Anunciação e Encontro de Mira-Celi - bloco 06 (p. 541-548) Obra Completa, Volume I · Capítulo 34 de 90
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Anunciação e Encontro de Mira-Celi - bloco 06 (p. 541-548)

t \I .\( J..IÇAO E E.\"CONTRO DE MIR.4-CF:LI .'i41

t11 VIU a árvore: "11 enorme e caminhava com seus pés de raízes: tlll ~ua copa havia ninhos onde a vida brotava ~ okla desciam cobras para matar a vida.

rh· viu a árvore: ia impelida pelas fôrças do E.o;pírito: 1h•ln desciam chuvas para regar a terra. •l••ln saíam raios para fender o mundo.

ri·· viu a árvore caminhando sôlta. Nt•ln havia frutos que continham a noite ~ hotvia o dia encerrado noutros frutos.

rh· viu a árvore: a sua seiva era de sangue: hnv1u cálices de fel pelos seus ramos ~ h11>tos de luz surgindo no seu tronco.

tkla desciam mãos distribuindo frutos ~ uulras mãos desciam para ceifar os homens.

~. hna dela esvoaçavam pombas e milhafres: 111 unpclida pelas fôrças do Espírito. 11111 bailando como um Anjo imenso. 11111 tropeçando nos mont('S e nos vales.

rh· viu a árvore amordaçada entre cipós e espinhO!!, ·'•·~~~rcnhadapelas ventanias, ·h·~p••daçada pelos terremotos.

I' lt- viu a árvore sangrenta: era um inc~ndio Iluminando c queimando ao mesmo tempo. I 1.· viu a árvore de chamas elevando-se, '1111111 um turíbulo sagrado. para Deus.

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QuEM VEM 1...\? E. homem. é vento. é fantasma? I~ Ou é o veleiro que volta de sua viagem ao mar? tt O inesperado ser arrastava uma asa. tinha os olhos cobertos de orvalho. a voz era de vaga revoltada: vinha só. recoberto de algas. 'I peixes nas mãos. corais nos cabelos. li l'mbriagado ou louco. febricitante ou palhaço. Sendo mesmo irmão dos pescadores. o'. ê~tes não o reconheceram. O inesperado ser em como um náufrago na terra.

As criaturas de Deus recuaram medrosas: Quem és tu'? ts demônio marinho ou és cisne'! Iam crucificá-lo num penhasco do mar. - Sou homem. imagem de Deus. sou poeta. Sob esta figura humana meus ombros são de rochedo c minha cabeça é uma vela de barco. Sou assim para resistir. para não morrer. para vos salvar.

OLHEMOS os olhos das crianças. que êlcs encerram mistério~; dentro de suas pupilas moram selvagens bons. pairam nêlcs as lendas das terras desconhecidas. Olhemos os olhos das crianças: quando com êlcs cruzamos os nossos olhos. há reconhecimentos súbitos c reminiscências que revivcm. Que ausência de ouro c prata existe nêlc~ ! Que verdes potros relincham em 'uas colinas ! Que indiferença pelas arcas ricas !

IN/INC/A('ÃO E ENCO!VTRO DE MTRA-CELI 54J

I 'omo se parecem com os olhos dos poetas ! I li hemos os olhos das crianças, •~

c) MtRA-CEu. tua presençu vai-se desvanecer no!l derradeiros [ limites de tua revelação: (l·u~ lábios despedirão a pomba mensageira dos descobrimentos; 1!'11~ dedos não mais inverterão a ampulheta das renovações. I ··us pés não se adiantarão ao curso dos grandes rios. I mpalidecerão tuas mãos impúberes sôbre os lábios qut· irão marcando o rastro das resignações póstumas: '' lcus pés te procurarão os sinos desenterrados pela tua [ visão profética. lkm sei que tua presença circunda de vigilâncias meu pre- [ sumido orgulho. ·\h' que onda celeste ressonará junto à minha sombra ? cluando isto se der. não poderei mover-me nem deixar-te. I ··~tcmunhas eternas guardarão o sentido de tuas realidades; 1o·11~ olhos, teu hálito beberão, porém, o pranto IJIIt' fará nascer, crescer e multiplicar-se a flora rediviva. l11a dor continuará múltipla • ••mo o meu início sôhre os mares recém-nascidos.

544 JORGE DE LIMA I OBRA COMPLE1'A I VOLUMI I

Então volverás à encruzilhada propícia onde os peixes do zodíaco marcam a anunciação da água que [ te assistiu nascer. Todos os mortos podem caber na festa da aova criação.

DESPEDIDA llE MIRA-CP.l.l

ADEUS, ó DIAS e noites planetários, adeus, ó minha infância, minha adolescência, minha vida llt [ faces cuspidas e beijadas. Adeus, carne poluída por tantas cumplicidades noturnas, adeus, pactos, mulheres fugaces, amôres fugaces, adeus, febres povoadas de vencidos a sonharem com o tlll• [mínio do mundo, adeus, aventuras animadas de marujos mendigos a sonhar com veleiros que nunca chegaram a seus portos: adeus, gestos interrompidos, palavras entrecortadas. apelo~ In" [ compreendidos, adeus, tôdas as máscaras, tôdas as desistências e tôdas as realizações sempre aparentes: adeus, Mira-Celi, musas, sombras, símbolos, adeus, mulheres que nunca se completaram, faces dispersas entre as faces distantes e incompn:endidas; adeus! Caminhei até os limites misteriosos da morte. Revisto-me das vestes talares de seus impérios mágicos. Uma fôrça me impele para dentro de Deus. Qual de tuas companheiras me aceitará como irmão, ó Mira-0:11'1 Que asa do reinado de Cristo abrigará minhas angustiadas miio~·.• Que onda da eternidade virá murmurar aos meus ouvidu~ '/

ENTRETANTO êles dançavam. De seus peitos subia um gemido surdo, e êles pulavam como uma nuvem de mochos.

4NII/VClAÇÃO E ENCONTRO DE MlRA-CELl

11 hla~fcmavam pragas que eu sabia de cor. 11 lut.i:1m gestos e espumavam e rangiam os dentes. l~nl1l'lanto êles dançavam. 11 dançavam já desiludidos de qualquer canto de galo. 1h• qualquer orvalho matutino, 1l11 IL"grcsso de Tua Face ~ ali- Tua Visibilidade. ll1l milhares de anos que não dormem, 'I"'' não riem. l'nlrctunto, dançam dentro do fogo. 1h•u1ro de Teu Afastamento P lua Distância, •h• Tua Presença, ah• ll'U Olhar. J•h·, estão solitários! Senhor, ,,putlrccidos por si mesmos, oi\ müos dilaceradas por si mesma..;:

'"''"" mortos c dançam I"" a se iludirem que têm vida. ' ,.,t:io tão fracos que "'li' ódios não sobem.

f) sAUEDORIA que saístes dos lábios de Adonai, Atlonai - Condutor diante de quem reis e ditadores ficam I mudos; ,·, Adonai Clavis Davi, iluminai os que jazem sob a sombra I da morte, a\ Adonai Emanuel, expectatio gentium, Senhor de Mira-Celi I e meu Senhor, Iluminai os que vamos morrer. "''h vossa luz represento-me Peixe que se transforma em cor- [ deiro. ú Adonai. '"'" o Triângulo que emergiu de dentro dos limos, u1ulc a minha face já se achava formada; ,·, Adonai, ofereço-vos Mira-Celi. Vl'tle que a mesma Tiara, e o mesmo manto nos envolvem I na mesma unidade;

ó Adonai, vêde que somos o mesmo Livro c o o mesmo Triângulo em que oscilamos como [dentro da mesma ogiva. Vivemos embutidos no centro de vossos olhos. ó Adonai: e sobreposto ao Triângulo de que sois uma parte. eu construí nosso Triângulo como um triângulo de ú Adonai, abaixo de vossa Trindade c dos nomes divinos de VI [ imensa hierarquia. I lembrai-vos dos nomes dos homens e dos sêrcs padeccnt..&::, [ da mais vasta comunhão: ~ entre o Oriente e o Meio-dia. ó Adonai. li entre o Meio-dia e o Ocidente. entre o Ocidente e o Setentrião. ó Adonai. ouço o vosso nome oposto ao do grande Lucífugo. Adonai. o nosso diálogo pro'\segue através das idades: se me interrogais amiúde. ponho-me a blasfemar: mas. mesmo assim. nos conservais sem lesão. Adonai, paralela aos triângulos dos pactos corre a posteridade satânico) mas o sôpro de Mira-Celi refrigera-me a língua ou acende a fagulha que me ateastes nos olhos: tudo aqui é conexo. e o inferior é igual ;~o superior. c o superior é trino. como o mais humilde dos sêres. O Adonai. que não conheceis acidentes de tempo. e correis sobreposto liOS signos da eternidade. não deixeis que as negras a~as nos eclipsem Pem as conjunções malignas nos bipartam. O Adonai. as pinças do E~corpião rompem-se ào; plantas 1!11 I Virgem: tudo está infuso. ó Adon

t \'I .\CIAÇ ÃO E ENCOi'•lTRO DE MIRA-CELI 547

I lu quantos milênios bate no meu barro o vosso diapasão de luz? 1\donai. vejo presenças nas ventanias, -1111 vossas mãos por acaso ou vossa túnica multiplicada. 1111 ;1penas Mira-Celi. a de fogo e música. a reclusa e onipre- 1sente'?

FfERNIDADE

~~F REVJli-SF.: não em mais nem corpo nem sombra nem escombros.

Como f oi isso ? Tudo irreal: um barco sem mar a hoiar.

t':le sentiu-se: recomeçava. Vivera morrendo numa estrêla.

tle despiu-se de quê? De tudo que amara. Surdo-mudo cegara. Agora vê.

CREIO, ó vós, Três Pessoas Imensas e Eternas que não tivestes prln• [ cípio e nunca tereis fim: que ao têrmo desta vida terrena, apenas o coração deixe de bater e alguma leve mão piedosa me cerre os olhos cansados; Mira-Celi se refugiará em mim, e eu comparecerei diante de vós, ó Formas Imensas da Trindade Perfeita: c a minha vida verdadeira então começará; e Mira-Celi voltará outra vez para algum de meus irmãos n11 [Terra. Poderei olhar-vos face a face, ó Pessoas Incriadas e Imortais que engendrastes as gerações de que provim e as raças que antes de mim desapareceram. Viverei em vós, ó Infinitas Formas Imortais, como Adão e Moisés mortos e ressuscitados em vós, como os ressuscitados poetas Davi e Salomão, e todos os mortos ressuscitados em vós. Viverei em vós, como o primeiro e o último dos ressuscitadoN. E tudo existirá. E tudo será visível. Serei, ó Formas Eternas, ó Majestosas Pessoas Trinas, novamente como no Princípio.

SEI QUE ESPERAVAS desde O Início que eu te dissesse hoje o meu canto solene. Sei que a única alma que eu possuo é mais numerosa que os cardumes do mar. Sei que u amplidão guarda o seu orvalho para regar meus lábios.

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