Universo da obra
Universo da obra
[POEMAS I
Eu QUERIA saber versos como o meu amigo Lau. Nunca vi versos mais belos como êle sabe lá. Trocava até meu carneiro meu velocípede sim sem saber os seus versos meu Pai que será de mim '!
Meu pai me bote na escola de meu velho amigo Lau quero aprender com êle versos e não b, a. bá ! ! ! c7 :mos de id11de. l
MINHA MADRINHA Nossa Senhora Está admirada de mim. Está me olhando agora Os olhos virados para mim (R ano.. <le idade.)
BENEDITO criado de meu pai A êle chamam diabo Por ser prêto êsse rapaz Mas Benedito é meu amigo Por isto eu o bendigo E lhe digo muito ancho Benedito você é um anjo. (8 ano1 de idade.)
TENHO PENA dos pobres, dosaleijados, dos velhos Tenho pena do louco Neco Vicente B da Lua sozinha no céu. (9 :mos <.lo idade.)
0 DIA DE HOJE é O dia de anos Da bela professôra D. Moça Oh I Colegas alagoanos e pernambucanOii Eu peço hoje que me ouçam. D. Moça é uma santa santa viva Seu marido João Marinho é S. José. Colegas neste dia de hoje tenham fé. (lO anos de ldado. >
A SERRA de minha terra Sabe histórias de trancoso E histórias da negra guerra. Quando eu fôr moço Irei lá para ver de cima O sobrado da família Lima. (lO uno• de id11de.)
VI UM MENINO cégo Chorei por êste menino. Minha tristeza não nego Vi um menino cégo Choro por êste menino 110 wno~ do idade.)
MORO EM !'RENTE da Igreja Vivo feliz com meus pais. Menino que mais desejas Quando entras, quando sais? 111 auoi .lo idade. )
.\r/NETOS IM7
PLANTAS
NASCEM PLANTAS nas trevas! Infelizes, buscam o Sol e o Sol não as visita. A Natureza faz-se mãe maldita: não lhes dá leite, não lhes dá nutrizes. Eis a tragédia anônima. infinita! Uma catléia, para ter matizes, por sôbre as outras plantas se espevita c suga e arruína como as meretrize.'> ... E êsses desvios comprometedores, és tu, ó Natureza, que os concitas; e, para que teus erros vulgarizes,
se crias plantas que dão fruto e flôres, outras como as talófitas suscitas, que não têm fôlhas e não têm raízes! 1<1'16.
LÁGRIMA- VELHO TEMA
O LÁGRIMA bendita e santa e universal. Eu te quero cantar, e êste meu canto inspire-o A feição que eu te dei, de intérprete geral Da dor - de todo ser infalível martírio ...
Que processo te faz no minério em cristal, E na gôta que luz no cálice do lírio? Talvez tenham os dois, uma tortura igual A tortura que funde em lágrimas o círio.
IRR JORGE DF. LIMA OHRA COMPI.ETA , VOLUME I
Seja embora ilusão, hei de sempre mantê-la: - No côncavo do céu, há lágrimas astrais E o bólide celeste é a lágrima da estrêla ! Malfadadas irmãs ! - são lágrimas iguais : A resina que cobre as árvores fendidas E a lágrima ele dor das íntimas feridas ! A E5coln Alagocmn, Maceió, 18 abril 1907.
D. GRILO
NoiTE TÔDA eis-me a ouvir o trilar de D. Grilo. E que chuva lá fora estrugindo e ululando ! E velamos os dois: eu surprêso em ouvi-lo, E D. Grilo a lembrar um trovador cantando ! Que feições há do amor em cantá-lo e exprimi-lo : Um rugindo estridente e outro agora vibrando Umas notas sutis, um invariável trilo, Mas que deve encerrar um coração pulsando! E D. Grilo a trilar. . . E que noite lá fora ! E que chuva e que vento I E D. Grilo a trilar: Queixas de quem padece e apaixonado chora ... E D. Grilo a trilar sem alívio e confôrto ... E que noite e que vento ! Há de um corpo tombar : e D. Grilo, coitado, emudecido, morto ! O Albor. Maceió. 19 julho 1907.
AVE SOL!
AVE SoL que entreténs o noivado das asas E a cisão regular dos gérmens, das bactérias. Desde o feio paul, das podridões, das vasas As carícias carnais, humanizadas. sérias !
.\IINI:"TOS 1119
Réstia de sol, saúda o noivado nas casas, Os noivados do mar: dos corais, das astérias! Ave sol que entreténs, alimentas e casas O que habita o paul e o que possui artérias ! Ave sol que entreténs o noivado das flôres. O noivado brutal dos chacais, das panteras. E o noivado vocal dos pássaros cantores !
Ave sol I Ave sol ! - ~ o loirecer do fruto. o o
Ave sol I Ave sol! - ~ o regougar das feras o o o
- e o cântico vital que em tôda a parte escuto ! O Albor, Maceió, 19 julho 19070
O RELOGIO
RELÓGIO, meu amigo, és a Vida em Segundos ... Consulto-te: um segundo I E quem sabe se ag01a, Como eu próprio, a pensar, pensará doutros mundos Alma que filosofa e investiga e labora ? Há de a morte ceifar somas de moribundos. O relógio trabalha. . . E um sorri e outro chora. Nas cavernas, no mar ou nos antros profundos Ou no abismo que assombra e que assusta e apavora. o •
Relógio, meu amigo, és o meu companheiro, Que aos vencidos, aos réus, aos párias e ao morfético Tem posturas de algoz e gestos de coveiro o o •
Relógio, meu amigo, as blasfêmias e a prece, Tudo encerra o segundo, insólito - sintético: A volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece ! A lnstrurcio. Maceió. 1907.
190 JORGE DE LIMA . OBRA CUMPI.F.1A I'OL.UME I
A VERDADE
EsTA PLANTA pequena e encontradiça enflorn no vale, na rechã, nos barrocais, na areia ... E da grota à eminência ela nasce e vigora, de saúde, verdor, de clorofila, cheia ... E, na treva do abismo ela germina, embora. Mas, em busca da luz, ei-la a subir ! Anseia ! Busca · mais luz ! E cresce. . . e se transforma ! E agora é um arbusto ! E depois, em árvore frondeia ! Eu às vêzes comparo esta planta à Verdade ... Ofuscai-a, vereis: faz-se doutrina, templo ... Derribá-la, vencê-la e dar-lhe fim, quem há de ? - "Um mito - vós direis - que deve ser desfeito'' ... ":Bste caso - medito - em muita gente é exemplo: Esta planta - é a verdade; a treva - o preconceito". O Alhor, Maceió, 1907.
A MORTE DO ARTISTA
n MORTO o Artista, o torturado Artista .. . Ei-lo sem vida, como um cristo louro .. . Dizem que foi sua maior conquista Polir o verso do seu estro de ouro ! Paira por tudo a viuvez e o agouro ... Não há talvez quem neste mundo exista Que ao vê-lo morto para sempre, em chõro Não sinta logo anuviar-se a vista ...
·.,' 'rros I 'li
Mas o martírio que se renovava ! Quando quiseram transportá-lo, font Cobriu-se tudo de um celeste brilho :
Nossa Senhora soluçando estava ... fanto chorara por Jesus outrora. Quanto chorava pelo novo filho ! 190R
MENTIRA
. . . E TE CHAMAM pecado ! E haverá quem não sinl<t Que viver é mentir '! Se o mundo inteiro mente O mentir é pecar ? É pecadora a tinta Que novo faz o bonzo e a sepultura albcnte?
... E te chamam pecauo ! E haverá quem não minta. A si próprio negando o que sofre c o que sente '? E o disfarce ? E o retoque ? E o dourador que pinta D'oiro a faiança e logra a descuidada gente '!
E se o mundo és tu própria ! E se a vida és tu mesma - Mentira secular. vitalizada, santa. Condição de existir do ve11ebrado à lesma !
E se há lábio, meu Deus, que ensangüentado canta. E se há lábio, também, que bendizendo impreca ... B. pecado viver e o mundo inteiro peca ! cK m:trço 1'11!'!.
LE BONHEUR
LE DONHEUR, qu'e.tt-ce donc? un séduisant mirage qui nous fascine et juit? une jiction peut-être ... Oans cet ordre d'idées oi'.l mon esprit s'engage, ,· interroge un soldat, un lihertin, un prêtre.
1'1~ JORGE Ot: LIMA i OBRA COMI'LEJ'A : VOU.IME I
Le l·oldat me répond: "Voulez-vous le cotmaitre? A la gloire rendez l'ardeur de votre hommage .. ." Le libertin: "Le viol! Le plaisir sombre d'être m1 bon sens et à l'honneur un incessant outraf[e .. ,"
Et le prêtre: "l~e ciel! "Ecoutons la doctrine! Le bonheur es/ pour nous un prob/eme éternel dollt la ele/ inconnue n'est que sainte et divine ... "
Mais, en vain, ma rai.mn s'interroge ... Mystere ! Qu'est-ce donc le bonheur? Gloire? Viol? ou le ciel ?... - Rien de plus, écoutez: une vaine chimere I ... O Corlf~u. Maceió, 1910. (Jornal dos alunos maristas.)
DESEJAR
DESEJAR é a contínua impulsão de mudar ... - Desfazer e fazer - que jamais se termina ... Sonhar tudo, ser tudo c de novo aspirar A primcim ilusão que se crê e imagina ...
Carne ter outra carne a sentir c apalpar. E ser beijo que mata e gôzo que assassina ... E ao ser tudo, oh ! tortura, outra vez desejar A pureza d'outrora e os tempos de menina ...
O desejo do tronco é ter verdura um dia, E ao ter verdura vir de novo a ser desnudo, E ser tronco outra vez e não ter rama ria ...
Desejar oh I meu Deus, nada ser e ser tudo ... Não querer e querer. . . Estupenda agonia : Mudo que quer ter voz e ao ter voz quer ser mudo ! A TribuM, Maceió, 7 março 1910.
Texto original de Jorge de Lima publicado a partir da Obra Completa, Volume I. A edição Literunico reúne blocos autorais de poesia e ensaio delimitados no OCR, com exclusão de aparato editorial, notas, estudos de terceiros, colaboração com Murilo Mendes e traduções, conforme escopo de domínio público validado.
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