Invenção de Orfeu - Canto I: Fundação da Ilha - bloco 07 (p. 675-677) Obra Completa, Volume I · Capítulo 48 de 90
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Invenção de Orfeu - Canto I: Fundação da Ilha - bloco 07 (p. 675-677)

/VI fNÇ.W DE VRFEU I CANTO PRU.IEIRO 675

Por que tanta occania, tanta etiópia por fogo e ferro sempre conquistadas'! Por que tanta aflição por tanta cópia, salvadores de terras fatigadas? Cornualhas dêsse mundo, cornucópia de promessas jamais realizadas? Por que êsse messianismo vos lisonje pretendeis encarnar o que está longe. Eis aqui essa restela ave c:mora, em penas de cassandra renascida, coleira circundada côr-de-amora; ave fadada não inadvertida, adiante dos sucessos rememora a sombra projetada pela vida. ó ave de c1arões assinalados de vôos dentro do tempo recuados. Não me extasio adiante das viagens mas de quem fêz os mares me extasio, de quem dotou as plantas, de plumagens e de plumas dotou êsse navio que navega entre símbolos e imagens restelado no pélago vazio. Eis Ciro de Cambises rei da Pérsia, das perseidas, Perseu de alta solércia. Eis Perseu com sua ama e rocim pago e galgo corredor e Sancho e lança e pendências em vão, de vão estrago, de válida invenção e boa andança, de Amadises fiéis o mundo vago que é tudo o que nos resta por herança. Adiante o brilho. o escudo aquém; o som antes da voz, Quixote antes do Dom. Essa crônica fiel de Cide Hamete Benengeli escrivão-mor de la Mancha em tormentos e símbolos compete com a aventura real que se desmancha e se refaz em poema e se repete em luz e sombra, em claridade e mancha; que tudo é assim - a fábula vulgar que funde no homem, céu, terras e mar.

Não sei se teus espectros, lusa gama, estão em teus arco-íris ou nos fogos com que a noite dos céus arde e se inflama. Não sei se estão nos meus, se nos teus jogos que tudo erra e se esvai na mesma chama; a comandos celestes e infernais, as almas se transformam, c o céu baixo agita-se ao clarão do eterno facho. Restelo continua gêmeo astral, sempre sol duplo gravitando em poemas; aprouvc-lhe essa órbita casual como em lemúria foi vários sistemas. Se tudo flui em eixo diagonal, nada lhe impede de aclarar teoremas e predizer agruras camonianas muito além dessas cartas taprobanas. Contudo grande Ovídio, o calendário necessita de grandes abluções. Mataram César ontem - sangue diário nesses marços de guerra e de aflições; os jogos dêste mês tumultuário são os roteiros das condenações . Penduraram cabeças inocentes, enodoaram de sangue os teus poentes . Instalados os reinos e os impérios, eu próprio matei Um. Herodes tantos; Caim matou o irmão, há cemitérios nas camadas de chão dos térreos mantos; chove sangue nos pélagos aéreos; Ciro dizima assírios, César santos . Os poemas se tingem de vermelho; é uma face sangrenta cada espelho. Mais baixa que veneza o empíreo desce, estrêlas caem, desmembra-se o montante, a armila ardente achata-se e decresce; há certa estrêla plana no sextante; o orgulho dos canais desintumesce. Em ti, veneza próxima e distante, nessa tão represada dissonância, vem morrer tôda glória e tôda ânsia .

1.\'I'ENÇÃO DE ORFEU I CANTO PRIMEIRO 677

Tentamos sepultar-te nessa praia abaixo dêsse nível cavernoso, ambígua susiana, infanta e aia, púbis e quilha, ventre belicoso, mas tão aliena musa, irmã tão gaia que um puro incesto canta marulhoso; cúpulas gemem sob as águas quietas, ó vcneza dos dogmas e poetas!

XXXIX

Nessa geografia, eis o pantomimo. Ah! o pantomimo! Múltiplo imitando mitos, sêres e coisas. Pessoalmente. Convictamente é tudo em potencial. Mais vale convicção que essa teoria, que aquêle dicionário, e aquela Cólchida. /',mlo- Mímico racional. Ah! o pantomimo, '"'"'o - êsse intuitivo. Monstro e semideus. tle povoa a ilha, êle dança a ilha. Ele heroíza a ilha, êle epopeíza. Desarticulação fulanamente. Muda dramaturgia se possesso, se fábula, se intui, se histrião, se bufo. Ah! coribante ilógico, aliás lógico, linguagem transparente, angústia - a face, flexíveis olhos, membros palavreando. Desarticulação, libertação. O contingência: desarticular, dançar, parecer livre, exteriormente; c ser-se mudo, c ser-se bailarino, nós bailarinos, todos uns funâmbulos, todos uns fulanos. Então, dancei-me. Perpétuo Orfeu e tudo. Pulo e chão. Polichinelo, polichão dessa ilha .

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