Anunciação e Encontro de Mira-Celi - bloco 05 (p. 533-540)
.1:\'l':VC/AÇÁO f." LVCONTRO DE MIRA-CEI.I 533
O QUE EU NÃO vosso ~ encerrar êstes brad•s de independência dentro da vossa cesta do possível. nem evitar a demolição de vossos ídolos que se refletem dentro de meus espelhos. Ontem vicr
EsTES CINCOS PÃES e êstes cinco peixe~ \àO semelhantes a todos os pães e a todos os peixes dêste mundo. Distribuo-os a cinco fomes semelhantes; a tôdas as fomes absolutamente semelhantes no mundo. As fomes dos cinco continentes, às fomes dos cinco mundos [ espoliados pelos cinco demônios ladrões de peixes e de pães. I'm minhas mãos êstes cinco peixes representam um oceano salgado de lágrimas. E êstes cinco pães são como cinco trigais devastados pelo fogo [ das guerras. llá um momento em que das hastes do trigo brotam pães semelhantes a peixes: c os trigais oscilam, como vagas de mãos acenanuo para o~ céus.
534 ./OR(if. JJE /./,\/.I O/IR ·I CO:\fl'LicTA VOI.UM/.
Desce dos céus trigo para as almas famintas de peixes que voam como peixes-voadores sôhre os mares encapelados - mares encapelados. semelhantes a trigais ondulantes em I.JUC voam pomba~. - pombas semelhantes ao Paracleto. ao Peixe Voador, ao Cristo, ao Cristo multiplicado c distribuído em mim.
1\1 AS Al CJN li C E que fico muitas vêLCS denunciado por inúmeros flagrantes. Reconhecem-me de longe cvidcn::iado pllf troféus c trapos. pelas minhas quedas. meus triunfos. pela minha cauda de bôbo e meu ~udário. Sento-me e vejo que estou sôbre a~ sepulturas de meus antepassados; ossos quebrados, cinzas de ossos, húmus propícios nos insetos subterrâneos de olhos vagos. Pendem de meus dois flancos: enforcados, dementes. surdos-mudos, órfãos de guerra. prêtos escravos. reis libertinos, prostitutas, negras c até aves sem ninho e pombas cegas. Debalde procuro alívio em Mira-Cdi: também a profanei e a enterrei viva num recanto de céu entre as estrêlas.
NÃo QUERO SEGUIR as pegadas que os heróis ou os simples na- [vegantes deixaram sôbre o mur limitado entre continentes
1.\'I':VCIAÇÃO E ENCONTRO DE MIRA-CEU
1· povoado de peixes obesos e vorazes, 111'\ a~ rotas da terra assinaladas pelos impenos e pelas pátrias; lll'lll quero fugir para nenhum país ignoto ou para alguma cs- 1 trêla tranqüila: 1'11 me elevo como uma vaga montante até Mira-Celi - a louca. Sl' quereis vir comigo. vindc: 1\LI~. se tendes as mãos sujas de qualquer azinhavrc. l'tlllle. que vos lavarei as mãos. N:to ides viver. ó santos. ó fariseus. ó escribas. ó publicanos. 11 raciados eleitos ou não, em algum mito longínquo 1111 qualquer mesopotâmia renascida entre homens: 111a~ vinde para a memória. para a duração. para a Poesia. 1 1 perigo está em vos detcrdes nas constelações inferiores pois só os horizontes vos devem atrair 1111 os apelos que entre um minuto c outro descem das mãos de [Deus. I ·alai êste passo cadenciado que vos ensinaram os Guias, 1' êstes gestos vãos diante de tantos ídolos; \1·não vossos passos não terão ressonância, 1· vossos gestos morrerão nas fronteiras. i\ órbita de Mira-Celi é imensa 1· nela ainda há consolos que nunca foram ditos ,, I' alta de palavras na linguagem dos homens.
LÂMPADA marinha. Anjo augurai, rosa, Chama ou lírio ardido, Cosmoramia em Que me transviei. Em certa noite éramos Seis em tôrno de uma Esfera armilar Povoada de insetos. - Não reveles (disse-me). E cu lhe perguntei: - Tu como te chamas'? Seu nome de números Já não me recordo .
Sei que uma menina Começou a alar-se . Avistei-a um dia Ao findar-se o século. Entre muita gente, Gente que esperava A manhã nascer. - Tu como te chamas? Seu nome de números Já não me recordo. Mas, via-a outra vez: O mundo ia acabar, Algumas carruagens Já haviam parado. - No me esqueças nunca! Diz-me, e eu lhe pergunto: - Tu como te chamas? Foi há muito tempo. Já não me recordo. Oh, não procureis Um nexo naquilo Que dizem os poetas.
EM NOME de Mira-Celi, levantai-vos soldados caídos para sempre na luta, desde Abel [até hoje. Não deveis quedar-vos sob os húmus das mesopetâmias, é tempo de despertardes, de acordar-vos de vosso sono milenar nos outeiros sagrados! Em nome de Mira-Celi. acordai, soldados caídos nas guerras: é tempo de abandonardes êstes imensos campos cobertos de [cruzes ou as valas anônimas em que misturais vossos ossos; é tempo de afastar os eternos gelos em que haveis mergu- [lhado lutando; é tempo de estraçalhar brancas mortalhas de neve em que aliviais as queimaduras da pólvora;
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os vossos cavalos cegos ou mutilados vêm alta noite relinchar [dentro das ventanias; acalmai vossos corcéis; vinde com êles, que é tempo de despertar. Em nome de Mira-Celi, regressai, soldados desaparecidos nos [êxodos ou refugiados na morte, aviltados pelas deserções, fuzilados como [traidores ou espiões; é tempo de levantar vossas frontes enegrecidas; rcgressai, soldados covardes ou fugitivos ou de peitos arrombados pelas metralhas ou enforcados ou martirizados ou arremessados de aviões e de [pára-quedas; é tempo de despertar do solo de vossas pátrias, soldados que haveis tombado em milhares de guerras 4ue a memória do homem esqueceu, ou da!. guerras que a história não registrou, ou que nunca foram encontrados no mar, ou desapareceram na voragem dos bombardeios, soldados desmemoriados, loucos ou conscientes que abençoa- 1' [ram ou amaldiçoaram a guerra, soldados que vos suicidastes, é tempo de desertar. Em nome de Mira-Celi, vinde, !>oldados tombados em tôdas as [guerras! r: tempo de desertar! E. com a fôrça dos milhões e milhões que representais, arrasar na superfície da terra ou no ar llll no fogo ou na água aquilo que é preciso arrasar.
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40 ' li. I,'I QUANDO SENTIRES tua carne incendiar-se ' ~ c a labareda divina altear-se no ar, :I dcsfralda tua bandeira neste tope, 4uc logo virão dos quatro pontos cardeais li os conspiradores que precisas: li pois tua língua não pode continuar a que herdaste ·I I. nem os teus homens são os que hoje te cercam . 'I,r Antes que os tambores ensurdeçam teus ouvidos ~I I I• I Ir I,
JORC;t~ /JE L/1>.1.1 1 O/IRA COMPLETA 1 VOLUME I
e teu passo se cadencie num galope constante. vê que :1 dor do mundo deseja redimir-se em teu canto. f. certo que te esmagarão como se esmaga uma asa. 1\..las as penas que espalhares no chão ~ podem voar ao vento e baixar com sua sombra mínima sôbre qualquer ôvo perdido dentro dos ninhos abandonado~. Entre a noite e o mar visitarás de novo os litorais desertos. e semearás teu pólen. Hão de cair sôbre êle as chuvas que lavam as tempestades, e se os homens não quiserem ouvir-te. ressurgirás para as abelhas ou para as solidões em que Deus ouvirá as pu lavras do Início.
ANTES Do NASl'IMEN ro ohs~:uro do teu ódio encarnado. {\ chefe assassino e usurpador de tôdas as .!pocas. Norte e Sul iam e vinham abraçados nos céus despidos dl' r borras~:as. A água das fontes era errante e virgem. o mar não tinha limites nem dísticos humilhantes. a cabeleira das constelações balouçava nas vagas recém-separadas do alto firmamento. Fôste. também. uma semente que D.:us semeou para o Bcrn. cheia de recordao.;ões das órbitas angelicais; mas o ventre que te pariu foi fendido pelas negações; c então arrebanhaste sôbre os charcos do mundo tôdas as formas hesitantes sem destino seguro: Es pestilento e destruidor como teu pai decaído; em teu ombro nenhuma sombra vem descansar: matas as noivas. as crianças e as velhinhas sem bordão; é~ a antítese de Cristo: dispões das legiões temerosas. e ninguém te pode vencer através das idades. Ontem. pelas esquinas noturnas. meninas órfãs soluçavam, cães uivavam com frio. a escuridão aderia aos periósteos. Pressentiam-se madrugadas com fuzilamentos, milhares de mães. insones. torciam-se ante os altares, e. quando os anjos-guardiães fugiram das encruzilhadas. um vento de capa escura encheu as pobres vilas do mundo. No alto, Deus principiou a chorar por seu Filho.
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I{ 1 I'OUSA ALI, perfeita e casta como se estivesse dormindo_ 1~comctricamentc envôlta em seu manto talar. I agora que o crepúsculo baixou, vêem-se bem suas asas quietas, I duas a duas dobradas como as fôlhas do Antigo c do I Novo Testamento. I ntrc: os dedos já há luz; e levitações quase imperceptíveis IÍ·m suspenso no ar um fio invisível prêso à sua fronte c per- [ dido no espaço. :\I"' de súbito. que bramido de mar começou a brotar de sua I fronte lívida ! que vôos vêm fazer ninhos em ;cus ouvidos c em seus [lábios! l)ttc pensamentos repousados principiam a fluir lentamente I nas pálpebras 1· tremeluzem um instante sôbre o cristal do espelho !
1 ma hora depois alguns signos foram vistos
lugindo de seus pés: era a sombra de seus passos que se mu- I dava em pólen ! 'wLL\ pés agora pulam marc~. ilhas e ahismos gelados. i I Indiferentes aos espíritos das trevas que bufam como cavalos 'I I asfixiados, 111difcrentcs H algumas caras de assombro reflctid
l ou ocultos. d li 1\ distância entre as tranças mortuári;1s 1· 'cu berço primitivo volve a começar desde ontem. 1\las. como o aspecto do ataúde muda de momento a momento, r o instantâneo é impossível com êstes olhos nublados de lá- [grimas 1· com o rapto parcial umas três horas depois.
" posição que ela devia tomar entre Orion c Andrômeda 11 ou xc-me há séculos fragmentos de sm1 ausência inquieta: 1•1 imeiro a paz que me foi devolvida. 1· depois. a luz que Deus me deu para vê-la dormir sem fun- [ dir-se em matéria. I
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.540 JORGE DE LIMA. I OBRA. COMPLETA / VOLUME 1
Os seus olhos se diluíram numa ou noutra visão de algum [ santo poeta, c êste desejo de fraternidade que nos une, 6 companheiros. é o sôpro de seus acenos que ainda paira na terra. Tudo se levita e se transforma nesta jovem defunta, ou bela adormecida, - ondina celeste, medusa de astros, (lU simplesmente, nesta fome de Eternidade.
EsTANDO o POETA recostado sôbre as bordas do lago, eis que ficou semelhante a um veleiro adernado; mas visto de outro ângulo era esquisito cisne. Não o cisne acostumado a nadar nas superfícies, porém um cisne dos profundos oceanos e capaz de voar até onde o ar é puro. O seu olhar penetra o espaço e devora a matéria, enxerga na escuridão como as aves noturnas. Vêde que o seu pescoço é uma serpente sagrada sem comêço e sem fim, quando se r~curva em círculo ou distendido sobe como uma flecha em busca de Mira-Celi. A deusa fecha-o em seu corpo. ~ um contacto íntimo sobreposto em eclipse. Os lábios de Mira-Celi sorvem o bico da ave e as asas alvinitentes do veleiro enfunado fecham-se, estremecendo sôbre o ventre da musa. A grantle maré se eleva: é como um mar de espuma. de onde surgem arco-íris sôbre países novos. A natureza está úbere: houve uma transmutação das formas. Mira-Celi restaurou a expansão de seu ser.