Ajuda Mútua: Povos Primitivos IV
Passando agora aos povos primitivos existentes no tempo de Kropotkin, é possível começar pelos bosquímanos, colocados em nível muito baixo de desenvolvimento, tão baixo que não tinham moradias e dormiam em buracos cavados no solo, ocasionalmente protegidos por alguns anteparos. Sabe-se que, quando europeus se instalaram em seu território e destruíram os cervos, os bosquímanos começaram a roubar o gado dos colonos, e então uma guerra de extermínio, horrível demais para ser narrada aqui, foi movida contra eles. Quinhentos bosquímanos foram massacrados em 1774, três mil em 1808 e 1809 pela Aliança dos Fazendeiros, entre outros episódios. Foram envenenados como ratos, mortos por caçadores de emboscada diante da carcaça de algum animal e abatidos onde quer que fossem encontrados.(11) Por isso, nosso conhecimento dos bosquímanos, tomado sobretudo dessas mesmas pessoas que os exterminaram, é necessariamente limitado.
Apesar disso, sabemos que, quando os europeus chegaram, os bosquímanos viviam em pequenas tribos, ou clãs, às vezes federadas entre si. Costumavam caçar em comum e dividir a presa sem brigas. Jamais abandonavam seus feridos e demonstravam forte afeição por seus companheiros. Lichtenstein conta uma história muito tocante sobre um bosquímano quase afogado em um rio e salvo por seus companheiros. Eles tiraram as próprias peles para cobri-lo e tremeram de frio. Secaram-no, esfregaram-no diante do fogo e untaram seu corpo com gordura quente até trazê-lo de volta à vida. Quando os bosquímanos encontraram em Johan van der Walt um homem que os tratava bem, expressaram gratidão por meio de apego comovente a esse homem.(12) Burchell e Moffat os apresentam como bondosos, desinteressados, fiéis às promessas e agradecidos,(13) qualidades que só poderiam desenvolver-se pela prática dentro da tribo. Quanto ao amor pelas crianças, basta dizer que, quando um europeu desejava capturar uma mulher bosquímana como escrava, roubava-lhe o filho. A mãe certamente viria para a escravidão a fim de compartilhar o destino da criança.(14)
Os mesmos modos sociais caracterizam os hotentotes, apenas um pouco mais desenvolvidos que os bosquímanos. Lubbock os descreve como "os animais mais imundos", e imundos eles realmente eram segundo esse olhar europeu. Uma pele suspensa ao pescoço e usada até cair em pedaços constituía toda a sua roupa. Suas cabanas eram alguns paus reunidos e cobertos com esteiras, sem qualquer mobília dentro. Embora mantivessem bois e ovelhas, e pareçam ter conhecido o uso do ferro antes de encontrar os europeus, ainda ocupavam um dos graus mais baixos da escala humana segundo a classificação da época. No entanto, aqueles que os conheceram elogiaram muito sua sociabilidade e sua prontidão para ajudar uns aos outros. Se alguma coisa era dada a um hotentote, ele a dividia imediatamente com todos os presentes, hábito que, como se sabe, impressionou Darwin entre os fueguinos. Ele não conseguia comer sozinho, e, por mais faminto que estivesse, chamava quem passasse para compartilhar sua comida. Quando Kolben expressou espanto diante disso, recebeu a resposta: "Esse é o modo hotentote." Kropotkin acrescenta que esse modo pertence a muitos povos primitivos, quase como hábito universal. Kolben, que conhecia bem os hotentotes e mencionava seus defeitos sem silêncio, ainda elevou ao máximo o elogio de sua moral tribal.
"A palavra deles é sagrada", escreveu Kolben. Eles "nada sabem da corrupção e das artes infiéis da Europa". "Vivem em grande tranquilidade e raramente entram em guerra com seus vizinhos." São "toda bondade e boa vontade uns para com os outros". "Um dos maiores prazeres dos hotentotes certamente está em seus presentes e bons ofícios mútuos." "A integridade dos hotentotes, sua severidade e rapidez no exercício da justiça e sua castidade são coisas em que superam todas ou quase todas as nações do mundo."(15)
Tachart, Barrow e Moodie(16) confirmam plenamente o testemunho de Kolben. Kropotkin observa apenas que, quando Kolben escreveu que os hotentotes eram "certamente o povo mais amistoso, mais liberal e mais benevolente uns para com os outros que jamais apareceu sobre a terra", volume I, página 332, escreveu uma frase que desde então reaparece continuamente na descrição de povos primitivos. Ao encontrar pela primeira vez povos dessa ordem, os europeus em geral fazem uma caricatura de sua vida. Quando uma pessoa inteligente permanece entre eles por mais tempo, costuma descrevê-los como a raça "mais bondosa" ou "mais gentil" da terra. Essas mesmas palavras foram aplicadas aos ostíacos, samoiedos, esquimós, dayaks, aleutas, papuas e outros por autoridades de primeiro plano. Kropotkin lembra também ter lido expressões semelhantes a respeito dos tunguses, dos tchuktchis, dos sioux e de vários outros. A própria frequência desse alto louvor já diz muito por si mesma.