XIV Alexandrinos - bloco 01 (p. 207-215)
O PRIMEIRO DOS QUATORZE Assim andamos nós - do realismo para o sonho e dêste para aquêle, na os- cilação perpétua das dúvidas, sem que pos.~a diferençar na obscura zona neutral alongada à beira do desconhecido, o poeta que espiritualiza a realidade, do natura- lista que tateia o mistério. Euc-um::s DA CUNHA
HÁ MUITA GENTE eu sei que não gosta de versos, Porque. . . não sei. . . talvez. . . porque não queira; Daí uma asserção de críticos diversos: Morrerá no Porvir a poesia inteira. Eu me esteio a mim mesmo em pontos controversos: A Ciência julgada austera e sobranceira Pousa no fictício os pedestais emersos Que sustêm uma bíblia eterna e verdadeira. Vêde: a Química conta as moléculas; dita A Mecânica as leis tem~o por base a inércia; Outros mundos além a Astronomia habita ... Se mesmo o positivo é sonho e controvérsia Nem Porvir, nem ninguém, cousa alguma desliga A Ciência que sonha e o verso que investiga.
DOR
DoR é VIDA. Se vivo é porque sofro e sinto. O primeiro vagido é um hino ao sofrimento E o olhar do moribundo é o último lamento. - Ambos vêm do sofrer e têm o mesmo instinto !
A Dor é sempre o eterno e gigantesco plinto Que sustém Prometeu olhando o firmamento, Que depois se fêz cruz e tornou-se em assento De quem sonha e comunga êste trágico absinto. Fêz Jesus ser um Deus e Dante ser poeta, Produziu o Evangelho e os versos de Lucano, Fêz Tolstoi - novo Cristo e fêz Moisés - profeta ! Do nascer da criança ao desabrochar da flor, Do núcleo de uma ameba ao coração humano Procurai que achareis a palpitar - a Dor !
O ACENDEDOR DE LAMPiõES
LÃ VEM o acendedor de lampiões da rua I :e.ste mesmo que vem infatigàvelmente, Parodiar o sol e associar-se à lua Quando a sombra da noite enegrece o poente ! Um, dois, três lampiões, acende e continua Outros mais a acender imperturbàvelmente, A medida que a noite aos poucos se acentua E a palidez da lua apenas se pressente. Triste ironia atroz que o senso humano irrita: :e.Je que doira a noite e ilumina a cidade, Talvez não tenha luz na choupana em que habita. Tanta gente também nos outros insinua Crenças, religiões, amor, felicidade, Como êste acendedor de lampiões da rua !
X Welche Religion tch bekenne? Kelne von allen, Die du mil' nennst - Und warum kelne? Au.s [Religion. Mein Glaube. - SCIDLLEI.
OH! vós QUE NÃO dormis em noites taciturnas, Sentistes por acaso o negro pessimismo
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Que vos jorram na mente as solidões noturnas Qual se a mente vos fôsse um temeroso abismo:
A presença de Deus das estrêlas às furnas, Deus-homem, Deus-juiz, Deus-luz, Deus-panteísmo, Deus do além, do mistério e das leis taciturnas; E depois, Deus-ciência . . . ilusões. . . ateísmo ...
Oh ! vós que não dormis e que nas noites tristes, Falais à Natureza- esta Esfinge embusteira, Revolvendo êste abismo eternamente mudo;
Dizei-me se isto tudo, acaso não sentistes, A rir como Voltaire, a rir como caveira, A rir de vós, a rir de mim, a rir de tudo? ...
CIPóS
VEGETAÇÃO bravia. A floresta é do Norte; Coqueiros, bambuais, jequitibás frondosos E prêsa a selva inteira em cipós portentosos Oprimida e sofrendo o mesmo abraço forte!
Pequenos vegetais condenados à morte Que dantes eram bons e de galhos seivosos, Agora os têm alguns, raquíticos, nodosos, Gravetos outros já, recurvados sem porte.
Sublime foi então êste arvoredo esguio: A pletora da selva ia os outros matando Como o forte aniquila a quem é doentio,
Então êle fugiu à compressão funesta, E.'ltirou-se, alongou-se e em cipós se tornando Ei-Io feito opressor esmagando a florestal
NATURA MATER
. . . et la lutte va commencer. Une périorité quelconque facilitera la victoire celui qui le possédera; Ies plus faibles Ies moins javorisés seront appelés à dispa-· raitre:. . . les cactus persisterotll qui sont plus jorts et mieux armés . .. LAMARCK
CLOROFILA e pletora enchem-lhe o seio farto E trajam-lho de verde e cobrem-lho de ninhos! E tão nova, parece, é o seu primeiro parto Que fêz o bosque, o rio, a flor e os passarinhos! Num dia assim eu sei, oh! mãe fecunda, eu parto Inânime, sem vida e sem ais, sem carinhos, E o teu seio eu irei um dia fecundar-to Na doçura talvez das flôres dos caminhos! Do meu sangue farãs a côr das tuas flôres, Dos meus ossos os sais, dos músculos os troncos, Na química vital do teu parto sem dores! A Vida é um culto eterno ao forte, aos maus e aos broncos! Mãe, isola-me dos bons e dos frouxéis do ninho - - Quero ter a vitória em ser mau. sendo espinho!
FOGO
O PRIMEIRO antropóide, uns pedaços de lenha Põe-se um dia, esfregando a divertir-se, rindo, E vê que dêsse atrito um calor se exaurindo Se transforma em centelha e se alastra e despenbal Entretanto eras tu o espírito da penha, Precedeste o antropóide e fôste evoluindo,
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Fizeste o movimento e jazes reluzindo Em tudo que palpita e atividade tenha!
Fôste tu que fizeste ó mágico Proteus, Em santa Jeanne d'Arc e Prometeu em Deus E em redutos de glória as Cartagos e as Tróias! E se fazes viver em estátuas o cobre E vibras no brilhante e modelas as jóias, I:.s mais sublime quando iluminas o pobre!
CONCE-RTO Ora (direis) ouvir estrêlas! BtLAC
OH! vós QUE me escutais e que nas noites tristes Andastes divagando ao frescor do relento E além pelo infinito escampo conduzistes O infinito que em vós se chama - Pensamento;
Dizei-me se o concêrto oculto já sentistes Que vibra muito além, além do firmamento ... Dizei-me se do espaço as vibrações ouvistes Sonoras palpitando aos tristes ais do vento?
Que macabra harmonia é o dormitar das campas! ... A gama sideral!. . . o giro das esferas! ... A voz da natureza I. . . o rcssonar dos pampas! ... Oh! vós que ouvis, irmãos, sonatas de Beethoven, Ide ouvir alta noite essas notas austeras Que o vento me segreda e os meus ouvidos ouvem!
HOMO RIDENS
CHAMA a fisiologia o músculo risório Dito de Santorini, - o músculo do riso. Motora e sensitiva a sua ação pesquiso Entre antiga raiz de lácio palanfrório .
Reflexo vital entre o bulbo e o sensório - O riso há muito tempo entenebrece o siso Do poeta que o crê (se êle é bom) - paraíso Quando o não crê (se é mau) - inferno ou purgatório.
E quem sabe se ri o lajedo da gruta Gargalhadas de pedra em suas rochas mudas, Que o nosso ouvido nunca as percebe e as escuta?
Oh! animal que ris e explicações estudas Homo ridens, possuis em tua face astuta O rir bom de Jesus e o riso mau de Judas·!
VELHO TEMA- A SAUDADE
QUEM NÃO A CANTA? Quem? Quem não a canta e sente? - Chama que já passou mas que assim mesmo é chama ... A Saudade, eu a sinto infinda, confidente Que de longe me acena e me fascina e chama ... Mágoa de todo o mundo e que tem tôda gente: Uns sorrisos de mãe. . • uns sorrisos de dama .•. . . . Um segrêdo de amor que se desfaz e mente ... Quem não os teve? Quem? Quem não os teve e os ama? ~·~ ·olhos postos ao léu, altívagos, à toa, Quantas vêzes tu mesmo, a cismar, de repente Te ficaste gozando uma saudade boa?
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Se vês que em teu passado uma saudade adeja, - Faze que uma saudade a ti seja o presente! - Faze que tua morte uma saudade seja!
DIA UM DE JANEIRO Welche wohls bleibt von allen den Phi- [losophieell? lch weiss nicht ScHlLLER
DIA UM DE JANEIRO. E passa um ano mais. A Ciência é mais nova. O símio é mais humano. Se fêz-Ihe alguém, de barro os neurônios menta i!., Hzckel tirou-lhe o cetro ao reinado mundano. ( Cousa mesma de símio) êle fêz dos missais Granadas contra o Papa apostólico romano Que lhe andara dizendo: Adão e Eva seus pais E inventara o Evangelho, o céu e o Vaticano ... Tanta crença se foi e a saudade inda vive! Tem carícias de mãe, tem um candor divino. A Saudade! A Saudade! E uma ilusão revive ... Tua infância revive: eras tão pequenino E tua mãe dizia: o céu era um confôrto Onde irias viver se ela te visse morto. janeiro 1912.
DOMlNlO RJ?..GIO
INVESTIGUEI a Grécia em Platão e em Homero. Vi Sócrates beber a taça de cicuta ... Depois passei a Roma e analisei de Nero Na bôca de Petrônio essa face corrupta.
Conheci Santo Anselmo e São Tomás, Lutero, Estudei de Voltaire a inteligência arguta E finalmente andei como se fôsse Asvero Pela Ciência e a História em requintada luta ... Mas a Arte é que me impõe o seu domínio régio E é por isso que adoro a mão de Tintoretto E a sublime palhêta e o pincel de Correggio ... E é por isso que eu amo o verso alexandrino E burilo, Mulher, êste pobre sonêto Inspirado a pensar em teu perfil divino .
PAIXÃO E ARTE A mesma inspiração, que acende o estro, Dá linguagem sublime à estátua muda, Ou lânguida na lira se transforma Em sons candentes ... GONÇALVES DIAs
TER ARTE é ter Paixão. Não há Paixão sem verso .. . P Verso é a Arte do Verbo - o ritmo do som .. . Existe em tôda a parte, ao léu da Vida, asperso E a Música o modula em gradações de tom ...
Blasfemador, ardente, amoroso ou perverso Quando a Paixão que o gera é Marília ou Manon, .. Mas é sempre a Paixão que o faz vibrar diverso: Se o inspira o údio é mau, se o gera o Amor é bom ... Diz a História Sagrada e a Tradição nos fala Dum amor inocente, (o mais alto destino) : A Paixão de Jesus, o perdão a Madala. Homem, faze do Verso o teu culto pagão E canta a tua Dor e talha o alexandrino A quem te acostumou a ter Arte e Paixão.
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VIAJO R Ceux qui vil·em, ce sont ceux q1ti f11ttenl; [ce sont Ceux qui d'un haul deslin ~:ravi.r.renl l'lipre [cime, Ayanl devant /es yertx .
VIAJOR que vais galgando o dorso da montanha E ainda não descansaste um único momento, Deves ter como eu tenho uma visão estranha Que te dá incentivo e intrepidez e alento o
Se o caminho te cansa e se o cardo te arranha Nunca tens uma injúria à fadiga e ao tormento E se a vida me cansa e a mágoa se me entranha Não profiro um motejo, uma injúria, um lamento o o o
E seguimos os dois, cheios de ansiedade o
Tu subindo a montanha e eu passando a existência, Tu coberto de pó, eu cheio de saudade.
Tu vais deixando a planície, eu deixo a adolescência, Tu subindo a montanha indo de gruta em gruta, E eu passando a existência indo de luta em luta o
FIM DE "XIV ALEXANDRINOS"