Sonetos - bloco 03 (p. 201-204) Obra Completa, Volume I · Capítulo 3 de 90
Obra Menu

Sonetos - bloco 03 (p. 201-204)

SONETOS 201

Voltam vencidas, quando mais velozes, forçam a barra, que entre os dois medeia, e vêm com elas, abundantes doses da água salgada que lhes turge a veia. Passa o canoeiro, colhe presto as velas, solta a canção que lhe dissipa as mágoas, pois vendo as águas regressando, nelas

vê seu destino, ao líquido transposto: que êle torna também como essas águas, com a saudade no peito e em pranto o rosto. Jornal de Alagoas, Maceió, 21 agôsto 1921.

MAGOA

OcASO. O céu escuro e turvo e triste e morto ... Ao longe o rio geme o seu ai! formidando, e à rocha, ao pedregulho êle vai segredando a dor suprema e atroz dos que não têm confôrto ... O pau-d'arco desnudo arqueia um galho torto, como um braço estendido esmolas implorando. O gado é triste e mudo. As cigarras cantando a balada plangente - irmã do desconfôrto ... Ante a mágoa brutal dos horizontes baços, fecho os olhos com tédio, os olhos tristes, lassos, c lamento êste sol que vai morrendo aos poucos ... A tristeza do céu simboliza o tormento ... Fôlhas caindo; o céu escuro e turvo, e o vento nervosamente a rir nuns grandes uivos roucos! Jornal de Alagoas, Maceió, 11 .setembro 1921.

GLORIA

QUEM TE ESCUTA uma vez, deslumbrado te escuta A vida inteira, - Glória, ascensão interior Que a alma humana em canseira eterniza e transmuta, Na transubstanciação da Criatura em criador ... Narguilé de Sultão. . . fumo d'ópio. . . cicuta, Que Sócrates tomou. Diabólico licor Que entontece e atordoa o soldado na luta, E o faz rir e olvidar a sua própria dor. Ilusão, sonho, amor, ou delírio, que importa A coroa falaz com que o homem te glosa, Se o fim de cada sonho é uma esperança morta. Se o fim de cada luta é uma ilusão ou uma Embriaguez mais forte, exaltação mais ciosa Dêste ópio oriental que o Homem, ébrio, fuma ? E~ado das Alagoas, Maceió, 16 outubro 1921.

MARINHEIRO DE SAGRES

VAI MARINHEIRO audaz, vence a grandeza dos mares e peleja com lealdade ! E conta ao bugre, com tua alma acesa, as façanhas da tua mocidade ! E avanço ! E gloso minha heroicidade ! E a glosar a dos meus, tenho a surprêsa que a palavra é de música ! O saudade ! O doçura da língua portuguêsa I

E com o peito a vibrar, a mente em Sagres, marinheiro de Henrique, reproduzo minhas bravezas como bom vassalo.

E ao bugre conto sensacionais milagres : as façanhas do Infante, o arrôjo luso •.. Mas a saudade me sufoca. . . e calo !

ESPERA

BoTÃo! serás corola e esperarás ser fruto ... Serás calor, - paixão! Lume que o peito inflama I Eu hã tanto que espero o almejado minuto De aquecer-me ao calor desta sagrada chama I Gênio, tu fôste caos, negro pithecus bruto! Réptil, tu fôste larva ! Hoje és luz! E eras lama I Esperar ! Esperar ! O divino tributo D'alma de quem tem fé ! Ilusão de quem ama I

Primavera, hás de ter o tempo das vindimas : Eu espero por ti, dia e noite, quimera ! - Eva, têrmo de tudo e têrmo destas rimas ... Jamais chegue porém, a que em meu estro impera, E que sempre esperando, ó minha lira, exprimas O desejo de quem esperou e inda espera I

ATRAÇÃO Homenagem cl pianista LISÁ DINIZ

EssA É a ingênita fôrça, alma de Deus e destas infinitas junções atômicas, perfeitas: as ondas, os corais, as pérolas, as giestas, as róseas carnações estéticas, eleitas ...

Arquiteta, constrói dos cristais as arestas .. . Alimenta as paixões, reconcilia as seitas .. . Poderosa entre as mais potências policrestas, alça as frondes e influi no fruto das colheitas ...

Essa ingênita fôrça, equilibrada e louca, que traduz num olhar as confidências mudas, quando o pejo esmorece as súplicas na bôca,

faz baixar o fuzil às árvores folhudas, e permite que o verso e a música se imponham, atraindo e arrastando os corações que sonham.

SEIO VIRGEM

SEIO VIRGEM é o teu, 6 Natureza amiga, Eternamente são e púbere e fecundo I Virgem depois do parto em que geraste o mundo Como após teres feito a pequena formiga I . Nunca aborta o teu ventre a semente que abriga ... Quer a semente seja um cadáver imundo Quer sirva de canteiro o vasto mar profundo l). o mesmo sangue bom que a tua entranha irriga !

Virgem depois do parto I ú milagroso seio, Creio que tu és Deus poderoso e infinito E que és carne e que és luz e arvoredo e granito! Virgem depois do parto! ú Natureza eu creio Fôste tu que fizeste êsse milagre outrora : - Conservar sendo mãe, virgem, - Nossa Senhora!

FIM DE "SONETOS"

1/1
Menu

Fazer anotação