Universo da obra
Universo da obra
VELHO e o caozinho foram andando na sombra enjoada da tarde. Tinham passeado muito.
Dobraram a esquina da Rua dos Clerigos. Os vizinhos
saudavam-nos. Eram ambos antigos no bairro e na
cidade. Alma havia regressado naquelle instante. Re-
tirou a blusa, mostrando ao espelho do seu quarto
guindado os alvos seios manchados de apertos.
Pensava: porque sera que quando uma porta
me machuca, me faz soffrer; quando bato a cabeca
numa janella, choro de dor; e ehe pode me cortar
a navalha, nao dog: é delicioso!
Mas lembrou-se da Odette, qlle estivera com
Mauro no teatro, eMle contara. E ficou dizendo
suffocadamente no quarto:
Canalha! Bandido! Miseravel! Miseravel!
Transformava-se numa desencantada revelacao.
Ela que fora apenas, até aí, a crianca fulva de olhos
glaucos, pondo a silhueta destacada e a longa sombra nas corcovas aridas de Oblivion, ao sol, com
Jorge, o primo de sorrisos sisudos; e depois da casa
de loucas fechada, a adolescente imprecisa, a netinha
que preparava o banho morno do velho e fazia comer no melhor prato, na cozinha de terra, o cachorro
pelludo e antigo -- era agora, nos musculos de Mauro, a extravasante mulher, deflagrada num embate
de complicacoes e de rodeios.
Chegou-se a janella. Seriam cinco horas da
tarde; o velho e o cao passeavam ainda. Olhou a
rua e descobriu, parado
a, esquina, contrito sob o
chapeu de palha, o telegrapfista pallido que a amava.
Nao a vira de-certo entrar. Se soubesse onde @
eMla
andara, o que fizera.. Alma teve um arrepio incon-
OSCONDEMNADUS
tido. Se contasse ao avo... Mas nao: Joao do Carmo
era um rapaz direito, incapaz dessas torpezas.
Ele ja a percebera, de certo, no balcao. Puyera-se'a caminhar, num passo medido. Cumprimentou-a. Foi-se. Queria casar-se com ela, mas nunca
ousara falar-lhe.
Pela rua, ia longe uma mulher de branco. Uma
carroca passou, tilintando. A tarde descorava.
E la vinha ele de novo! Um subito nojo invencivel tomou conta de Alma. Teve o impeto de
gritar-lhe do balcao que passasse uma vez so, que
lhe deixasse ao menos a vontade de velo.
Fechou num repelao a janella toda. E, no escuro, uma pancada fulminou-a: Mauro!
Cahiu no leito.
Numa mobilidade de puzzle, a mascara alva
cascateou um choro desigual, com altos e baixos de
animalidade lasciva.
O seu leito pequenino, o confessionario entontecedor dos seus sonhos... Alli, no rocar dos travesseiros alvos, ela aprendera a embellezar a vida..
Desmanchava 'as trancas vermelhas pelas fronhas,
alimentando a voragem intima. Xingava-o, rolando.
Era uma tristeza, no emtanto, que pedia mais, esse
soluco de ternura divina que a inundava num fluido
AWTRILOGIA-DO-EN
calido. Chamava-o com as pernas. Era uma gata
ruiva... E esticava-se retesada de
sensacoes para
adorat. Vinha-lhe a cabeca uma tonteira gostosa
e sentia as pancadas sublimes do seul amor... sim...
nao... sim... nao...
Chegara a visionalo tanto, nessa louca jllusao
do ser centuplicado, nas sombras beneficas do quarto,
que o tinha perto afinal, vigtoriosa escrava.. sim...
nao...
La fora, na tarde despejada, Joao do Carmo,
com um no na alma, passava sempre encurtando
as contramarchas.
E, no desencontrado idyllio, como um coyhmentario da vida, ergueu-se, alongou-se pela rua e pelo
ceu, un pregao triste da cidade:
- Pi...nhao quente!
Na sala espacosa, com mesas cheias e bolotas
multicores de papel nos lustres anachronicos, a
desgracada festa dos sem amor estrugia' desde meianoite.
OS CONDERNADOS
Os enfeites ingenuos do tecto eram um sarcasmo para a rapariga canalha, vestida em vivo de
gigolette. que dansava grudada ao seul par.
e de um artista, chorava no fundo de fumaca.
Um bebedo maxixou num bolo, com duas mulheres semi-nuas.
Uma cancao canalha levantou gritos. A um
canto, trepando uns sobre os outros, para ver (
papel pautado, femeas e meninos esguelaram.
dansarino, enroscado a mulher que espedacava, provocou hurras hystericos.
Chamava-se Mauro Glade, e era filho confuso
de confusos dramas da America.
Crescera a sombra espevitada de uma creada
de servir, que dava o dinheiro do ordenado a um
homem da vizinhanca.
Tinha o pae, so o pae, de nome differente, mercleiro do Braz, grosso e insensivel como um cepo de
acougue. E a vida por heranca.
Investindo com unhas de atavismos piratas para
os mundos coloridos dos dancings, fizera-se macho
na meia-tinta embriagada dos prostibulos. Nunca
trabalhara mezes a fio. E vestia-se bem.
ATRILOCIA-DO-EXILIU
Adunco, metaplico, dansava nas ceias nofturnas
como um deus decahido. E bebia.. adcentuando o
rictus heroico que o marcava, e reforcando a epica
suggestao canalha dos olhos pestanudos, que punham
desfaflecimentos no coracao das asyladas dos bordeis.
Joao do Carmo approximou-se, no sereno da
noite, para receber a resposta de sua olisada carta.
Continha a felicidade dentro do peito musculoso de
passaro vivo. Ela
nadador; segurava-a como um j
estava alli, pallida silhueta, esperando-o. Iyhmobiligava pupillas verdes de velludo e crystal na moldura
das grandes alvas supplices.
Ele continha a felicidade dentro do peito musculoso de nadador, segurava-a
como uim passaro
vivo.
Interpellou-a, entregando-se todo, passando-lhe
pelas grades, numa offerenda paysica, os olhos e o
peito que badalava.
x Mas uma punhalada certa alcancou-lhe o coracao
confiante. O moleque Bastiao entrou da rua. Flia
dissera-lhe que tinha outro amor. Ficara conversando.
Pareceu-lhe ver o cao achegar-se latindo. Pareceulhe vel-a ir para dentro.
Caminhou na diredcao do seu quarto. Recordava
o dialogo. Ela dissera que preferia o outro porque
ele a amava por vicio. Ele gritara estranguladamente que nao. Era do fundo do coracao que a
queria.
Adcendeu a lampada eledtrica. Sentia-se so no
Sentara-se. Depois, ergueu-se com
seu naufragio.
um grito apenas suffocado. Andou. Repetiu com os
punhos amarrados versos de Baudelaire.
Sentiu que qualquer coisa ria horrivelmente de
se, da sua situacao de telegraphista, do seu credulo
romance, dos seus grossos musculos inuteis.
Chegou-se a janella
num confuso palavrorio
mental, onde havia muito destino, muita pesquisa
do eterno coracao das mulheres.
Encostou a cabeca a vidraca fria. E, da rua,
subiu-lhe as temporas, pelos ouvidos, uma vaia infinita de grilos.
Saiu. Pela avenida, sob os bicos de gas
eas
as arvores espacadas, ia declamando todos os versos
altivos que sabia.
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