Invenção de Orfeu - Canto VI: Canto da Desaparição - bloco 01 (p. 775-782) Obra Completa, Volume I · Capítulo 63 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto VI: Canto da Desaparição - bloco 01 (p. 775-782)

CANTO VI CANTO DA DESAPARIÇÃO

I

AQUI É o FIM do mundo, aqui é o fim do mundo em que até aves vêm cantar para encerrá-lo. Em cada poço, dorme um cadáver. no fundo, e nos vastos areais - ossadas de cavalo. Entre as aves do céu: igual carnificina: se dormires cansado, à face do deserto, quando acordares hás de te assustar. Por c:::rto, corvos te espreitarão sôbrc cada colina.

E, se entoas teu canto a essas aves (teu canto que é debaixo dos céus, a mais triste canção), vem das aves a voz repetindo teu pranto.

E, entre teu angustiado e surpreendido espanto, tangê-las-ás de ti, de ti mesmo, em que estão êsses corvos fatais. E êsses corvos não vão.

II

Heróis existem os como: meninos, lírios, pomares, bonanças de vário tomo, calmos montes, doces ares, naves, mãos, mesas unidas, berços, ninhos, mansas lidas: heróis existem os como:

Redo11dilha êssc ladrão que precisa, ,·om inte11ção êsse operário que luta, purame11te re,•ol11cionária essa luta que se igniza, essa santa prostituta, êsses simples puros sóis, precisar êsses heróis êsse poema precisa

enforcar quem hoje enforca quem destruiu continentes: essa Lídice, êsse Lorca, quem inventou as sementes das estrêlas venenosas uranadas rubras rosas, enforcar quem hoje enforca não só com laços de corda, mas apagar êsse mundo do mundo que hoje acorda, e dar-lhe um canto jucundo de guerra contra guerreiros, de poetas e cordeiros, cordeiros que fazem corda para unir os corações, cordeiros das horas calmas, ponteiros de carrilhões, cordas perenes das almas, almas em Cristo acordadas, prudentes chamas moldadas em forma de comções; corações existem como os pomos dêsses pomares da forma de um mesmo pomo nascido nos mesmos ares, servido numa só mesa, um só pomo com certeza, comemos, comeste, como.

I.VVI~'NÇÃO TJE ORI'"l·.'U I CANTO VI 777

Ill

Aqui continua a antiga fábula dêsse afã transitório em céu duende. Digo que ao lume bom desta cêra que me alumia, e o inseto que tomba da luz à cal completa, desejo ubiquar-me (te digo ágil musa!). Bste vale de imóveis criaturas foi varrido por vento com seu tôrvo manto gemendo. Quem és? perguntei; repeti a pergunta. O loucada pergunta esvaída de sibila enterrada entre templos. A palavra da clave estacou - como dardo parado por mão, mão final, dedo só apontando, numerando, chamando (eis o drama), eis a cena que mais doerá. Em luz escurecida, chameada em voz sucumbo-me, desvaneço-me, ó fábula sem fim, reiniciada. Luz de Deus, me perdoa. Não sou. Pretendi. Disfarçaram-me em Lúcifer. Face Sou teu filho vencido, tombado t"•rdida em chão de ilha, cercado por faces que me espreitam tenazes e duras. O meu riso é salobro, entre dentes. Esqueci tua Face acareada com meu rosto imitado de Jó. Cinza entre cinzas sou. ó meu Rei, "De profundis clamavi ad te, Domine".

IV Como caída ossada havida e fria, a ponte eriçada, rangida ouve, e coça o seu dorso com o solado dos pés que vão de um lado ao outro, c as duras mós dos sais roendo as traves de ferro, :.s máquinas que estão subentendidas nos ossos

de sua contextura engulhada e soturna; também soturno é o rio escasso que se abruma embaix.o carregando um colchão e podridos peixes mortos. Entanto um morcêgo se esvai por entre o cavername atônito do bôjo; há escoado tempo sob as arquitraves, indo para qualquer bafiento ar de outra ponte, pois o tempo é conubial e é aderido às pontes por onde a humanidade reincidente passa. ú vós ouças ouvi as silenciosas pontes, alta noite, marchando em seus pés de metal, carregados de gente apressada, passando de um silêncio ao silêncio ulterior da morte. ú vós ouças ouvi as inúmeras pontes galopando na sombra, encolhendo e estirando o seu dorso corroído em que vão cavaleiros.

v Os viventes de línguas estendidas vinham depois com môscas e escorpiões; e gerações de pulgas e de ratos, surgiam no final de cada amor. -, I '" Trouxeram-lhe uma cana e um inanto- sujo, e o horrendo grito e a eSponja de vinagre, lanças rasteiras, cravos e martelos. Nesse espelho mirou-se: era verônica. Chorou de si. O sangue despoliu-o: era um caixilho ausente sem artérias; cuspiu-se sôbre os olhos que assistiram, gritou-se sem ouvir-se se existia. Os infernos reais, para êle ver-se, tão visíveis, tão justos, ecoaram; mirou-se, remirou-se: eternidade; contemplou-se afinal: era um ser cego. Já renasciam vozes nesses ares, vozes de treva que eram de socorro, vozes de nãos que vinham sôbre os lábios injuriá-los, negar-lhes as palavras.

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t111eda Foi hoje a migração, hoje as trombetas. omem hoje os despenhos, hoje as gargalhadas, as gargalhadas, oh! as gargalhadas!

VI Nem as boninas e outras flôres nem a mais humilde relva, nem os ventos, nada participava da quietude absoluta, absoluta, eternamente absoluta daquela pedra de tumba, compacta, lisa, desprezada. Nem ninguém se lembrava da criatura c de seus sofrimentos e de sua atormentada vida ali deixada. Nem tristeza talvez nem alegria, não mais perpassam sôbre a sua face parada, indiferente mesmo à morte que ela encerrou em treva, e esquecimento, e o próprio esquecimento abandonou.

VII Quando cessou o simum, ali surgiu o mar morto, morto por explosão, sim, morto e em estupor fundo, o bafo é um ar de tumba, o céu sem luz, soturno, ôco. ôco pela explosão que o consumiu, varreu-o para sempre, de qualquer som, pois êsse céu é jejuno e tão-sõmente zona obscura como um borrão dúbio como um borrão insano, incorporado à medula do mar morto, sim, morto e pra sempre morto, morto. Agua funda, água s6 inconsútil num só sal fôra êle; e agora é estupor cevando o céu de tumba e êrmo, estancado e sem côr, são ambos defuntos amplos, jungidos no horizonte exangue, igual a um fio cinza como a cinza do oceano ou a cinza igual dêsses peixes, agora uns pobres nus sem escamas e sem sangue, já não conseguem mais alongar-se em cardumes,

esquecem-se do oceano e da vida que era o oceano agora morto, sim, como um ser contemporâneo, sem pureza xavante, irmão dêsse céu inane, igual a um mar sem onda, um bronco e escuro oceano dormindo em si, hediondo e morto como um eflúvio espontâneo que vai recomeçar um outro mundo consignado ao inferno, e tão morto como o inferno é vivo, mas estanca a vida em si; é sem vida para danar a vida, e é como um cação sem ânus que emana como um cano êsse mar último, e expira êsse céu consumido em urânio e em abismo semelhante a êsse mar, só noite, só negação, sonegação da Luz de Deus, nem cinza, nem mesmo antevendo o suicídio da vida pior que a morte.

VIII Previram a borrasca os dois cavalos. Combatem constelados na amplidão. Das ventas subvertidas saem lavas, contendem rebelados como irmãos. Enlaçam-se os pescoços, e há trovões; procriam-se em estrêlas e há alvoradas. Depois investem cascos contra cascos soturnos como baques subterrâneos. Mas os rinchas, oh! os rinchas, são sangrentos, desnudos como gládios estivais. Renhidas potestades se desvendam, repetem-se as arenas olvidadas. Sibilam em seus odres sons de baques, miram-se em fúrias árdegas essências, inda com as crinas rubras salivadas pelas constelações e onipotências. Condenação! Desfraldam-se os estrépitos, tingindo de vermelho os horizontes; há salitres no mar que os desalteram nessa noite do século medonho.

ISVENÇÀO DE ORFEU i CANTO VI 7lll

O rcsponsávd·? Quem o responsável'? Ainda há pouco tudo cru bonança. As mulheres teciam. trabalhavam os homens nas charruas; as crianças sorriam entre flor c flor nos prados. Quem foi que armuenou o dardo c a pólvora. c a lança afiou J! a dor e o mineral? Hoje pela manhã as aves se calaram c o ar ficou soturno e houve outros sinais, pois alguns entreviram dias de ira c diante das visões se suicidaram. Agora em meio às vis tribulações, horrível Duende rubro. vêde ali: nc corpo tantos pinos tem. com tantos olhos e cílios. tantas uranosr~s línguas, membro:; de grifos. sóis de inferno. manhas de bruxo! Ei-lo que gira c ruge c adeja baixo na terrena sombra. Nem os lumes (kclina: hirto c metálico. Tartáreo. Fm óssea vaga ou sumo esquife. sentado espia a humanidade; e o vento em que cavalga é seu inciso núncio. ú Grão-Maro, encarcera, algema, enfreia os tristes ventos sôbre tuas ge6rgicas. Em tôrno aos claustros refugiados fremem sob horóscopos negros. Mas agora, sentado Duende arvora o cetro e as iras; c as retempera e afia. Eis se prepara: varridos mar e terra, e o céu em crepe, lá se vai pelos ares. Vai, e em cinza e nevoeiro os contrários se disfarçam. As naus já no escarcéu pendem, e descem descem mais, descem mais entre marouços. Os galeões-mores desabam-se, rompem-se. Em seus embates, vozes há medonhas. Ululam-se. Depois o vendaval cscachoa num vórtice empestado. Raros no vasto pego bóiam vivos. Tábuas e armas viris e alfaias rôtas vagam no mar. Os nautas, pohrcs nautas

JORGE DE UMA I OBRA COMPLETA I VOLU/.11-: I

estripam-se, porfiam, ganem loucos, e do tronco as entranhas latejantes jogam sôbre o estupor das águas. Mas a inimiga torrente recomposta muge seu pranto em temporal e espuma. E. como aço o arrecife, onde a maré arrebenta e se encolhe em vtrdes rugas (canal de malebolge, e vulva extrema.) E a penedia além em cujo abrigo cala difuso o mar, é agonizada. Mas diante dessa tão renhida cena, há cains das batalhas de hoje e de ontem com colchões e com catres sôbre as praias! O pastor transformado em tormentório nutre a faísca, e em lenha a chama ateia, torra o mareado pão em pranto ardido. Já desembarca a renegada chusma; já os cavalos tirados à charrua esvaem-se agonizando sôbre as sarças. ú grão-renome negro, ó Rei, és tu que atiças a aérea turba com teus urros? Contra ti, grão-Lusbel, alça-se a funda fé que derriba os teus demais golias, e iguala as naus, desarticula a dúvida, enfrenta a raiva e os erros ressonantes. Que ciclópeos rochedos afrontaste? Que dissimulas? Que desdém me guardas? Vinde à glória iniciais puras penumbras, ventos do mundo, lápides choradas, que aquêle desentranha, outro esposteja, outro em lança rasteira enrosca os ombros; e Gluto atiça os caldeirões na praia. 1:~1 Quando os findas, grão-rei desnaturado? Quando me calarei com o meu monólogo? Duende ira-se, a vergar os baluartes, a lançar os azares, e a alçar chamas. Parte com sulcos, sangra os inocentes, destrói zimbórios, naves, círios, páscoas. Aqui defende réus e ali demônios. Abrem-se além horríficos teatros

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