Ajuda Mútua: Entre os Animais III
Passando agora aos animais superiores, encontramos exemplos muito mais numerosos de ajuda mútua consciente para todos os fins possíveis, embora seja preciso reconhecer desde logo que nosso conhecimento da vida desses animais ainda permanece muito imperfeito. Um número imenso de fatos foi registrado por observadores de primeira ordem, embora haja divisões inteiras do reino animal sobre as quais sabemos quase nada. Sobretudo no caso dos mamíferos, muitas observações cuidadosas ainda precisam ser feitas. Os materiais acumulados para as aves são mais ricos, e mesmo nesse campo sempre surgem surpresas quando a vida delas é observada em liberdade, longe da gaiola, do museu e do laboratório.
Não é necessário deter-me nas associações de macho e fêmea para criar a prole, provê-la de alimento nos primeiros passos da vida ou caçar em comum. Convém mencionar, de passagem, que essas associações são regra mesmo entre carnívoros pouco sociáveis e aves de rapina. Seu principal interesse está no fato de fornecerem campo para o desenvolvimento de sentimentos mais ternos, mesmo entre animais considerados cruéis. Pode-se acrescentar ainda que é raro observar associações mais amplas entre aves de rapina fora dos períodos de migração, embora existam casos notáveis de cooperação em busca de alimento, defesa e deslocamento.
As associações que não se estendem além dos laços de família têm importância relativamente pequena para nosso argumento, tanto mais porque conhecemos numerosas associações formadas para objetivos mais gerais, como caça, proteção mútua ou simples prazer da vida comum. Audubon já mencionava águias que se reuniam para caçar, e há exemplos semelhantes entre aves de rapina de várias regiões. Algumas espécies costumam reunir-se em pequenos grupos quando uma presa exige força ou paciência superiores à de um indivíduo isolado. A caça em comum, a vigilância comum e o revezamento na perseguição mostram que a cooperação está longe de ser privilégio dos animais pacíficos.
A sociabilidade é traço comum em muitas outras aves de presa. O milhafre brasileiro, um dos ladrões mais insolentes, é ao mesmo tempo uma ave extremamente sociável. Suas associações de caça foram descritas por Darwin e por outros naturalistas. Quando esse milhafre se apodera de uma presa grande demais para ser levada por um só indivíduo, logo aparecem companheiros que ajudam a carregá-la ou a despedaçá-la. Outras aves de rapina, que poderiam parecer destinadas por toda a estrutura à vida solitária, passam parte considerável do tempo em grupos, pousam juntas, migram juntas ou se reúnem quando há abundância de alimento.
Entre os abutres, a sociabilidade aparece de modo ainda mais evidente. Podem ser vistos em bandos numerosos, que se alimentam lado a lado e depois permanecem em companhia, pesados e imóveis, como se a vida comum bastasse para lhes dar repouso e segurança. O mesmo fenômeno reaparece em aves de espécies muito diferentes. Tomar voos em bando pelo simples prazer do voo é comum em todo tipo de pássaros. Dixon descreve, no distrito de Humber, imensos bandos de pilritos que aparecem sobre os bancos de lama e se movem em curvas largas, todos virando juntos, como se todo o grupo fosse conduzido por um único impulso.
Seria impossível enumerar aqui as várias associações de caça das aves. As associações de pesca dos pelicanos merecem atenção pelo notável grau de ordem e inteligência que demonstram. Esses pássaros formam uma linha semicircular diante dos peixes, avançam em ordem e vão estreitando o cerco até que a presa fique concentrada em águas rasas. Então a pescaria se realiza com uma coordenação que lembra uma operação pensada em comum. Em outros lugares, pelicanos e outras aves pescadoras repetem formas análogas de cooperação, nas quais o alimento de todos depende da ação combinada de muitos.
Caçar e alimentar-se em comum é hábito tão difundido no mundo das aves que quase dispensaria novas citações. Deve ser considerado fato estabelecido. Quanto à força obtida por essas associações, ela é bastante evidente. As aves que se reúnem encontram alimento com mais facilidade e também se defendem melhor contra inimigos. Pequenos pássaros atacam em comum aves de rapina e as expulsam de suas vizinhanças. Corvos, gralhas, andorinhas, alvéolas e muitas outras espécies dão exemplos cotidianos dessa coragem coletiva que transforma criaturas frágeis em adversárias incômodas para um predador muito mais forte.
Que diferença imensa existe entre a força de um milhafre, de um urubu ou de um falcão e a de passarinhos como a alvéola dos prados. Mesmo diante dele, essas pequenas aves, por sua ação comum e sua coragem, provam-se superiores ao predador poderosamente armado. Elas se perseguem, gritam, mergulham sobre ele, obrigam-no a abandonar o campo e protegem desse modo ninhos e filhotes. A defesa comum mostra aqui algo essencial: a coragem não nasce apenas da força individual. Muitas vezes nasce da confiança no grupo, da prática repetida de agir em conjunto e da certeza de que o perigo será dividido.
Esses exemplos bastam para mostrar que a sociabilidade entre aves não se reduz à criação da prole nem a instintos cegos de proximidade. Ela aparece como meio de alimentação, prazer, defesa, aprendizagem e segurança. Quando observadas em liberdade, as aves revelam uma vida social muito mais rica do que sugere a imagem abstrata de indivíduos isolados lutando por migalhas. A luta existe em certos momentos, claro, embora a vida comum ofereça a muitas espécies o caminho mais constante para conservar-se, desenvolver hábitos complexos e elevar suas capacidades.