Poemas - bloco 03 (p. 241-248)
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Chagas de enxôfre chinesas chiam, choram, cheiram, numa chuva de chispas, chispas de todos os tons, listas de tôdas as côres e no fim sempre um Tchi - bum I Fogueira I Fogueira ! A menina bonita saltou a fogueira de meus olhos. Meus olhos ficaram cheios de fumaça de sonho !
Um tiro chocho chamusca o dedinho do zezinho. Chi I Não chore I Olhe a charanga I Não chore meu bonequinho de fogo ! minha rodinha de amor ! Chegam meninas ... Lá vão ... No meio delas lá vai o pequeno com um chumaço de água gelada na mão ! - Queimei meu dedo inda há pouco! - Dê cá que eu chupo seu dedo e você fica bonzinho ! E, zás-trás! chupam o dedinho queimadinho do zezinho I Vamos agora, zezinho, ver quem sabe soltar fogos, foguetinhos de assobio,
sem lágrimas meu coração ? - Chuvinhas ? - Chuvinhas I E enquanto chove lá fora a chuva fria do céu, chovem cá dentro chuveiros, charutos dinamarqueses, chorões de chispas vermelhas, enxames de vespas chiam, chiam, chiam, bailam, bailam lá-coxia, cruzam-se em xis morrem no chão. Meus olhos estão chorando. Fumaça ! Fumaça I
G. W. B. R.
VEJo ATRAVÉs da janela de meu trem os domingos das cidadezinhas, com meninas e môças, e caixeiros engomados que vêm olhar os passageiros empoeirados dos vogons. Esta estrada de ferro Great Western feita de encomenda pra o Nordeste é a mais pitoresca do universo, com suas balduínas sonolentas e seus carrinhos de caixa de fósforos marca ôlho. Houve um tempo em que os rebanhos se assustavam aos apitos dêsses trens; hoje os passarinhos olhas das linhas ribeirinhas do telégrafo, o pitoresco que ela tem, aos vaivéns, aos arreganhas, rangendo e ringindo interminàvelmente. Devo fazer um poema em louvor dessa estrada, com todos os bemóis de minha alma lírica,
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porque ela, na minha inocência de menino, foi a minha primeira mestra de paisagem. Ah ! a paisagem da linha : uma casinha branca, uma cabocla à janela, um pedaço de mata. as montanhas, o rio, e as manhãs, ~ os crepú~culos ... l" o meu trenzinho romântico indo devagarinho para que o poeta provinciano visse o cair da tarde, e visse a paisagem passando ... Nas gares há meninas bonitas, mocinhas amarelas, matutos, caixeiros fumadores de cigarros da Caxias. E à languidez quente da hora, noivam cães pelas ruas, potros perseguem éguas nos campos, ,. a mulher proibida, que não é pura como os animais, vem à soleira da choupana dar um adeus ao maquinista que ela nunca há de beijar
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outros expõem ventres inchados, colunas vertebradas de clown, beiços de boxeadores vencidos no último round . .. Louvado N. S. Jesus Cristo; Louvado seja ! Perdoe irmão ! Perdão de Deus ! As môscas fazem uma manifestação de aprêço aos pobrezinhos. O condutor quer dar uma esmola : não tem trôco; e uma menina do Recife não vai almoçar porque olhou o homem sem nariz. Coitado! Glicério! Meia hora para o almôço. :e a dezena do macaco I - I 00 contos ! - Loteria de Minas Gerá. Pretas oferecem tabuleiros de comidas boas : manuês, sequilhos, alfenins, midobim, caldo de cana, broas. Há um calor que até parece febre de maleita. Passageiros vão ao restaurante tomar cerveja gelada, e o trenzinho toma água pra poder vencer a serra do Cadeado.
Passam os últimos quintais. as últimas meninas, os últimos vendedores de pão doce, os últimos mulungus dos cercados, e agora é um trecho do mato, imbaúbas, canafístulas, gravatás, ouricuris, e aqui e acolá canaviais,
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canaviais, canaviais, a doçura do Brasil, a embriaguez do Brasil. E lá vêm usinas, engenhos, engenhocas, bolandeiras, plantações de mandioca e fumo, e aqui c acolá algodoais, algodoais, que parecem velhinhas de cabelos brancos tecendo o tecido barato para o pobre vestir.
Vem da 2.a classe um repinicado de violas. A 2. a classe é divertida : cantigas, choros, pés descalços, mãos calosas. A segunda classe compra breves, orações, de S. Sebastião e S. Pulquério contra a esipra, Sonhos de Nossa Senhora, anunciações pra defumar a casa, Meninos-Deus contra o sol e o mal salgado; bentinhos, a História Conselheira do Padrinho Padre Cícero ... A 2. a classe vai em pêso t·mharcar no Lóide pras lavouras de S. Paulo. Laje do Canhoto : (belo nome I) Aqui há um massapê para balas de bodoque c que é bom de se comer. Canaviais, algodoais, casas de palha, carrapatciras, ninhos de xexéu, velhas fazendo renda, caboclinhas.
Olhos que seguem o trem ... Despedidas ... - Deus te leve ! Nosso Senhor te acompanhe. -Meu filho I -Minha mãe I Na J.B coronéis discutem tarifas e direitos. Negociantes queixam-se de impostos. Caixeiros-viajantes contam aventuras da Rua das Flôres e dos sete pecados mortais; e as meninas namoram com os estudantes de Direito que vão passar as férias com os papais. Sítios, fazendas, cercados, terreiros, moleques, pinhões, vales, serranias, queimadas, canaviais, bangüês. Estações, cidades e cidades tôdas iguaizinhas com barbearias, feiras, padarias, intendências mumc1pais, tôdas elas tão iguais, com os mesmos telegrafistas avariados, os mesmos chefes fleumáticos, os mesmos moleques que agridem à procura de ca~go. Hotéis familiares, bilhares falidos, igrejinhas pobres, cemitérios cheios de mato, tudo igual, tamancos,
chinelos, gaforinhas, trocadores de cavalo, cangaceiros, clarinetes, panelas de barro. Jlaslil de nomes que o conferente está zangado. Vamos olhar um pedaço de paisagem." O trem vai atrasado." Como sempre tôda a viagem." Mais adiante apita. .._ J! um cavalo na linha I" ··- Não é I - diz o condutor," '"é uma curva fechada." A gente olha : não é nada I 1:ni o maquinista que chamou uma menina da margem. Ela conhece o apito. Cinco horas da tarde. Arde nos céus o crepúsculo. Há em tudo um sossêgo bonito, e o rio encontrou o trem. o rio é mais ligeiro do que ele. Parece uma cobra que quisesse devorar um mocõzinho. O mocó foge da cobra, entra no mato, sobe ofegando nas rampas, corre nos planos; o rio desce as encostas, pula nas rochas, geme nas grotas, e quando o trem cai em si lá vai o rio na frente. De repente passa debaixo dt's carros, entra debaixo das pontes, l"untorna serras e montes, c lá vai à frente da máquina. O trem olha, e escorrega, vai devagar, com medo. Vamo.o; dar uma caninha ao maquinista ! c 1 conrerente é contra a velocidade.
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O trem arranca. O maquinista baixou a lavanca a 4 pontos. Desce um luar em Utinga, Satuba, Fernão Velho. A cobra espelha ao luar. E o trem foge, pula nas pontes, apita, escorrega nos trilhos. Lagoa do Norte ! A cobra vai beber água. Fernão Velho I Bebedouro I Maceió! Great Western of Brazil Railway feita de encomenda pra o Nordeste, minha primeira viagem deslumbrada I Ferrugem. Fumaça. Meus brinquedos. Pó.
OLHADO
MENINO JEsus de Deus e da sagrada luz que a mãe santa deu à luz numa segunda-feira do santo Jordão na beira que o Santo Cristo bmzeu que Maria concebeu que homem feito cresceu sem temor de olhos e olhados em nome dos santos rezes erl te benzo eu te livro eu te curo eu te sarvo com 3 cruzes no teu peito com 3 cruzes nos teus olhos.