Invenção de Orfeu - Canto IV: As Aparições - bloco 04 (p. 751-755) Obra Completa, Volume I · Capítulo 59 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto IV: As Aparições - bloco 04 (p. 751-755)

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO IV 7SI

O poeta de eternas contingências, (eu me disse com a bôca dos do inferno) : contar não podem como tinhas ido parar na mesma selva tenebrosa, tendo perdido a verdadeira estrada; ó repetida viagem, sal constante nos lábios e no pranto, no batismo de quem nasce na lua em que vivemos.

XX

São comparsas de farsas ou capelos ou dançarinos loucos e obstinados . Inda dez voltas não haviam feito, outra legião em círculo a encerrava. Em voz acordes todos e em concêrto quedarem vi com carrilhões mais altos; com mil arcos de fogos mensageiros curvam-se iguais, de luz sempre crivados. A coréia girava pelejada quando a milícia que o Senhor louvava, dez sóis pôs a rodar precipitada. E tais coisas não há quem as definaj enrosca-se pequena a humana língua pois eram sóis a procurar destinos.

XXI

O grande ser profundo, musa intacta, A pro- de fundidos cabelos, inconsútil, rura da teu pousado suspiro, sôpro e lume, Fac~­ Musa tuas mãos enlaçadas, tua máscara, ;,dusa sombra de antigas faces, minha essência, cuidado! não despertes, não te mudes, 6 grande ser profundo, musa inclusa, divina selva, tida como densa,

teu inerte abandono me acalenta no escarvado do seio sempiterno, nas roupagens talares que te vestem, na palavra insofrida ainda imersa nesse oceano de símbolos latentes, oh! grandeza de sombra que me sentes.

XXII

Ai! que sou eu enfim: senhor e pr&a desta nova e imitada tirania; refulge dentre as sombras da agonia a auréola solar que observo acesa . n mais triste que vós, 6 natureza, &se facho de luz que espalha o dia; modêlo sou de mim. . . mas, 6 tristeza! a mim próprio ofereço-me em porfia. De crime a nódoa que o clamor nlo lava, Sumatra negra, negra catadura sôbre a visão horrível assomava. O criador transformando a criatura que semimorta luz mais deformava, estou sõzinho nesta selva escura .

XXIII

Aquilo tudo enfim assexual e tão bem e tão mal preconcebido, que as façanhas heróicas eram o ente duplo, em flor, reflexão, soberania . E compreendeis acaso essa equação, êsse canto sem lábios proferido e escutado por ouças sem ouvidos? Que é uma ilha afinal senão um círculo?

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO IV 753

Que faz Horália? Gira com a existência, revolve doze rosas entreabrindo-se sôbre o eixo do sol metalescente .

(E a coréia impetuosa era tão forte que não sei se o medonho torvelinho era o sôpro de Deus ou se era a morte) .

XXIV

Eram harpas com asas as harpias que vinham logo desferir seus ais . As suas faces eram lentas dálias, as suas unhas cordas retiniam . E elas tangiam suas harpas tristes, as belas asas brancas agitavam, iam e vinham em seus próprios giros, e em tôrno de seus cantos adejavam .

Minha cabeça voava sôbre as asas e êsses ais e êsses giros repetia, repetia e essas dálias respirava . Insânia: era em mim próprio que eu cantava, e era em mim próprio ainda que eu gemia, aquelas vozes tôdas que se harpiam.

XXV

Retumbaram girando, parecendo rosa de dores desassossegada. Colhido então de fundo aturdimento cai, qual ser em lcaro tornado.

Desci destarte ao círculo decrescente que distâncias menores compreendia. Ouvi os que viviam no ódio horrendo injuriando ao Senhor que o permitia.

E agora era Rosália que agitava o canteiro de lumes circunsoantes no limite em que a esfera se ocultava. / E Circéia que vinha com os cavalos rodar no picadeiro os membros móveis em seu circo de touros marialvos.

XXVI

O presente libfdia, vulva em frente aos possessos de Deus reincarnado que te entreabres com visgos e corolas e agiol6gios de vidas escarlates. O Francesca continua agonizada, companheira de infância, tatuada como as sereias da cintura abaixo, dêsses mares de flôres hibernadas. Urna febril dos seres solitários, treva sem lei em que as papoulas nascem e os santos do deserto suam mijos. Mas indelével mãe que marca os filhos com os beijos fundos que jamais se apagam com a santa baba com que salga o mundo.

XXVII E de repente, passa-se de novo a cena da coréia delirante; e enquanto vem do cimo o cisne de ouro, os dançarinos mudam de semblante. Senti meus olhos mais que dantes altos, sem perceber se o giro estava em mim OU se DOS seres áureos que giravam como corola viva se entreabrindo.

INVENÇÃO DE ORFEU I CANTO IV 755

Era um orbe rodando todo aceso arrastando-me à vida; e aqui e além levando-me de vez no eterno giro. Da visão vale a hora verdadeira. ó minha Graça, ó Vida de repente, que loucura medonha e que alegria!

XXVIII

A chama como em Dante tinha voz e era trina em seu vértice torcido. Do cimo dominava os malebolges c a altiva serra e a ínsula insofrida.

Columba e santo amor, meu canto rude, - antro sétimo - , salva-o das borrascas, adeja sôbre as vagas luz aguda dos astros, astro-rei dos demais astros. ó divina vigília guia-me entre os infernos das ilhas solitárias abandonadas aos inquietos ventos.

E na selva selvagem me sustenta. Equilibra-me, 6 fôrça ascensionária, voz inicial de meu sempre silêncio.

XXIX

Vi-me a girar em tôrno à própria ilha (6 coréia medonha e derradeira!), dentro da confusão prodigiosa, no pólen estelar de estranha rosa, a sofrer tanto em mim o mesmo giro, a vertigem tremenda sempre acesa, a agonia a rondar-me procelosa, (eu culpado da vida vitoriosa) ,

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