para a dor. • III Quando te pertencia o mar era meu, c hoje uma ' onda apenas me domina.
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Eu desci sem ti aos elementos contrários, nenhum favor é durável aqui, conheço o cansaço e a inquietação do futuro. sei o sabor das lágrimas, e o inverno voltou, mas o boi me auxilia, o cão humilde me oferece sua amizade e posso dar um pão a um mendigo, na porta.
IV Também te dei tudo, Deusa: incenso a teus ídolos, cânticos, preces, poesia ao teu alto poder, também te contei tudo o que sabia da experiência da vida em conflito com a morte. também te falei da humana miséria, também te obedeci, também fui teu servo; a amiga banida do paraíso me acenou e tu me conservaste a memória da terra. a amiga se feriu eu preciso ampará-la. Adeus, adeus. Publicado em Ditírio de Notfcias, Rio de Janeiro, 1 março 1936.
A ROTA DO POET__A
O MARINHEIROS, o céu de manhã estêve azul: vamos cantar [ ao balouço das ondas. A vela do mastro grande se rasgou: poderá vir alguma ave [fazer companhia ao velho mastro viúvo. Ao recolhermos a âncora ela trouxe dois peixes abraçados [ como duas mãos. Bom sinal, marinheiros! A declinação da agulha denotou velhas [ canções que vêm de direções desconhecidas. Olhai marinheiros! o mastro grande parece mesmo uma árvore [povoada de gaivotas!
"~" f'\ -r.' t TUJ.- 10
No sulco do navio mãos de afogados tôda a tarde dão-n01 [ adeuses, marinheiros I Antes da noite descer um pequeno pássaro pousou nas [mãos. Escutai, marinheiros, é necessário sondar as águas [ terra está próxima, porque o pássaro vem [ do lar e com o afago da que espera; e com o [cão familiar; e com o beijo da irmã; e com o [ do avô; e com as ausências de todos os numes da [ silenciosa e amiga onde sempre se esperou o que [do mar. Ancorai esta nau, marinheiros! Excedente de A Túnica InconsútU. cado em Di4rio da Manhã, Recife, 10 lho 1938.
TRECHO DE POEMA
O MAR DO MEio-DIA, fôrça hostil em perpétuo movimento, ondas de cujos seios chagados nasce a luz como um grito de 6 perpétuo triunfo - horizontes azuis que devoram as [ deiras e os mastros, ilhas, estranhas floras vermelhas rolando como sombras [ dorso das correntes, mas que se resolve como uma imprecação de ódio lançada [insondáveis profundezas ... - que olhos viram jamais a noite que abrigas na tua alma, reino de obscuras torpezas, limo onde se digladiam cam• (mortas, sêres perdidos no tumulto com as primeiras criaturas no alvO' , [recer da Eternidade, cabeças putrefatas de 'afogados que arrastam a memória era [vida como nós a lembrança de Deus. Excedente de A Trínlca Incon.rútU. Publlo cado em O Didrio, Belo Horizonte, 8 ou, tubro 1938.