Invenção de Orfeu - Canto IV: As Aparições - bloco 02 (p. 735-742) Obra Completa, Volume I · Capítulo 57 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto IV: As Aparições - bloco 02 (p. 735-742)

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO IV 73~

As nínives e as focas assombradas amaino com presteza e com palavras; e elas me cospem peixes sôbre as faces . Derradeiras exxéquias dêsscs jonas. Reconheço entre si os elementos . O desmandados ventos éreis mansos! Que turva tentação nas aves puras consegue transformá-las em rapinas? Infuso por estranha divindade, convoco os elementos por seus nomes . O insossêgo das nuvens m.e entontece, as montanhas acesas me circundam. O riqueza enganosa a quem procura nada ser que obstinado visionário; ver os signos, mirar-se nas arenas e dormir nos rochedos indivisos . Disperso-me no caos . Serei eu mesmo essa mão decepada em guarda-chuva, aquêle pincenê, aquêle prato, aquêle outro retrato devolvido? Não sei se êsses sapatos me obedecem, se é meu o guarda-pó dependurado, nem sei de companheiros de internato nem do sono embalado por goteiras . Agora é só lutar com os esfacelos, êsses olhos jogados como dados, as perdidas apostas, os penhôres, a pompa lusitana dividida, cinco dedos caídos no oceano, outrora no Restelo hoje em mor pranto, amanhã em Belém, depois na morte. O perigo da vida são os vácuos . Que feche os olhos tristes me é forçado, pois tudo que navego são tormentos . Quem pode preservar as multidões do perigoso assalto das metralhas? Sete camisas ontem nos roubaram, banqueteava-se o vasto senhorio. E.stes trapos de frase vêm no vento que ruge forte, raiva s6bre a ilha.

Os pampciros do sonho vociferam, enlinham-se, interferem, represados. O funda incoerência dêsse leito sobrenadada em bêbedo navio. Os membros amputados inda sofrem, a noção do volume inda é compacta, e a desagregação atinge os mastros que foram caules e que deram flôres. Tempestades também sôbre os rochedos adormecidos como doces monstros, - reis de metais revestem-se de penhas, há nitros em seus bojos inteiriços; mas quanto inferno ativo em seus silêncios! Quantos heróis dormidos em seus mármores! Quantas memórias dos braseiros idos! Quantos ritmos íncubos, jubilares! E vi a roda ornada de andarilhos com face atrás de face, além da vida; da morte possuídos mas perenes . S6 de estar-se no vórtice danado, fica-se duas vêzes sepultado com os olhos exumados, vendo tudo. Que venhas, Outro! Tempo e espaço aceito e aceito as evidências que impuseres. Reverto-me no limbo original, entre dois olhos entre duas órbitas; dentro da névoa antes respirada; dentro das coisas possuídas antes; encolho-me no ventre anterior e êrmo; vejo-me as plantas, babo os meus calcâneos, sugo os leites vindouros não jorrados, embriono-me na luz que me cegou.

VII Intento contar logo a sesta decorrida com a fronte no equador, os pés em sobriedade, pousados em caminhos.

Quaisquer outros sentidos perdidos em navios de mares reversivos.

Olhando-me com lentes, pessoa eu? Diversa. Refúgio de meu corpo? Vá lá 6 adormecido! Sonhando nessas praias, perdido em quietudes, colado e resumido, exponho-me aos incestos .

Há coisa mais vidente que as frontes ensombradas apenas aparentes? Traços emocionados mas sob os óleos últimos, as carnes afogueadas porém em cinzas tidas, e tudo em profecia. ó signo elucidado! A teMa no equador é simples vocação, as mãos sôbre os navios também um aequação; e os traços na rosácea, decerto não são meus nem diurnos nem noturnos.

Contôrno exterior, o crime muito brando, a queda da janela, os pés acorrentados, o grito sem garganta, o túnel sem ruído, a noite vertical, consinto em deserdá-los . Repito-vos é a sesta. A fábula que importa? Cultivo êsse desdém . ·

Formosa salamandra repousa nos meus braços com malvas diminutas, e cascas sumarentas, mas sempre muito afins . O caule, a pedra e o musgo são outros meridianos; por hora nesse mapa mudemos de acalanto; anéis em cada dedo, medusas nas ombreiras, espadas de espadartes . Estanque é a ilha. Vereis: a fronte dorme e os membros é que sonham, pois que me visualizo aos olhos sem retina; não posso recusar convites para a noite nem posso abrir as pálpebras a pobres realidades . A escada não tem fim nem direção nem beco, a queda não machuca, a sombra é dissolvente; ligai os exaustores, tangei as águias chocas, salvai as sanguessugas. Estanque é a ilha. Frieza causticante, a estrêla no horizonte, não longe quieto incêndio; a proa já sem rumo, o vento acena o pólo, a vaga lambe a areia, a areia se abre em fendas . Estanque é a ilha. A maculada escama espirra leite fresco;

não sei se são entranhas, se jovens cornamusas, os louros sôbre as frontes, os seios empombados, os passos sôbre os cais, o cru dardânio à mostra . Em terra e mar batidas, despidas de sargaços entregam-se aos marujos palantes quadragésimos; a sanha é combalida, vermelho-atenuada, os gozos sem latidos com saxofones baixos. A expostos eixos nus sereias não resistem . Há cintos sôbre as relvas, exórdios inaudíveis, as éguas negras correm, relinchos escarlates, as f1ôres cogumelam . Estanque é a ilha . Princesas descompostas enchei as vossas velas, com várias taças róseas, pistilos enguli, vergai cerúleas pôpas Lucina, Dido, Tártara, colinas, veigas, jubas, queixosos urcos líbios . Propostos jogos, sim, com dardos eriçados e vagas agastadas e rolos e sorrisos, sandálias nas areias, as caças instigadas. O pio amor fechado, com túnicas e abraços.

Esparsa fronte arena mitiga a insônia ruiva. Por que rôtas escusas. fundar cidades mortas, opacos sons de côr de vozes respondidas em flôres calcinadas? Estanque é a ilha . Nos hirtos litorais extinguem-se mensagens. ca{dos universos, marés envergonhadas, memórias sem ausência em limos milenares, em rosas desvalidas, e frases esvaídas. Ali estão os gritos, os potros desterrados, os peitos em vigília. punhais e sangues frios, os graves cativeiros, os lumes necessários, madeixas tão fiéis . O triste biografia! Foi quando sublevaram as águas entre as pedras; e os cr6talos marinhos restaram vácuos e ossos; os astros se elevaram nos altos meios-dias, as tumbas esfriaram . Estanque é a ilha . Gemei .sinos de goma, passai aves sem canto, ressoai caves moradas . Estanque é a ilha . O chão comeu as coisas, unções desassistidas, cuspi vossas palavras. Estanque é a ilha .

INI'ENÇÃO DE ORFEU I CANTO IV 741

VIII Candelabro ou veleiro me persigo, bruxuleio-me, caio-me, levanto-me; no cavalo de fogo me conspiro como anti-Parsifal, como anti-santo.

Em minhas mãos plantaram joio e trigo. Um misto é minha voz de triste canto- chão, mais as salmodias mais os gritos de um duplo de Ariel e Lautréamont.

Quem é que me levou a essa nativa solitária Taiti em que tatuagens celestes em Abel, vis em Caim desenham-me de sol a carne viva? Quem é que magnetiza essas paisagens dêsse mundo inicial que mora em mim?

IX Folhearia eu um livro de gravuras, revendo-me e revendo vidas nossas: tua filha embricada em meu bisneto, meu avô na cantiga dessa roda? Primeiro, a decisão de ver a ilha, depois ela e ela: o azougue, a rosa, a fonte; os comparsas nos ombros e uma bilha, e a escalada nos pés, joelhos, fronte. Eis a pilha lá embaixo - os que ficaram no planalto das cobras laminadas, os relógios deitados que pararam nas lívidas colinas defloradas . Os comparsas de chumbo permanecem. Mas os ombros de carne - maltratados; e as esporas nos flancos lhe estremecem o fígado comido nos dois lados.

Sobretudo êsse timbale o atrapalha no bailado das pernas dianteiras, o seu corvo de ilharga é uma toalha, suas cobras laocontes - corriqueiras . Ficou longe embaixo a ilha estupefata, telégrafos, ferrugens, pedregulhos, e ela mesma, mesmíssima, sem data, tépida para os meus e os teus engulhos . Todavia subiu nas quatro patas (duas que Deus lhe deu, duas o diabo) : as passagens terreais eram tão chatas que cabiam na sombra de seu rabo. Todavia as mirou com o pincenê: dissolvências, calcários, parvoíces, o chato que se vê e não se vê, sempre o mesmo se o visses e não visses . Sôbre o seu dorso os claunes maquinaram a ossatura supérflua da cumeeira; e dos ombros às têmporas saltaram. (Pois a ilha se abrasava na soalheira.) As pedras do caminho transpiravam um suor tísico ao céu que as consumia. Na vertente do oeste sóis lá estavam parados espreitando a luz do dia . Agitou-se na brasa. Os claunes ruíram, o pedrouço das margens se esboroou, abriu as asas, bronzes retiniram, a cauda de cometa se inflamou . A ilha o olhou de baixo: a mesma pilha, os mesmos réus terrenos, cobras, lesmas, algálias soterradas e virilhas e a chatidão das coisas mesmas, mesmas.

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