Livro de Sonetos - bloco 03 (p. 577-584) Obra Completa, Volume I · Capítulo 38 de 90
Obra Menu

Livro de Sonetos - bloco 03 (p. 577-584)

1/1'/W DE SONETOS 517

PoR ÊssE ÊRMO de tardes calcinadas houve em maio uma casa desvivida o Se andorinhas dormiam nas cumeadas só esvoaçavam na abóbada da ermida o

Um santo ali vivia morta vida orando pelas casas habitadas o Sua casa, no entanto, era vivida na memória das coisas já passadas o

Somente bichos langucs - basiliscos participam do pão que Deus lhes dá devorado por cobras c escorpiões o

Pois êle é irmão dos sete São Franciscos: que o sétimo é êle próprio que ali está sob o acicate das flagelações o

O QUE HÁ SOB essa máscara é um pranto sêco, pranto final, sem lágrimas, calado o A pele ressecou-se em fruto pêcoo :1 fronte dolorida. o olhar parado o

Não há saída mais para êssc beco o Tudo perdido, tudo consumado o O que há sob essa máscara é um pranto sêco, sem esponja de fel e último brado o

A~ formigas subiram pela fronte e desceram ligeiras pelos cravos Jas patas ressequidas, pelas unhas oo o

Cadáver sêco em solitário monte. sem complacências e sem desagravos. sem madalenas e sem testemunhas.

PARA DESVENDAR, fui. Não alcancei lírios de mel nem manto das infâncias. Escarcéu nos oceanos, nas distâncias, nenhum cetro nem bússola nem rei. Pregaram-me depois as mãos na lei. Fiquei parado com diversas ânsias. No relógio de sol várias constâncias, constâncias e constâncias; me deitei.

~ melhor repousar os teus cabelos sôbre as vagas, as nuvens, ventos, quilhas, sôbre o braço que estende a noite escura. Meu irmão Esaú de estranhos pêlos sem primogenitura e sem lentilhas, a escada é para baixo, e a pedra é dura.

NÃo ME IMPORTA que os olhos me devassem e vejam o rio o mundo dividindo: De um lado luz e de outro lado treva . Estranho ser, um ser de duas faces .

B dum extremo e do outro, vozes, vozes, dia e noite incessantes dialogando. B os membros todos desaparecidos para reaparecer com membros novos. Agora o claune se contrai furioso. Entram pés pela bôca, mãos nos olhos e êle repousa exânime em seu ôvo. Depois nasce outra vez, e é o mesmo diálogo, o mesmo desespêro e as mesmas vozes que se repetem sem cessar de novo.

1/I"IW DE SONETOS 579

VEREIS QUE o POEMA cresce independente e tirânico. ú irmãos, banhistas, brisas, algas e peixes lívidos sem dentes, veleiros mortos, coisas imprecisas,

coisas neutras de aspecto suficiente a evocar afogados, Lúcias, Isas, Celidônias. . . Parai sombras e gentes! Que êste poema é poema sem balizas .

Mas que venham de vós perplexidades entre as noites e os dias, entre as vagas e as pedras, entre o sonho e a verdade, entre ...

Qualquer poema é talvez essas metades: essas indecisões das coisas vagas que isso tudo lhe nutre sangue e ventre.

Eu SEI QUE ATRÁs do seu olhar havia um outro olhar como uma chama escrav-a: Sob o olhar de Raquel o olhar de Lia no pórtico das órbitas velava.

Quando às vêzes Raquel o olhar cravava em alguém ou a alguém Raquel seguia eram os olhos da irmã o que se via. era o olhar da pastôra que ali estava . Debruça-se o pastor no olhar do filho. Que é que via nos olhos que fitava? Nos olhos bem-amados que é que via?

Por certo de Raquel o estranho brilho. Mas atrás dêsse brilho bruxuleava o olhar de Lia, Lia, sempre Lia.

JORGE OE U.\1.-1 OBRA COMPLETA 1 VOLUMIC I

O HORIZONTE era estreito, e a postçao entre a nuvem fugaz e a pedra fria não deixava que víssemos a mão misteriosa c gigante que escrevia.

Então se ouvia a voz: "perecerão'' ... Tempo não houve mais, uma agonia invadiu os sêres em tribulação: e a nuvem se abateu na pedra; e havia,

havia apenas pelo espaço estreito, o sonido da mão que registrava milênios e milênios e milênios.

O oceano apodreceu no próprio leito, e uma lava comum, estranha lava de loucura inundou bêstas e gênios.

O MUNDO estanque, o céu alucinado, o olhar vítreo de Deus furando o tempo, c o tempo confundido com o espaço cinzas. pedras. destroços, cemitérios.

Cemitérios sem cruzes. cruzes mortas sem o sangue d'Aquele que as amou, solo salgado para que jamais a vida surja nêle novamente.

Cavalgam pelo espaço e pelo tempo três cavalos rinchando. São as únicas vozes, vozes finais. as vozes parvas

a que te reduziram voz do mundo: órfã de tudo o que era amor humano nem lhe resta o clamor de Deus chorando.

/11'/W DE SONETOS 581

Tuoo ESTANCARA. Eu mesmo. Do alto vi-me: Um coração sangrava sôbre as pedras. Vi afinal que um pobre ser abjeto Um crime cometera. Reconheci-me.

Clamei então: Meu Deus, meu Deus, parti-me, jogai o meu cadáver aos insetos, envolvei-me de cinza, ó Deus, feri-me os olhos para que eu me torne cego.

E o Senhor Deus ungiu-me todo em cinza c mergulhou-me as órbitas em treva. Depoi'i. ó Deus, chorastes sôhre mim.

E dêstc pobre rebotalho de Eva para Vossa grandeza renasci-me: Que à Vossa complacência não há crim('.

SENTADO nas pirâmides vulgares espero que a Constelação do Peixe volte a brilhar depois das águas, como antes delas brilhou inicialmente.

Dêsses céus descampados olho o mar, vejo-o minguar, desejo que nos deixe agora sem tristeza e sem assomos e sem essa aflição de pai ausente.

Dêsses céus abismais desvendo o feixe luminoso dos astros familiares aos olhos dos astrônomo'\ cansados.

Quero assistir ao trágico desfecho dêsse último espetáculo encantado que irá encher espaço. terra e mares.

S82 JORGE DE LIMA i OBRA CO,HPLETA I VOLUME I

SoLILÓQUIO sem fim e rio revôlto - mas em voz alta, e sempre os lábios duros ruminando as palavras, e escutando o que é consciência, lógica ou absurdo.

A memória em vigília alcança o sôlto perpassar de episódios, uns futuros e outros passados, vagos, ondulando num implacável estribilho surdo.

E tudo num refrão atormentado: memória, raciocínio, descalabro ... Há também a janela da amplidão; e depois da janela êsse esperado postigo, êsse último portão que eu abro para a fuga completa da razão.

VINTE sÉcuLos de revolução e inda há fome do pão que é a poesia. Quando tento saciá-Ia, tento em vão: é meu ritmo perene, noite e dia .

Cristo, quero escutar Teu coração: pendo a cabeça e escuto-o. Essa agonia de fazer o poema, essa paixão, na última Ceia começou. Seria,

um de nós. . . um de nós era suspeito, um de nós entre os doze Te trairia. E sob o pêso dessa suspeição,

repousei a cabeça no Teu peito. E êsse ritmo de vida que eu ouvia era o ritmo de fome dêste pão.

1/VIW DE SONETOS S83

A CASA está em sombras imergida. Na sala de visitas os retratos pendem. Pendem as flôres ressequidas. A luz morreu. O ambiente é timorato. Na alcova em que viveu a bem-querida se esvaem gestos, há -signos abstratos errando na penumbra; há outras vidas pressentidas no fúnebre aparato. A aparência das coisas coagulou-se em desesperado hiato. Não há passos, nem mãos, nem seu olhar, seu olhar doce, nem nada; nem o som de sua fala nem a lembrança vaga de seus traços nem Tua Voz, meu Deus, para acordá-la.

E ESTA ANGÚSTIA de te recompor, traço a traço, tua boca dolorosa (fonte que se exauriu), teu rosto escasso, 6 musa angelical e airosa rosa! Desfaz-se entre mim tua morte, em passo desvanecido e obscuro, a melodiosa dança. Afrouxa-se breve, breve o laço que nos prendia, 6 musa e rosa airosa. Desvanecida frase e pensamento, 6 lâmpada marinha, tênue vaga que te esvais! Onde pairas no momento em que procuro refazer-te, glosa, repetindo diante de mim a vaga presença angelical de oculta rosa?

Busco-TE VIVA e impossível Rosa irreal desgrenhada, Água fugida sem nível, Nuvem fugaz desgarrada.

Esquiva fisionomia Desfeita, recomeçada, Suave névoa erradia Para sempre in devassada. No horizonte ou na janela, Na varanda ou no vitral, Doce espectro repentino.

Anjo saído de esteJa, Desmanchada rosa irreal Sem descanso, sem destino.

~STE POEMA de amor não é lamento nem tristeza distante, nem saudade, nem queixume traído nem o lento perpassar da paixão ou pranto que há de

transformar-se em dorido pensamento, em tortura querida ou em piedade ou simplesmente em mito, doce invento, e exaltada visão da adversidade.

e a memória ondulante da mais pura e doce face (intérmina e tranqüila) da eterna bem-amada que eu procuro; mas tão real, tão presente criatura que é preciso não vê-la nem possuí-la mas procurá-la nesse vale obscuro .

'

1/1
Menu

Fazer anotação