Ajuda Mútua: Entre Nós XXIII
Uma amiga de Kropotkin, que trabalhara por vários anos em Whitechapel ligada a um clube operário, escreveu-lhe que crianças em idade escolar que pediam pão raramente recebiam recusa, ou antes, quase nunca. Ela acrescentava outros exemplos: cuidar de vizinhos em caso de doença, sem qualquer sombra de pagamento, era prática comum entre trabalhadores, e quando uma mulher com filhos pequenos precisava sair para trabalhar, outra mãe cuidava deles. Se as classes operárias não se ajudassem, dizia ela, não poderiam existir.
Essa amiga conhecia famílias que se ajudavam continuamente com dinheiro, comida, combustível, criação de crianças pequenas, doença e morte. O meu e o teu eram muito menos rigidamente marcados entre os pobres que entre os ricos. Sapatos, vestidos, chapéus e aquilo que fosse necessário no momento eram emprestados de uma casa para outra, junto com utensílios domésticos de todo tipo. No inverno anterior, os membros do United Radical Club haviam reunido algum dinheiro e, depois do Natal, começaram a distribuir sopa e pão gratuitos às crianças que iam à escola.
Pouco a pouco, chegaram a atender mil e oitocentas crianças. O dinheiro vinha de pessoas de fora, mas todo o trabalho era feito pelos membros do clube: alguns desempregados chegavam às quatro da manhã para lavar e descascar legumes, cinco mulheres vinham às nove ou dez, depois de fazer seu próprio trabalho doméstico, para cozinhar, e ficavam até seis ou sete da noite para lavar a louça. Na hora da refeição, entre meio-dia e uma e meia, vinte a trinta trabalhadores apareciam para ajudar a servir a sopa, cada um permanecendo o tempo que podia retirar de sua própria pausa. Isso durou dois meses. Ninguém foi pago.
A mesma carta trazia casos individuais. Annie W. fora deixada pela mãe aos cuidados de uma velha em Wilmot Street, e quando a mãe morreu, a velha, muito pobre ela mesma, manteve a criança sem receber um centavo. Quando a velha também adoeceu e morreu, a menina, então com cinco anos, ficou naturalmente negligenciada e coberta de andrajos durante a doença, mas foi imediatamente acolhida pela senhora S., esposa de um sapateiro e mãe de seis filhos. Pouco depois, quando o marido adoeceu, quase não havia comida para todos.
Outro exemplo era o da senhora M., mãe de seis filhos, que cuidou de uma vizinha durante toda a doença e levou o filho mais velho dela para seus próprios cômodos. A informante dizia conhecer também uma senhora D., de Oval, Hackney Road, que possuía uma máquina de costura e costurava continuamente para outras pessoas sem aceitar remuneração, embora tivesse cinco filhos e um marido para cuidar. Ela concluía que fatos desse tipo eram inteiramente comuns.
Para qualquer pessoa que tenha noção da vida das classes trabalhadoras, é claro que, sem a prática ampla da ajuda mútua, elas jamais poderiam vencer suas dificuldades. Só por acaso uma família operária passa a vida inteira sem enfrentar crises como a descrita pelo tecelão de fitas Joseph Gutteridge em sua autobiografia.(18) Se nem todos caem definitivamente em tais situações, devem isso ao auxílio recíproco. No caso de Gutteridge, foi uma velha enfermeira, miseravelmente pobre ela mesma, que apareceu quando a família escorregava para uma catástrofe final e trouxe pão, carvão e roupa de cama obtidos a crédito. Em outros casos, será outra pessoa, ou os vizinhos tomarão providências para salvar a família. Sem algum auxílio vindo de outros pobres, quantos mais seriam todos os anos levados a ruína irreparável?(19)